| Lágrimas de Prata - Prisioneiros |
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O som do fogo reverberava por toda Europa. As instituições já não existiam e a única coisa que ainda contava por os poucos sobreviventes era acreditar em esperança e glória. Os dias de paz haviam terminado para centenas de homens, mulheres e crianças.
Os restos de vida que ainda caminhavam sobre os escombros eram pessoas errantes gritando por parentes mortos. Poucos sobreviventes dos confrontos não tinham para onde ir, onde conseguir comida, sem abastecimento de água, sem abrigo. O frio abrandava naquela época do ano, mas o inverno próximo seria terrível. A Áustria era uma sombra do que fora. Em pouco menos de dois anos a estrutura básica do país havia sido reduzida a quase nada, operando-se o suficiente para manter os campos de prisioneiros. A Itália era parte da máquina nazista e começava a ceifar jovens para suas frentes ou para as prisões étnicas. A Somália Britânica foi invadida e a capital Berbera, tomada. Através da doutrina de ataque: rapidez, surpresa e brutalidade, os nazistas executavam missões e pessoas pelas blitzkrieg, os poderosos jabs alemães. A África era alvo importante por ser detentora de dezenas de colônias européias: portuguesas, britânicas e francesas. O general nazista Ion Antonescu controla o governo da Romênia que passa a ser parte do Eixo. No final de Setembro a Operação Leão Marinho, que iria aniquilar Londres, estava pronta para ser deflagrada, aguardando somente as ordens do fuhrer. Japão, Itália e Alemanha assinam o Pacto Tripartite formando uma nova ordem de comando na Europa e Ásia. China é controlada por mais um governante de fachada japonês. Os generais do oriente exigem da França a saída de suas tropas da Indochina, o que ocorre após o bombardeio e destruição de grande parte da Força Aérea francesa, agora baseada em Vichy. O Egito é invadido pelos italianos e o estreito de Gibraltar passa para controle do Eixo, toda e qualquer embarcação que tenha de passar por ali recebe uma nova bandeira e um oficial nazista ou italiano assume a ponte, baixando a quase zero o abastecimento de petróleo e cereais para Grécia, Albânia, Líbia, Egito e Oriente Médio. Os meios de comunicação são quase todos tomados pelas forças insurretas e as poucas rádios clandestinas que ainda operam, são de propaganda anti-nazista feita principalmente por búlgaros e tchecoslovacos. O guerrilheiro tcheco Victor Lazlo é detido em Helsinque e levado para Auschwitz. No apartamento onde fora preso junto com outros membros do Partido Democrata são apreendidos planos para executar Adolf Hitler e propaganda anti-guerra. A Inglaterra era a única nação que ainda tinha meios para tentar conter o avanço do Eixo. Os soldados britânicos foram divididos e enviados para diversas partes da Europa desembarcando principalmente no norte da França e nos Países Baixos. Uma divisão em especial, o oitavo regimento de pára-quedistas, tornou-se especialista em saltar dos B-29 com precisão incrível, pousar sobre a cabeça do inimigo e tomar sua posição. O Oitavo Riders, como ficou conhecido, era originário dos fuzileiros, quando isso ainda era novidade, baseados em Hereford, com sua tradicional casa de barcos de cor ocre que nomeou todo o Comando Militar de Ochre House. A Ochre House tornou-se a casa do vigésimo segundo regimento, que teria um futuro brilhante na segunda grande guerra... O local era como o ventre da terra: escuro, frio, úmido e duro. Gascoin tinha os olhos vendados e fora posto sentado numa cadeira de espaldar reto com as mãos amarradas na altura dos pulsos, para trás. Estava sem camisa e só não congelara ainda, porque estava acostumado a passar frio nas ruas de Paris. A água gelada que jogavam periodicamente era como fogo líquido descendo pelas costas e pelo peito. De hora em hora alguém entrava sem dizer nada, batia nos prisioneiros, dando tapas de mão aberta nas costas e no rosto e saía rindo. Henri percebe que há mais dois homens com ele porque choram e tossem. Não imagina quanto tempo está dentro daquele local. Sente frio agora, então, percebe que é noite. Sente fome e só não sente sede porque abriu a boca segundo antes de alguém lhe jogar água no peito. Ouviu o barulho do balde, mas essa esperteza lhe custou mais uns tapas na cara. Não sabe quanto tempo ficou sem dizer nada. Dormiu por um tempo e acordou com os murmúrios de alguém ao lado. Era um soldado de seu grupo de Ardenes, também capturado e levado àquela prisão. __Faça silêncio - disse Gascoin - se percebem que pode falar está morto... O rapaz só percebeu neste momento que tinha companhia. Tentou enxergar por baixo da venda, mas o quarto era escuro demais. __Quem é você? Estava conosco em Ardenes? Sabe o que aconteceu? Gascoin não respondeu. Notou que segundos antes das agressões e dos banhos frios, um pouco de claridade surgia da esquerda. Finalmente ouviu alguém dizer algo que não entendeu, a porta se abriu e logo estavam arrastando a cadeira ao lado da dele. Era o primeiro a cair. O cheiro ficava insuportável dentro do local. Gascoin limpava a garganta discretamente para tentar ouvir o eco e determinar aproximadamente o tamanho da sala, mas não consegui nada. Urinou nas pernas e o calor foi gratificante. Tentou contar o tempo usando os batimentos cardíacos, mas as mãos estavam amortecidas pelas cordas, e logo os ombros começaram a não doer tanto. Depois de muito tempo foi agredido novamente e puxado pela cadeira para fora do local. Foi o último a ser retirado. A venda foi solta e demorou muito para que seus olhos se acostumassem com a claridade de uma sala iluminada por uma lâmpada única e amarela. Um oficial alemão estava sentado atrás de uma mesa diante dele. __Name? - perguntou o alemão. __Gascoin, Henri. O homem anotou num papel. Estava calmo e suas divisas indicavam que era um sargento. Era alto e magro, com o rosto vincado e não parecia agressivo. Tinha o quepe meio caído para o lado e os botões da camisa estava estavam esticados. Entrou outro oficial alemão. __Ein weiteres franzosisch schweine soldat. Ist se starken? - perguntou o oficial mais graduado, este de olhos azuis, cabelos pretos, e ombros largos, apontando para Gascoin. Se era porco ou forte não sabia, mas naquele momento era pouco mais que um pedaço de carne. Os dois conversaram rapidamente e o sargento foi até a cadeira soltando as amarras das mãos do prisioneiro. Os braços penderam ao lado do corpo quase mortos, roxos e inchados. Mais socos e chutes e uns puxões de cabelo para não perder o costume e não mimar o detento e foi levado para uma cela maior, sem venda ou cordas. Não que fosse confortável, mas deitar no chão, mesmo que gelado, e sentir lentamente a circulação correr pelos ombros era muito bom. Em outro ponto várias pessoas estavam em pé, em fila indiana, de cabeça baixa e também amarrados, mas pelos pescoços. O local era um corredor cinza, sem janelas, iluminação fraca e com uns dez metros de comprimento. Os que estavam ali haviam visto como chegaram e para onde iam. Chegaram do Hospital de Saint Bernard e iam para uma sala de onde saíam ou mortos, ou eram conduzidos para caminhões do lado de fora do prédio. Homens e mulheres, médicos, enfermeiras, soldados, administradores, todos posto naquele corredor, todas as manhãs, todos nus, onde eram selecionado e tinham seus destinos encaminhados. Liv era uma das que estava nua e amarrada pelo pescoço atrás de um soldado e na frente de um zelador do hospital. O homem já havia vomitado duas vezes em suas pernas e os gritos das vítimas na sala no final corredor provocavam ainda mais náusea em todos. Um soldado saía e apontava aleatoriamente para alguém na fila, era o escolhido. O critério da macabra seleção não se conhecia. O doutor Lambert saíra morto por aquela porta, quinze dias atrás. Estavam presos há quase um mês, todos vivendo juntos num quarto grande, sem camas, roupas ou qualquer outro agasalho e sendo levado para o corredor todas as manhãs. Eram alimentados com uma ração fétida, mas que era disputada com unhas e dentes. Estavam sujos e não tomavam banho desde que foram presos. Muitos tentavam cometer suicídio. Uma das moças pediu a Liv que batesse nela com o máximo de força que pudesse, porque depois de tentar se matar atirando-se no chão e não conseguindo, viu o quando era difícil fazer aquilo sem corda ou qualquer outra coisa. __Prefiro morrer a ser estuprada por um desses porcos... - dizia chorando. __Tenha força. Não demonstra medo ou fraqueza... - Liv respondia entre dentes. O ódio que sentia era enorme e a única coisa que a mantinha sã. Ela fora escolhida naquela manhã. Tirada da fila e conduzida pelo braço até a sala, foi posta diante de uma mesa longa com vários homens fardados atrás de pranchetas e canetas. Eles a olharam rapidamente de cima a baixo e um deles levantou-se vinda na direção dela. Deu-lhe um tapa no rosto segurando forte suas bochechas e dizendo para que abrisse a boca. Ela puxou a cabeça para trás e o soldado a segurou forte pelos cabelos, agora um pouco mais longos. Os dentes foram examinados e o homem voltou para a mesa. Do lado direito a mancha de sangue no chão ilustrava o cheiro característico de amêndoas, sangue e pus. Disseram alguma coisa e de trás dela uma mulher também fardada veio e apôs sobre seu ombro uma manta branca encardida. Mandaram que ela saísse e que outro entrasse. Liv foi conduzida pelo campo até um barracão, recebeu um vestido velho, maior que ela, e foi posta diante de um alojamento para prisioneiras, somente mulheres, com beliches, sem janelas e somente uma porta pequena. __Você fica aqui, bonitinha. - disse a soldado alemã, com forte sotaque, num francês difícil - Vai pra Berlim com as outras... - fechou a porta e se foi. Ela correu pelas camas tentando encontrar alguma conhecida, notou que havia muito mais gente do que constava do pessoal do hospital. Uma das prisioneiras veio até ela, estava muito magra e pálida. __Você teve sorte. Aqui recebemos comido melhor e roupas para dormir. As camas são frias, mas se dormirmos juntas podemos nos aquecer. Logo vai chegar o inverno e será difícil. __Onde nós estamos? __Eu não sei. Eu estava em Paris quanto fui presa. Acho que meu marido e meu filho estão me procurando, por isso tenho que cuidar da aparência... - dizia com um sorriso morto no rosto. Outra veio até elas e puxou a delirante mulher para a cama. __Não ligue, menina. Ela está vendo o filho em todos os cantos. De onde você é? __De Paris, mas estava trabalhando como voluntária em Saint Bernard. Quando invadiram o hospital nos puseram num caminhão e andaram tanto tempo que não tenho idéia de onde estamos. A mulher devia ter uns quarenta anos. Estava bem acima do peso e parecia a mais confortável ali. Tinha os cabelos sujos e opacos, o rosto manchado de amarelo e unhas destruídas. Disse que se chamava Beatrice e era lavadeira em Toulouse. __Toulouse! Meu Deus! Chegaram até Toulouse! - lamentou Liv, caindo no chão com lágrimas nos olhos. A mulher a ajudou e sentou com ela numa cama. __Não há sorte nenhuma em estar aqui. Veja você mesma: foi voluntária e está presa, eu estava lavando meus lençóis e fui presa, é jovem e bonita, ou estou gorda e não tenho mais vinte anos... - olhou para ela como se quisesse que entendesse. Liv ainda estava paralisada pelo choque da informação do avanço nazista. __...Entenda, menina. O que nós duas temos em comum? - e arregalou os olhos azuis apontando para os esverdeados de Liv - não há uma só coitada nesse antro, que tenha olhos escuros.
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