| Lágrimas de Prata - Política de Guerra |
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Deus abandonou o mundo a sua própria conduta. Essas foram aproximadamente as palavras ditas pelo Papa a um de seus assessores quando perguntado, na clausura, do motivo daquela guerra.
A Itália invadia a Grécia e a Argélia. Mais de duzentos mil soldados gregos renderam-se sem oferecer resistência e o governo foi transferido para Creta, já sobrepujado também. Os norte-americanos começavam a chamar de volta seus navios de combate para manter todos em segurança e certificar-se que estavam funcionando a plenos pulmões. No gabinete do Estado Maior, terceiro andar da ala leste de um prédio de formato imponente e incomum, ainda em construção, os mais generalíssimos militares americanos estavam reunidos havia horas, discutindo se deviam entrar em combate. O presidente Roosevelt queria um parecer definitivo. A indústria de guerra americana praticamente toda baseada a noroeste do país estava funcionando em todos os turnos e nunca havia sido produzida tamanha quantidade de armas, munições e máquinas de guerra. A primeira grande batalha mundial ensinara de maneira fugaz que quem tem mais, pode mais. Adolf Hitler agora era inimigo declarado de meio mundo, praticamente, e isso não era saudável para a economia do império americano. Se o fuhrer desse vazão a seus planos de construir uma Europa nazista sob seu absoluto comando, os americanos seriam muito mais clientes do que credores, representando um desastre. Num momento de expansão da economia, petróleo, energia, infra-estrutura de construção, navios e aviões, eram os rolamentos do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos, foi quando em 1939, notaram que tinham algo que muita gente precisava, tanto mais naquele momento: armas. Eram fornecedores de máquinas de combate e armamento pesado para os britânicos, sem espaço físico para mais fábricas, vendiam motos Harley Davidson para os ingleses, iranianos, africanos e canadenses. A General Eletric e a General Motors começavam a abrir vantagem sobre a gigante alemã Deimler, construtora dos melhores e mais resistentes caminhões da época. O relatório que anos antes fora enviado pelo espião americano, contando as intenções de Hitler de criar uma sociedade ariana perfeita já assustava. As perseguições aos judeus europeus gerava uma entrada de imigrantes jamais vista na história. Navios chegavam aos portos de Nova Iorque diariamente, apinhados de gente faminta e mal tratada, essa gente tinha de ter aquecimento, gás, gasolina, comida, luz elétrica, emprego, saúde, segurança e educação. Postos de trabalho tinham de ser criados e para isso, dinheiro precisava entrar no país, não sair dele. __Como estão os preparativos para os exercícios de guerra? - perguntou um dos generais. __Quase prontos. Nossos pilotos estão treinando constantemente em Fightertown. A frota de cruzadores está nos atracadouros e somente os carriers ainda não chegaram. __E onde estão neste momento? __Ao largo do Pacífico, aguardando melhora do tempo. Pretendem atracar no porto mais próximo assim que as tempestades cessarem. __Onde pretendem atracar? - disse outro dos homens das armas, este de uniforme azul e divisas da aeronáutica. __O porto mais próximo é Pearl Harbor, mas tem calado baixo, por isso, devem esperar mar calmo. Se qualquer um daqueles grandalhões tocar nas pedras da baia teriam um terremoto colossal. Na ponta da mesa o chefe de sessão, General de Divisão David Dwigth Eisenhower, ouvia os relatórios dos colegas e esfregava os olhos pequenos e caídos para os lados. Descansou o charuto do pesado cinzeiro ao lado da mão direita e abriu a gaveta. Tirou um exemplar do livro de Julio Verne das edições Hetzel "As Aventuras do Capitão Hatteras no Pólo Norte" e folheou rapidamente. __Senhores... -todos se calaram, o General Eisenhower era conhecido por ser exímio diplomata e por isso, respeitado quando falava-... Temos informações que os japoneses estão manobrando navios no Pacífico norte. Isto é bem perto do Havaí. Como estão as defesas de Pearl Harbor? Os demais se entreolharam e poucos tentaram explicar que não havia motivos, segundo o secretário de defesa, para temer um ataque ao arquipélago. Tinham uma frota inteira de navios e aviões prontos para o combate. __Como dissemos, senhor, há uma esquadra inteira com mais de três mil homens em Harbor. Não há o que temer. __O Secretário de Defesa concorda que devemos manter os porta-aviões em alerta branco, mas deixar toda a base em alerta laranja... Isso seria um gasto enorme e desnecessário. - replicou um dos generais, dos mais antigos e conservadores, membro do comitê para orçamento de guerra. __Não está sugerindo que ponhamos toda aquela frota em alerta de guerra, não é, senhor? Os demais olharam o chefe, que naquele momento contava com muita credibilidade, mas pouca confiabilidade, afinal, havia sido nomeado chefe de sessão exatamente por ser apaziguador. O General Eisenhower suspirou longamente e franziu a testa. __Só não quero que aqueles meninos sejam pegos de surpresa... Dando a sessão por encerrada e deixando o prédio futuramente conhecido como Pentágono depois das onze horas da noite, foi para sua casa pensando no que poderia acontecer se tivessem de entrar em guerra de repente. Em vinte e sete de março de 1941 o governador da Califórnia Frank Finley Merriam, mais um republicano nos últimos trinta anos, dava as boas vindas ao Vice-Cônsul japonês Tadashi Morimura. Um homem pequeno, inteligente, com formação na Academia Naval Imperial Japonesa em Artes e Diplomacia, o diplomata desceu do navio civil Asama, e foi logo estendendo a mão para cumprimentar o expansivo político americano. Os dois foram levados até a sede do governo regional havaiano onde receberam um longa homenagem com danças e comidas típicas preparadas pelos nativos. As instalações militares foram visitadas assim como os hospitais e escolas, depois de semanas andando e cumprimentando gente, o cônsul, que falava um inglês impecável, foi visto como grande conhecedor da cultura e costumes americanos. Uma mansão foi designada para ele e sua comitiva e as impressões de Merriam foram de que aquele rapaz era jovem, mas muito inteligente. O prisioneiro Gascoin mostrava-se fraco e apático. Comia quando lhe davam comida, dormia o dia todos e respondia quando lhe era perguntado. Estava na cela com outro dois homens que reagiam muito mal às condições de higiene e comida. Um deles tinha diarréias constantes e estava bastante desidratado. O outro estava magro e combalido. Gascoin os fazia calar a boca sempre que havia soldados alemães conversando por perto. Aprendeu um pouco de seu idioma e notou que funcionavam como um relógio: de manhã os prisioneiros eram tirados das celas, lavados e recebiam a ração do dia; a tarde eram interrogados esporadicamente, e a noite ficavam nas celas, não viam o sol em momento algum. Sempre que um homem era levado e voltava para a cela limpo e sem ferimentos, Gascoin notava que ficavam um bom tempo sem interrogar outro homem. Percebeu que faziam perguntas somente quando avançavam terreno e queriam saber alguma coisa das defesas do local de ataque. Eram quase vinte prisioneiros num lugar que ele desconhecia e não sabia a localização. À noite enquanto os demais dormiam, deitava no chão e fazia flexões de braço e abdominais. Não os queriam mortos, portanto, era claro que funcionavam como produto de barganha. Mais homens chegaram depois de muitos dias trazendo notícias de que os britânicos estavam resistentes, haviam bombardeado Hamburgo com sucesso e vários navios de guerra alemães foram afundados pelas tropas da marinha real britânica. A França, agora, era governada por alemães e a África ardia nas mãos dos italianos e franceses cooperados. A melhor notícia que recebeu foi a de que o general Charles de Gaulle era retirado para um local secreto de onde ajudava os ingleses a coordenar ataques importantes, e por isso, havia sido condenado à morte por envenenamento pelos franceses cooperador com o Eixo. __Maudit lâche! - resmungava chamando de covardes os franceses não resistentes. Se a bela Liv o visse agora...- Diga, como estão as coisas em Paris? - perguntou ao soldado preso com ele, um dos dois morrera de desidratação e fora substituído na cela. __Está um caos, mon ami! Parece que a cidade está vermelha e preta, tantas são as bandeiras com a cruz suástica esteadas. O Palace d'Elyseé parece um bunker do fuhrer. __Avançaram rapidamente, então! E de que divisão você foi? Eu estava em Ardenes com outros tantos. O homem arregalou os olhos e retirou-se para trás, de susto. __Você é um maqui!? Mon Dieu! Deve ser um militar de carreira! __O que é um maqui? - perguntou Gascoin. __Foram chamados maquis, os combatentes de Ardenes. Em Paris, a pouca resistência que ainda sobre às armas da Gestapo, tentou contabilizar os mortos e descobriu-se que não sobraram sequer informações sobre aquela batalha. Homens como você são raridade... - disse o outro, batendo a mão no ombro de Gascoin. __Quer dizer que já montaram resistência armada em Paris? __Armada, não. Apenas panfletos de protesto. Os parisienses notaram que é melhor cumprimentar os soldados alemães do que ralhar com eles. São atrozes e violentos. Não lutam com coração, como nós, mas com a cabeça, por isso são eficazes e nós estamos aqui, presos! - e riu da própria desgraça. - foram meses difíceis. Gascoin não sabia quanto tempo estava encerrado nas vísceras da terra. Soube pelo homem que estavam perto de Dachau, sul da Alemanha. E que aquele local onde estavam presos ficava famoso pelo tamanho e pela diversidade de gente. Disse que havia dezenas de prédios como aquele em que estavam, e que homens, mulheres e crianças, de várias nacionalidades eram caçados, presos e levados para locais como aquele. Gascoin não demorou perceber que não eram prisioneiros de guerra, eram cobaias. Havia um motivo mais intrínseco para estarem naquele local. Pierre, seu novo amigo de cela, disse do local em que estavam ser transitório. Que logo iriam para o grande campo de Dachau, e que ninguém saíra vivo de lá. Foram confinados, portanto, num posto avançado das SS. Henri preveniu o amigo das torturas, de como proceder e do que falar, da comida e das investidas que sofriam dos soldados, sempre sedentos de sangue e lágrimas. No outro prédio do mesmo complexo, Liv e as demais prisioneiras esperavam para serem as genitoras da nova raça ariana. Não entendiam a demora para serem levadas e entregues à força à sana sexual alemã, e isso era tão angustiante quanto saber o que as esperava. A bela morena, agora com os cabelos compridos, mas muito sujos e mal tratados, mantinha-se tentando ajudar as demais. Tinham a disciplina de limpar o melhor possível o local em que dormiam, faziam maratonas intermináveis de orações e eram postas para caminhar nos campos de tempos em tempos. Mais de um ano se passou e o mundo arde em chamas sob os pés de Adolf Hitler. Gascoin e Liv ainda estavam vivos e sãos, mas poderia não durar muito. Londres, cinco horas da tarde, menos de seis graus. Uma divisão de cinqüenta homens estava de shorts de ginástica e camisetas brancas sob uma chuva torrencial. Estavam parados em posição de "sentido" com os braços para trás, peito para frente, eretos e sérios. __Muito bem homens... - gritava um tenente, também na chuva -... Hoje é o dia para porem em prática seu treinamento. Serão testados em campo real, com munição real em situações de perigo real... A uma pequena pausa todos gritaram em uníssono "Huzza"! E pararam. O tenente continuou. __Estão sendo enviados para o campo de guerra na Alemanha. Somos a última linha de defesa de Sua Majestade e é por ele que hoje somos fortes e gritamos: Não ficaremos calados na noite, aguardando o inimigo! Novamente, "Huzza"! __Vocês vão imediatamente para seus alojamentos. Ponham seus uniformes e apresentem-se para instrução às seis horas. - o tenente Marick de Bruce andava de um lado para outro, sempre com as mãos atrás das costas, braços em noventa graus e cabeça projetada pra frente. O 20º Regimento da Ochre House estava pronto para entrar em combate. Formado pelos melhores soldados, pelos mais resistentes depois de um processo que levava quase todos à exaustão física total. Veteranos da primeira guerra, novatos, todos eram treinados pára-quedistas, exímios combatentes desarmados, incríveis navegadores e disciplinados até os ossos. __A partir de agora... - dizia o tenente-... todos vocês recebem a patente de tenentes, portanto, dirijo-me a vocês como iguais, e todos mereceram isso. São o orgulho das Forças Armadas Britânicas, são o brilho do exército britânico, são o Serviço Especial Aéreo, e seu lema a partir de agora é "Quem ousa, vence!" "Huzza, Huzza, Huzza!" __Senhores, aos seus postos! - gritou o tenente. Eram os idos de dezembro de 41. Baía de Pearl Harbor, oito horas da noite. Um funcionário da mansão do Vice-Cônsul japonês entra no escritório onde o patrão lê um livro. Ele deixa um papel sobre a mesa, faz a reverência e deixa a sala. Chegava uma mensagem enviada a dois dias atrás de Tóquio. O homem leu e queimou o papel em seguida. Depois foi até o telefone e passou as últimas informações para o comandante da frota japonesa no Pacífico. __Wakarimasu ka? - disse o Vice-Cônsul Takeo Yoshikawa, ao operador de rádio - Não há balões de barragem. Couraçados sem crinolinas. Não há indicação de alarme aéreo ou naval transmitido de qualquer ilha próxima. O Enterprise e o Lexington atracaram em Pearl Harbor. O operador pediu mais informações e foram passadas. __Ima, isogi! - disse para agirem imediatamente. Desligado o transmissor, o Vice-Cônsul olhou pela janela vendo os navios parados na baía, estava terminado o trabalho de Takeo Yoshikawa, nome verdadeiro do espião japonês da marinha nipônica. O relógio marcava oito horas e vinte minutos de seis de dezembro. Na manhã do dia seguinte foi desferido o ataque à base americana de Pearl Harbor onde foram destruídos 108 navios de guerra, 233 aviões e 2043 militares e 68 civis foram mortos. Os três porta-aviões não foram destruídos porque estavam ao largo da baía aguardando melhora do tempo. Fez céu de brigadeiro naquele dia, exatamente o que os caças Zero com os pilotos suicidas precisavam para atirar suas balas e depois suas vidas encouraçadas pelas fuselagens de suas aeronaves contra os conveses dos encouraçados e cruzadores americanos. Foi grande vitória para o Eixo aquele dia, mas o gigante de aço fora incomodado e o peso de sua mão cairia em menos tempo do que as nações unidas pelo domínio nazista poderiam imaginar. Na mesma manhã o novíssimo regimento do SAS (Special Air Service) soltava seus cães de guerra sobre os campos de Dachau, marcando o início do levante Aliado.
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