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Lágrimas de Prata - Combate Engajado Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Brunno, em 27-05-2008 21:23
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Hospital de Saint Bernard, sábado, sete e trinta da noite. As meninas descansavam no posto de enfermagem e riam falando da vida dos outros quando a enfermeira-chefe veio até elas.
__Vão imediatamente para a sala de emergência. Estão chegando pacientes vindos dos campos de Maginot.

Rapidamente puseram-se em movimento. As primeira que entraram na sala tiveram o choque inicial de ver uma pessoa ferida. Liv sentiu as pernas geladas e estancou no lugar. Doutor Lambert gritou para que ela pegasse uma ampola de epinefrina e uma seringa de Lwer, para que trouxesse o balão de oxigênio e para que contivesse os braços descontrolados do homem gritando.
Havia sido atingido por um estilhado de morteiro e tinha o fêmur da perna direita exposto, fraturado, a artéria femoral disparava jorros de sangue pressurizado e o homem gritava. Havia tecido derretido preso à pele, terra, grama, tudo tinha uma coloração vermelha e preta, nada estava no lugar.

__Preciso conter essa hemorragia. Tragam-se fios de algodão e o agulheiro! Rápido! Façam um torniquete na virilha deste homem!

E qual daquelas pudicas mocinhas iria despir um desconhecido e passar um torniquete - prática ainda usada em 1940 - pela virilha?

__Pelo amor de Deus, o que acham que estão fazendo aqui? - disse furiosa a chefe das enfermeiras, despindo o homem e arrancando gritos de horror das demais.

__Enfermeira Duncan, ao menos aponha uma compressa sobre essa perna, alguém traga soro para lavar esse ferimento! - ordenava a chefe enquanto o médico socorrista passava fios e mais fios tentando conter o sangramento.

O homem gritava e os demais soldados atrapalhavam o atendimento tentando segurar-lhe a mão e dizer palavras de alento. O doutor Lambert cansou dos gritos e atingiu a perna boa do homem com uma ampola agulhada de morfina pura.
Lentamente o rapaz parou de gritar, soergueu os olhos e passou a chamar pela mãe, abobalhado, sem controle das palavras.
Passada a agitação inicial, o médico soltou brados de raiva com as demais e olhou pela janela a estrada de terra de acesso ao hospital. Um jipe carregado de feridos avançava furioso para a porta.

__Preparem-se... - virou-se para Liv, mais branca que o normal, mas em pé - enfermeira Duncan, preciso de você ao meu lado, tenho certeza de que é capaz de me ajudar...

Terceiro Comando Militar do Leste, base de infantaria avançada, Paris, Abril de 1940. As últimas notícias diziam que o recém posto no cargo de Primeiro-Ministro da França, Paul Reynaud e o Primeiro-Ministro inglês, Neville Chamberlain, haviam tentado assinar um acordo de paz com Hitler e não tiveram sucesso.

__Daqui os cavalheiros irão direto para a floresta de Ardenes... - dizia um sargento à tropa. O homem devia ter dois metros de altura e pesar uns cento e vinte quilos. Rosto vincado, bigode espesso e óculos escuros.
As frotas navais da marinha real inglesa ocupavam as ilhas de Danish Faroe, Chamberlain dava sinais de fraqueza e Winston Churchill era apontado como presidente do Comitê Ministerial de Defesa.

__ Estarão sendo esperados com uma recepção calorosa... - ironizava o sargento.

Na Batalha de Narvik aeronaves britânicas conseguem desferir um importante ataque a frotas navais nazistas, um segundo ataque era planejado, mas o Primeiro-Ministro cancela de última hora possibilitando o avanço para a costa do Reino Unido.

__Esqueçam absolutamente tudo o que têm em casa...

Parte das tropas britânicas e francesas começa a ser evacuadas na Noruega, cujo governo estabelece exílio em Londres, deixando nas mãos do fuhrer o destino de milhares de pessoas. A caçada aos judeus noruegueses tem início no final de Abril.

__Este é o fuzil Lebel M93. Será seu grande amigo daqui pra frente! Olhem bem para o homem a seu lado, é bem provável que a próxima vez que olhar para ele, verá somente a metade! Agora arranquem essas caras magras da minha frente e subam naquele caminhão! - terminou seu discurso.

Sentado no sacolejante caminhão sem capota, os homens fardados de cáqui, botas, fuzis, baionetas, facas de campanha, mochilas pesando vinte e cinco quilos e caras sujas, iam adiante até a floresta de ciprestes de Ardenes, onde os tanques e blindados rápidos nazistas começavam a mostrar as carrancas.

Os primeiros feridos passavam por eles logo na chegada e somente ao final da viagem é que tiveram ânimo e estômago para conversar.

__Me chamo Antoine. Antoine Cheaney. Sou de Vergany, Paris, e você?

__Henri Gascoin, sou de Poissy.

Apertaram as mãos.

__Poissy. Lugar de punguistas honestos e prostitutas gordas! Sempre gostei de Poissy.

__Acha que o cenário estará feio quando chegarmos? - perguntou Gascoin.

__Não. Estão exagerando, com certeza...

Gascoin divisou uma construção fumegante ao longo da paisagem. Era uma casa de fazenda em chamas, cujo telhado desabava naquele momento. Em segundos um caça nazista BF 109 passa sobre eles com as metralhadoras Speitzer 130 e canos em brasa.

__Pra fora! Desçam! Escondam-se onde puderem e atirem nesse filho-da-puta! - gritava o sargento no comando.

Gascoin atirou-se no chão e tentou lembrar-se do curso relâmpago que tiveram sobre os fuzis Lebel. Tirou um boldrié do bolso da perna e enfiou dentro da câmara da arma. Seu primeiro tiro de guerra emperrou e a cápsula ficou presa depois de deflagrada.

Queimou as pontas dos dedos tentando tira-la e ouviu alguém gritar alguma coisa segundos antes de um baque forte afastar o caminhão, jogá-lo para trás e lançar-lhe uma onda de terra sobre o corpo.

__Pro inferno nazista cretino! - gritou saindo do monte de terra e atirando para cima na direção do caça em ascensão.

O sargento o puxou pelo braço e puseram-se a correr com o pelotão para uma colina à direita da estrada. Estavam em campo aberto e eram alvo fácil para aquele piloto.

Alguém gritou que havia um córrego abaixo e todos mergulharam na água gelada tentando manter as armas secas.

O caça manobrou novamente para cima deles, mas vendo que o caminhão estava destruído guinou para a esquerda afastando-se da colina. A terceira investida foi contida por algo ainda mais assustador que o barulho do avião.

De trás deles uma bateria anti-aérea disparava os morteiros MLE 27 operada por dois soldados franceses.

__Corram para cá! Estamos sob ataque aéreo! Nosso tenente está ferido e estamos sem comando! - gritou o soldado.

O sargento subiu a colina com seu pelotão, identificou-se e pediu indicações de onde era a guarda dos oficiais.

__Aquela casa de fazenda, senhor. Estávamos todos lá quando ouvimos os aviões chegarem! Nunca os vimos tão rápidos e ágeis.

Uma divisão inteira sem comando. Era preciso reunir os homens e estabelecer comunicação com Paris. Determinar o número de feridos e quantidade de suprimentos, água e comida, munição e posição do inimigo.

__Não estão nos dando sequer duas horas de folga! - gritava o homem ao lado do enorme canhão apontado para o céu - primeiro estão vindo pelo ar, depois ouvimos o rugir dos tanques e blindados vindo pelo sudeste. Não sabemos quantos são, mas estamos perdendo terreno aqui, senhor!

__Reúna os homens novamente na casa-mata. Não atacarão um alvo imaginando que ele está destruído. - virou-se para sua tropa assustada - preciso de um voluntário para incursão a uma légua daqui, direção sudeste, temos de saber quantos são os alemães e se podemos manter alguma resistência e por quanto tempo...

Ninguém se prontificou.
__Eu vou sargento! - disse Gascoin.

__Ótimo. Não espere medalhas, mas curativos. Determine dois homens para acompanhá-lo. Vão rente ás arvores e não toquem nelas, um movimento pequeno em baixo e as copas balançam denunciando sua posição. Certifique-se de saber se há acampamentos montados, carros, caminhões, pistas de decolagem, tropas organizadas e blindados. Quero saber quantos tanques eles têm lá.

Virou-se para os dois homens da bateria.

__Qual sua provisão de comida?

__Matamos um servo ontem à noite, a carcaça ainda pode alimentar alguns homens por algumas horas.

__Você - apontou para qualquer um deles - Veja se arranja outro servo. Esse que vocês mataram quero de abram o intestino e joguem a carcaça no rio. Com certeza os alemães estão bebendo dessa água e vamos dar-lhes um problema de disenteria.

Gascoin bateu nos ombros de dois homens e recarregou sua arma. Foi caminhando na direção indicada limpando o rosto da terra vermelha e dos pedriscos.

__Soldado, qual o seu nome?
__Henri Gascoin, senhor.
__Faça o favor de voltar vivo, Gasco. Preciso mesmo saber o que temos pela frente...
O jovem assentiu e pôs-se em marcha com os demais, um tanto descrentes da atitude agressiva de Gascoin, mas confiantes de que nada iria lhes acontecer.


Publicado em : Literatura - Contos, Policial
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