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Continuação (5) de "IGNIUS - O Segredo da Transmutação" Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Emmanuel Ceriz, em 04-06-2008 12:52
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...
Por vezes, após anos de preparação e espera para conseguir entrar em fase de ascensão, Atlan sentia que alguns dos seus poderes ressurgiam. Mas quando isso sucedia ele sentia "elevar-se" vertiginosamente de um modo muito difícil de controlar.
Tentava aguentar-se então o maior tempo possível nesse estado o que era semelhante a sentir-se em cima de um balão que, por se elevar demasiado velozmente para os céus, parece prestes a rebentar a todo o momento.
O seu poder interior aumentava mais e mais. Porém, sempre que se sentira já muito próximo de se transmutar num ser incorruptível e com poderes quase ilimitados, despenhara-se e estatelara-se, profundamente machucado e despido de poderes.
E as depressões que se seguiam eram suplícios de Tântalo, nuvens negras, imensidões de escuridão raramente entreabertas por um raio de luz ou um momento de paixão.
...

Desânimo

Ah, se ele pudesse libertar-se daquela depressão...

Libertar-se para sempre daquela dor que lhe tolhia os movimentos. Era uma avalanche que, de repente, derramava sobre si o total desinteresse. Já não acreditava em nada.

Pensou em pintar. Retraiu-se perante a ideia. Tinha medo de pintar. Já não vislumbrava em si qualquer talento... desacreditava-se.

Sentia falta Dela... mas não sabia como nem de quem!

Estava perdido, completamente perdido e só; abandonado e confuso nesse estranho universo do qual, no fundo, nada sabia.

O tempo passava e ele estava cada vez mais velho. A vida esvaía-se.. e ele não tinha controle sobre isso. Não tinha controle nem poder sobre nada. Não era nada.
"O que é que eu sou?", interrogava-se Atlan. "Porque é que vivo e até quando vivo?... e depois?"

Não tinha dinheiro. Sentia-se cada vez mais paralisado. Porque tentava evitar gastar o pouco que tinha, permanecia só, em casa.
Pensou em mover iniciativas para ganhar dinheiro e acabar, pelo menos, com esse problema... mas para quê?... não era feliz. Nada lhe interessava. Nada tinha por que lutar.
Esperança? O que era a esperança? Afigurava-se-lhe descabido ter alguma esperança... sentia-se o próprio erro de tudo... uma fraude.
Sentia que era capaz de tudo, mas que em tudo talvez fosse uma fraude, um esboço. Talvez não tivesse realmente talento em nada. Sentia que se enganava a si próprio e aos outros.
Pintava, compunha musica, escrevia, fazia investigação científica, desenvolvia software, construía, projectava... e duvidava da qualidade de tudo o que fazia.
Não, mas havia algo de que não duvidava. Acreditava numa coisa entre tudo o que fizera na vida: um quadro que pintara. Considerava a "Divina" uma obra-prima.
Quereria isso dizer que ele, Atlan, tinha valor?
Justificar-se-ia a sua existência com a criação de um quadro que via como sendo uma obra de arte?
"Não sei, não sei, não sei", pensou.

Por vezes, quando não estava em depressão e começava a fazer algo, como por exemplo pintar um quadro, acreditava no que estava a fazer. Acreditava que algo de genial iria brotar dali.
Mas outras vezes, quando estava a chegar ao fim da sua obra, ao olhá-la, parecia-lhe ver a composição um pouco garatujada de um miúdo. Ou então via algo que era interessante, mas apenas isso, e nada tinha de genial. ...Era apenas uma tela suja com cores.

Agora não havia inspiração, não havia nada.

Eram dois universos estanques.
Passava parte do tempo num, parte do tempo noutro e o resto entre os dois.

Quando estava neste universo, em que agora se encontrava, só havia uma vontade: a morte, o choro, o desespero, a aniquilação. Porque não vislumbrava qualquer bom sentido para tudo isto. Para ele, para os outros, para o universo... para tudo.

Se ele descobrisse uma passagem deste para o outro universo (no qual ele acreditava na grandeza, na felicidade, no sentido!)... transportar-se-ia imediatamente para lá.
"Mas essa passagem, se existir, deve estar dentro da minha vontade", pensou Atlan, "e a minha vontade não existe para nada que me possa fazer sair da inércia do universo onde estou. Tolhe-me. Faz-me encolher, ficar anichado num canto e não querer saber de nada. Isolar-me de tudo e todos. Dormir. Não existir."
Deveria ele força-la? Acordar a sua vontade e forçar-se a passar para esse outro universo, onde ele acreditava possuir recursos inesgotáveis de talento, onde ele sentia que conseguiria encontrar-se e encontrar o seu génio?
Forçar a sua vontade a conduzi-lo para "onde" ele acreditava em que havia um significado grandioso para a Existência e que ele o conseguiria descobrir... força-la para "lá", onde ele confiava que descobriria os segredos do mundo e viajaria entre as estrelas e seria um cidadão do universo, envolvido por ele com amor e transformado num ente com possíveis divinos. Num ente que poderia ser livre de fluir pelo espaço e pelo tempo.
Força-la para "onde" ele ainda conseguia ter uma ténue esperança de a encontrar, a Ela e ao amor total?

"Mas se eu me sinto tão perdido, sem alento, sem sequer saber bem o que quero e o que sou, onde estou, etc...", reflectia Atlan com desespero.
"Meu Deus, eu queria perseguir a depressão e acabar definitivamente com ela, para sempre. Mesmo que isso significasse que eu vivesse na ilusão para esse sempre. Na ilusão de acreditar."
"Mas pelo menos viveria."
"E não sofreria esta dor que me paralisa os movimentos, a imaginação, a alma."

Pensou em escrever tudo aquilo. Pelo menos serviria para que alguém pudesse compreender o que sentia e como era a sua doença, pois não conseguia explicar por palavras quando lhe perguntavam o que sentia.
Mas este simples pensamento causou em si um arrepio de desconforto e sentiu-se tolher no seu sofá para que dali não saísse nem escrevesse nada.
Para quê escrever. Para quê fazer qualquer coisa.
Era como se um mecanismo de preguiça lhe dissesse:
- Vais levantar-te, vais esforçar-te... para nada. Deixa-te ficar na distracção de um programa televisivo.

Todo o seu corpo e a sua vontade se uniam para que nada fizesse.

Observou-se ao espelho.
Os seu olhos estavam baços, o seu rosto descaído. Abatido por um desânimo e um desleixo desinteressado...
Vagueou pela casa. Comeu uma bolacha. Nem tinha apetite... nem tinha nada.
Comer para quê? Não lhe apetecia nada...

Recordou com sensações de desconforto e dor os escolhos da sua vida decorrida. As suas perdas. As várias vigarices de que tinha sido alvo. As suas loucuras. As coisas que estragou em períodos conturbados. Dinheiro que "queimara" e que agora lhe fazia falta para poder viver melhor. Alguma namorada que deixara e da qual agora sentia falta. Mas, mesmo nesse tempo, nenhuma delas fora suficiente para o curar dessa sua doença, desse seu estranho desespero...

Finalmente, a angústia foi grande e, movido por uma vaga esperança de se compreender a si próprio e de que escrever poderia contribuir para uma futura solução, levantou-se.
Encheu páginas de caracteres e continuou a sentir que não se expressara completamente; que não conseguira traduzir tudo o que sentia.

Por fim, abandonou a secretária e dirigiu-se para o seu quarto levando consigo um "talvez" em que pouco acreditava. Um "talvez que amanhã acordasse no outro universo em que acreditava no belo e no infinito".
Mas não conseguia pensar "acredito que vou encontrá-la"... Já passara demasiado tempo, e o tempo aniquila as esperanças e el... ele já não sabia nada!...
...
Paixão

Atlan estava activo. Os seus pensamentos sucediam-se, rápidos:
"Penso em descobrir o sistema holista que permite o pensamento! Entrego-me ao estudo da neurologia, da psicologia, da física, da matemática, da inteligência artificial, da cibernética."
"Anoto as minhas conclusões. Sinto estar a avançar. Acredito na possibilidade de o conseguir e na certeza do meu engrandecimento com esses conhecimentos."
...
"(Estou cansado de escrever. Passa da meia noite Será que tem alguma utilidade, algum interesse, todo este trabalho e este tempo despendido a tentar exprimir o que sinto?)"

Levantou-se, vagueou pela casa pensando nisso, e decidiu escrever mais um pouco:

"Sinto que descubro que há, na Arte, algo por criar. O que está, no homem, para além do consciente. O que ultrapassa o real. E acredito-me criador dessa nova corrente artística."
"Vislumbro um novo passo ontológico do Homem. A passagem a uma nova fase e a um novo grau de consciência. O desenvolvimento da MetaConsciência."
"E empenho-me em encontrar na Arte a expressão do enaltecer dessa MetaConsciência, dessa meta-realidade"
"Do Surrealismo e da arte Abstracta como expressão da psicologia das profundezas e do inconsciente - a Psicanálise, lanço-me à procura do Metarrealismo como expressão da psicologia das alturas e do MetaConsciente."

As ideias tornavam-se cada vez mais nítidas na mente de Atlan.

"Uma realidade holista, a alma do real que ganha a sua existência através da soma sinérgica dos componentes desse real. Ultrapassando o real e criando, assim, uma forma existencial plena e bela."
"Esta ideia encanta-me. Acredito que descobrirei a sua expressão plástica..."
...
Etc., etc.
...
Desânimo

"Agora parece-me que os meus quadros não revelam nada de profundamente inovador que traduza o meta-real e a MetaConsciência."
"Vejo-os apenas como esboços por onde passa uma ténue brisa do que quero e de como quero."
"Mesmo a minha obra prima insurge-se-me bela mas impossível. Impossível porque a realidade me faz crer que não existe alguém assim, como represento no quadro."

Levantou-se pensativo. Enquanto deambulava pela sala, Atlan imaginou como seria encontrar essa mulher-deusa que pintara, há dois anos atrás, numa noite febril.

"Já nem sei se conseguirei encontrá-la e, mesmo que a encontre, não sei se conseguirei substituir a minha solidão por ela. Esta solidão que me dói, também já me faz falta. Conseguiria viver com ela e possuir também a solidão quando dela necessito? A minha confusão é grande e sinto-me perdido..."
"Perdido num universo que, quando esta depressão me envolve, já não sei se é um universo nas mãos de Deus ou se é um universo à deriva, ao acaso."
"Um universo ao acaso em que depois da morte nada resta, em que a existência individual não tem sentido."

Aquela hipótese de um cosmos não inteligente, destituído de qualquer consciência perturbava-o. "E, no entanto, era uma possibilidade. E perante essa possibilidade só restaria uma salvação", pensava Atlan, "transmutar-me! Seria a única forma de me preservar."

"Vejo milhões de seres humanos como grupos de moléculas que se agregam e desagregam. Um universo como um brinquedo louco, sem inteligência nem consciência. Um mecanismo que bate as horas por acaso. Sem alma, vazio, caótico."
"Um brinquedo nas mãos de uma criança acéfala que solta um riso louco. Uma criança que também não é, ela própria, mais do que outro brinquedo num turbilhão de existência."
"Sinto-me impotente, incapaz de fazer a minha própria vida. Incapaz de encontrar a minha companheira, incapaz de parar a minha descida para a decadência, incapaz de viajar pelas estrelas, incapaz de ser o que a minha vontade clama, incapaz de ir até onde a minha vista alcança, incapaz de fluir livre pelo universo, incapaz de saber onde estou e o que sou, incapaz de parar a morte."
"E até incapaz de ser feliz... talvez por ser incapaz de tudo o resto."
...
"Agora, na depressão, olho para os meus progressos na investigação do mecanismo do pensamento através da Inteligência Artificial e parecem-me rabiscos de criança. E parece-me tola a minha ilusão de que poderia vir a descobri-lo."
...
Atlan lembrou-se de Sofia, que nunca compreendera muito bem o que ele sentia, e escreveu:

"Compreendes agora o que quero dizer com a minha depressão?"
...
"...E esta sensação de perda. Sentir sempre o tempo a esvair-se, como a minha vida a escoar-se, na areia de um ampulheta..."

...
Realmente, pensava Íris, essa personalidade triste e apagada em que mergulhava parecia nada ter a ver com aquele Atlan brilhante e entusiasta, transbordante de energia e poder que conhecera em Montserrat, nas Filipinas, durante aquela feroz erupção vulcânica.
Parecia que a sua anterior capacidade para actuar na realidade moldando-a aos seus desejos se invertia; e que esta se transformava em algo que se lhe opunha e o contrariava, abafando-o numa demolidora asfixia...
...
Asfixia

O computador não arrancava.
Desligou-o e voltou a ligá-lo.
Nada.
Agora o écran do monitor nem dava sinal de vida.
Insistiu mais duas vezes.
O mesmo resultado.
Ia insistir mais uma vez, mas pensou que, naquele momento, de nada iria adiantar.
Não era a primeira vez que uma coisa daquelas lhe acontecia. Na verdade, aquele tipo de ocorrências era frequente.
- Bem, tentarei mais logo - disse com um suspiro.
Tinha de ir à vila e portanto enfiou-se no carro e arrancou.
Ligou o rádio do carro. Apetecia-lhe ouvir música, para espairecer...
O rádio começou a tocar e depois desligou.
"Oh, não!" pensou Atlan. "Terá avariado?"
Deu-lhe uma pancadinha e o aparelho soltou algumas notas musicais. A seguir calou-se de novo.
Encostou o carro à berma da estrada. Retirou o painel destacável e voltou a introduzi-lo.
"Talvez seja mau contacto", pensou.
Nada.
"Bom, desisto", e arrancou de novo.
Havia dias em que nada funcionava direito, em que tudo avariava.
"Isso não era o pior", pensou Atlan.
O pior, para Atlan, era o que acontecia no plano afectivo e profissional: o mesmo tipo de bloqueios.
"Lamentamos informá-lo que o seu livro não se insere nas nossas linhas editoriais...", recordou-se.
O pior não era isso. O pior era quando se deixava dominar por uma sensação de asfixia e entrava em pânico - tinha reais dificuldades em respirar.

Estacionou o carro no parque do supermercado e saiu pensativo na mensagem que lera, essa manhã, no telemóvel:
"Afinal não vou poder estar contigo no teu aniversário."
Enfim, era apenas mais uma desilusão, no meio de tantas outras.
Provavelmente, passaria o seu dia de anos sozinho. Como sempre.

Enquanto fazia as compras mecanicamente viu uma cara bonita. Olhou-a com simpatia. Ela atirou-lhe uma cara de susto, como se tivesse acabado de ver o personagem do "Alien".
"Porque é que, ainda há poucos anos, tudo era tão diferente?!..." interrogava-se e voltava a interrogar-se Atlan.

Quando chegou a casa, entrou no seu quarto e ligou a aparelhagem musical. Sintonizou-a na sua emissora preferida.
Estava a tocar Sade Adu. O seu último trabalho, "Sade lovers rock".
Atlan adorava aquela música.
"Nem tudo é mau, afinal", pensou.
O aparelho fez um "pfff..." e a emissora calou-se.
"Ter-se-á dessintonizado?", pensou. Desligou e voltou a ligar o aparelho.
Voltou a premir o botão que sintonizava a XFM.
Nada.

...

Da mente de Atlan soltavam-se espirais confusas.
"Será a minha própria força que me faz estas coisas? Que me cria todos estes bloqueios? Ou será que é o mundo que me cospe anticorpos porque me toma por um corpo estranho?"
"Será que estou a utilizar o meu próprio poder contra mim?... e porquê?"
"Será que não estou a gerir bem os meus recursos?"
"Será que tenho uma força maior do que suponho , tão grande que consegue bloquear completamente a minha vida, e isolar-me numa esfera de aço onde mirro aprisionado?"
"O que é que se passa?"

...

Quando passou por casa de Carlos ele disse-lhe:
- Passa por aqui mais logo para irmos tomar um copo.
Atlan recordou o género de locais mundanos onde Carlos gostava de tomar um copo e começou a dizer:
- Carlos, não posso porque o mundo está fech...
Reflectiu melhor e não terminou a frase.
Como poderia explicar-lhe que o mundo estava fechado para ele? E que só iria sentir-se pior ao sair com ele e ver tantas caras lindas que lhe estavam vedadas?
Atlan sentia que quase tudo lhe estava vedado naquele mundo. Por isso optou por dizer simplesmente:
- Carlos, hoje não posso. Hoje não posso sair contigo.

E rumou para casa com o olhar desfocado no infinito.
...
À sombra da Luz

A luz atraía para si todas as suas criaturas.
Mas ao seu redor, quase invisível, estava uma monstruosa teia de aranha.
"Que terrível deveria ser", pensou Atlan, "para a aranha, amante das profundezas e da escuridão, viver sob os seus raios dourados! Mas, em contrapartida, enchia a barriga com todos os incautos viajantes que se aproximavam da luz numa corrida louca e apaixonada."
Ali, mesmo junto à iluminação das almas, coabitava aquele monstruoso ser.
Até em direcção à luz era preciso caminhar com cuidado...

...(Continua)...


Publicado em : Livros, Diversos
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