| Escrito por Brunno, em 29-05-2008 17:27 |
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Quatro horas de uma tarde cinza sobre o céu de Ardenes. O hospital Saint Bernard recebia outro comboio de transporte de feridos. O Major Lambert esfregava o antebraço direito na testa para enxugar o suor, não se importando de deixar sobre sua pele um rastro de sangue do homem a sua frente. As enfermeiras começavam a tomar jeito no atendimento dos pacientes e Liv fazia duas coisas ao mesmo tempo: atendia os feridos auxiliando o pessoal médico e passava instruções para iniciar um levantamento de nomes e diagnósticos nos pacientes. Lambert olhava a moça cada vez com mais admiração. Era organizada e passou a não ligar para sangue, fezes, vísceras, cabelo, ou tudo isso misturado numa massa única. A própria Liv passou a dar ordens às demais, que a atendiam e aprendiam a respeitar, ou temer, o jeito mandão da morena. A rotina do hospital foi tornando-se mais fácil porque o número de feridos aumentava inesperadamente. Inicialmente projetado para receber certa quantidade de atendimentos de emergência por mês, Saint Bernard era agora o principal centro de feridos de guerra da França. Rapidamente as mãos e cabeças de todos estavam voltados para a palavra “trauma” e seus milhares de variações. Liv Duncan foi então chamada a ficar no setor de estatísticas. Ainda que estivesse se dando muito bem na sala de emergência, o doutor Lambert e ela haviam sido remanejados por suas capacidades intelectuais e interpretativas de dados. O primeiro levou a segunda para as salas limpas, calmas e frescas da administração. Trabalhavam um de frente para o outro e sorriam de vez em quando para aliviar a tensão. As notícias vinham diariamente de Paris. O Primeiro-Ministro britânico Neville Chamberlain acabava de renunciar ao cargo abrindo caminho para Winston Churchill. Os governos norueguês e belga estabeleciam seus exílios em Londres. Numa tarde em que Liv redigia um documento para ser enviado ao Comando Geral da Capital, o mensageiro do hospital entrou a sala de reuniões como se tivesse visto um fantasma. __Perdemos a linha Maginot. Os nazistas estão marchando em nossa direção. Parece que preparam um bombardeio à Paris sitiada. Liv entreabriu a boca de lábios grossos e prendeu a respiração. Dois chumaços de cabelos pretos desceram pelo rosto fazendo-a desviar os olhos para a máquina à sua frente. Tirou o papel com os dados de atendimento do hospital e começou a redigir furiosamente outro documento, mesmo que soubesse digitar como se estivesse catando feijões molhados sobre as teclas. __Leve isso ao serviço postal de Paris, imediatamente. Tem de chegar às mãos dos ingleses o quanto antes e deixa essa cópia no Comando Geral. Doutor Lambert estranhou a atitude dela, mas dispensou o jovem. __Que era aquilo, Liv? – e não enfermeira Duncan, os tratamentos começavam a mudar. __ Um comunicado dos armamentos usados em Maginot, doutor Lambert – mas só do lado dele – de acordo com os tipos dos ferimentos que temos tratado neste hospital, podemos dividi-los em corto-contusos e corto-contundentes. A maioria é de ferimentos estrelados corto-contundentes feitos por estilhaços em brasa. O médico apoiou o cotovelo esquerdo sobre a mesa e levou a mão à boca. Ela continuou. __Ou estão sendo feitos por explosivos ou a são tiros à queima-roupa. Como a grande maioria dos homens que chegam está em estado de surdez aguda, posso intuir que é algum tipo de dispositivo de fragmentação. O homem mais velho que além de tudo era major tentou desacreditá-la dizendo que essas armas não existiam, ou eram simples granadas. __Granadas não produzem fragmentos de oito centímetros, major. – levantou um relatório emitido por um dos cirurgiões gerais do hospital depois de operar um homem com “alguma coisa no abdome”. – acho adequado alertar os ingleses e Paris sobre o que podem enfrentar. Impressionante, pensou o major, mas não disse nada. Naquele momento ele tinha de se preocupar com quanto anestésico estava sendo usado pelo centro-cirúrgico. Não tão longe dali um barulho de galho quebrando no chão fez Gascoin agarrar o homem e jogá-lo no chão. Era um dos soldados que havia chamado para ir com ele até o acampamento nazista, adiante, para inventariar suas condições. __Faça mais um barulho desses e acabo com você! – murmurou rispidamente. Combinou com os dois que o acompanhavam que se comunicaria por sinais: punho fechado apontado para cima era para estancar; dois dedos em riste para esquerda ou direita, seguir naquela direção; o número de dedos que ele apontasse na direção do chão era o número de soldados inimigos à frente. Caminharam pela mata fechada da floresta de Ardenes e no fim da tarde, quanto a luz atinge um ponto de pouco brilho e baixa luminosidade, Gascoin avistou à frente uma movimentação. Punho para cima. Os homens parar e baixaram em silêncio. Dois dedos para o chão, os homens se olharam e não sabiam o que fazer. Henri virou para eles e fez sina de silêncio com um dedo sobre os lábios. Caminhou como um gato sobre a vegetação seca e notou dois soldados que fumavam e riam à beira de uma estrada. Estavam recostados em alguma coisa escondida entre árvores. O corso manteve essa posição por dez minutos e não ouvir mais ninguém senão os dois alemães rindo. Aproximou-se um pouco e notou que era um tanque PK Tigre 1, apesar de não saber disso, disse depois ao sargento que era enorme, cheirava à diesel, quadrado e com um canhão de mais de três metros de comprimento. O carro de combate bloqueava a estrada, mas estava virado para a direção oposto ao ataque dos aviões, portanto, não queria que alguma coisa chegasse aos limites de Ardenes. Deixou os homens na posição em que estavam e fez-lhes sinal para aguardar. Avançou mais lentamente pelo terreno e chegou ao limite de uma colina alta, de uns quarenta metros, mas pouco íngreme. Abaixo se estendia o Vale de Ardenes que naquele momento parecia uma divisão do exército nazista. Praticamente tudo era numa coloração cinza claro quebrado somente pelo vermelho e preto da suástica, ostentada em todos os cantos. A esquerda de sua posição estavam as barracas maiores, de mais de vinte metros de comprimento. Ao lado delas barracas menores com homens parados à frente. Uma estrada de terra de onde poeira ainda levantava devia ser a saída dali. Ainda a esquerda havia barracões de tamanhos diversos, uma tenda com cobertura camuflada, homens estendo fios por diversas partes, soldados por todos os lados, mais de seiscentos homens no total, uma divisão de trinta tanques estacionados à sua direita, ou o que ele pode contar, e na extrema direita a pista longa com uma esquadra de dez caças. __Ah, filhos-da-puta! Então é daí que os mosquitos estão saindo – resmungou. Olhou o terreno abaixo. Era escarpado, mas de fácil acesso, podia descer e subir com facilidade. Havia mata fechada e o plano até que podia dar certo. Tirou parte do equipamento para ficar mais leve e começou a descer, mas antes, jogou a água do cantil no que pôde da terra para que a poeira da descida não chamasse atenção dos soldados acampados. Chegou ao sopé do morro imediatamente atrás de uma barraca. Ficou imóvel durante um tempo e notou um soldado fumando e olhando o céu a menos de seis metros de seu flanco esquerdo. Sacou a faca de campanha e pelas costas, cravou a lâmina no pescoço do homem. Se isso ia matá-lo pouco importava, já que era para entrar naquela guerra, entraria de cabeça. Escolheu aquele soldado porque as roupas lhe serviam e nem precisavam ser todas. Tirou-lhe a túnica cinza e o quepe, as calças cáqui do exército francês pareciam as dos alemães sujas. Tirou o cinturão do homem que tentava lutar, mas não podia gritar e tomou cuidado para não tocar demais na pistola Lugger, com a qual não era familiarizado. Terminou de nocautear o soldado alemão e caminhou sorrateiramente por entre as barracas. Viu o que queria sobre uma mesa de madeira dentro de uma tenda apinhada de soldados. Sabia, pela experiência como punguista que poucas coisas funcionam efetivamente como distração. Normalmente acabasse sendo a maior atração quanto quer exatamente o contrário, portanto, entrou rapidamente na tenda olhando a todos nos olhos, sem sorrir, pegou o rádio e deixou o local. Antes de chegar à porta ouviu um dos homens gritar: “Hei! Dies ist mein radio!”. Não falava uma palavra de alemão. Ficou parado com o rádio na mão esperando o que iriam fazer, deixou o rádio novamente sobre a mesa pensando em sair vivo e pegar outro em qualquer lugar. O homem relaxou a expressão, os demais não deram atenção. O soldado de voz estridente pegou outro rádio e jogou para Gascoin. __Bei dieser! – falou voltando-se para o jogo de cartas atrás dele. “Anotar: nunca mais roubar o rádio de um oficial alemão quando ele estiver presente, mas tudo bem se ele for burro!” pensou. Subiu novamente a colina e chegou ao ponto onde os dois homens faziam pouco além de olhar e respirar. Gascoin deu ordem para que o seguissem e foi andando. Um dos homens que estava atrás teve a brilhante idéia de virar-se e rir dos soldados alemães que não os tinham notado. O homem desencostou do tanque e viu o trio resvalando a floresta. __Hier! Franzôsisch! Schnell! – gritou o soldado sacando sua pistola e alertando os demais dentro do tanque. Gascoin não tinha tempo de resmungar. Mandou os homens correrem na direção em que tinham vindo, mas que corressem em ziguezague para confundir o inimigo, pretendia usa RO terreno. Havia duas semanas que estavam acampados em Ardenes sem nenhuma atividade efetiva, queriam ação. Três “intrusos” franceses em seu acampamento não podia ser tolerado. Gascoin subiu com agilidade numa árvore e viu que eram quatro homens ao todo. Dois armados de pistolas e dois de fuzis. Um deles parou e avistou a disparada de um dos soldados franceses e mandou dois de seus homens atrás dele. Ficou com o outro procurando os demais fugitivos. Gascoin sabia que tinha uma boa chance de abater os dois de cima da árvore com dois tiros de sua pistola Walther P-38, mas isso poderia alertar os homens do acampamento. Esperou que os passos dos demais não fossem ouvidos e desceu da árvore com a faca em punho, exatamente sobre o corpo do soldado mais alto e forte. O homem moveu-se no último momento e a faca cravou até o cabo sobre o ombro esquerdo do grande soldado alemão, fazendo-o cair e gritar de dor. O segundo assustou-se e viu que estava perto demais para usar o fuzil. Gascoin baixou sobre o calcanhar esquerdo e girou o corpo. O bom e velho savat, a luta de rua francesa, resultou numa rasteira no soldado que caiu. O maior, ainda como braço direito funcionando, deu um soco que foi quase uma martelada nas cotas de Gascoin, tirando-lhe o ar e quase colabando seus pulmões. Ante de o outro levantar ele passou o antebraço pela garganta do homem aplicando-lhe uma gravata e subindo-o do chão, usando-o como escudo para o grandalhão não desferir outro golpe. O homem tentava se desvencilhar, Gascoin não tinha mais sua faca, o grandão se aproximava rugindo, não havia muito que fazer senão inutilizar um deles. Forçou o polegar contra o olho do homem em seus braços e sentiu o dedo cair num vazio, o sangue desceu pela roupa e o homem desistiu da liberdade e queria levar as mãos ao rosto, desesperado. De relance o corso viu o olho pendurado, mas manteve a concentração do alemão gigante. O homem já tinha a Lugger sacada e apontada para ele. __Auf den boden! Jetzt! O francês não obedeceu. Viu somente que do braço esquerdo um grosso e constante fio de sangue descia até a mão, encharcando as folhas amareladas no chão. O soldado reiterou a ordem para que ele deitasse no chão, imediatamente! Mas ele sabia que bastava esperar. Ia sair dali sem problemas, levaria o rádio até seu sargento e chamariam alguém que falasse alemão. Saberiam quando eles se movimentassem, poderiam prever suas posições. Ele não sabia o motivo exato, mas já havia visto brigas de rua suficientes para saber que aquele sangramento era mortal. __Hemorragia da artéria sub-clávea! – gritavam na sala de emergência... O gigante caiu de joelhos ainda de arma em punho, apenas um minuto e meio depois de levar o golpe no ombro, cambaleante e com a visão começando a perder o foco, sentia frio. __Chamem o doutor Lambert! Gascoin ficou olhando o soldado cair de bruços enquanto o outro urrava atrás dele. Não viu mais os dois soldados, mas ficou sabendo que os homens que o acompanhavam chegaram vivos ao acampamento na estrada para Ardenes. Na mão direita ensangüentada de Gascoin o rádio alemão tremia: “Vorbereitung alles!Angriff starten in sechs stunden!” Que merda era aquela ele não sabia, mas o soldado francês traduziria depois de duas horas como sendo “Preparam ataque, iniciaremos em seis horas!”
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