| Lágrimas de Prata - A caneca mais forte que a espada |
|
|
|
O soco desferido na mesa de mogno fez tremer o prédio pentagonal em Washington. Diante do Estado-Maior do Exército, o general Eisenhower fazia-se ver furioso e foi a melhor maneira que achou para dar bom dia aos demais.
__Quanto tempo mais? - gritava- Quanto tempo o presidente precisa para declarar guerra aberta às nações do Eixo? __Tenha calma, general! - ponderava um deles- Todos sentimos muito o que houve no Hawaí, mas isso não pode ser tratado de forma impetuosa. - este era o senador Montgomery Starks, republicano, conservador e pouco dado à batalhas. __Com o devido respeito, senador, aqueles malditos japoneses causaram a maior tragédia deste país. Não é impetuoso agir em represália, é necessário! - levantava ainda mais a voz o homem baixo, magro, de olhos pequenos e frios. A secretária entra na sala pedindo desculpas por interromper a reunião, mas o telefone estava insistente e assim que ela atendeu, a voz inconfundível de Franklin Delano Roosevelt exigiu saber quem estava presidindo a reunião. __O Congresso acaba de aprovar a moção... Os Estados Unidos estão em guerra. Avise aos generais. - e desligou. Assim que retornou à sala, o rosto do general estava diferente: parecia ter sangue nos olhos. Longe dali, a costa de Port Klang, na Malásia já formava um emaranhado de ilhotas e recifes capazes de destruir qualquer embarcação de madeira. Mas a Marinha Imperial Japonesa, continuando seu avanço, usava os desembarques pequenos de aço, portanto, passou fácil pelas encostas escarpadas. O sargento Saito Nizuy era um dos primeiros a marchar, marcava o passo da tropa. Seus comandados não costumavam olhar nos olhos do sargento quando falavam com ele, por isso recebera o apelido de "Ten-nou", ou "imperador". Nunca o viram sorrir ou chorar, jamais o haviam visto desistir, e numa ocasião o viram terminar uma briga com um resistente chinês, mesmo depois de levar uma facada sobre a escápula direita, ainda chamada omoplata, na época. Metralhadora na mão direita, cano para baixo, punho em riste apontado para cima indicando para a tropa estancar. Havia policiais da guarda republicana fechando parte da rua. O sargento Nizuy apontou sua arma e os homens ouviram o tilintar do capacete dos três policiais a mais de trinta metros deles. Três tiros, três mortos. Em seguida, continuando a marcha até Kuala Lumpur o sargento mandou seu oficial de explosivos destruir uma igreja onde, acreditava-se, uma guarda de soldados refugiara-se. Quando notaram que não era nada mais que civis amedrontados, o sargento sequer lamentou. Mais a frente, numa estrada de terra margeada pela mata, o sargento mandou que seus homens ficassem em silêncio, entrincheirados e prontos. Um destacamento do exército malaio vinha em formação de treinamento, estavam desarmados e eram metade do contingente japonês. Assim que foram dominados, o próprio sargento, usando uma faca sobre uma fileira de homens ajoelhados e trêmulos, os fez falar sobre como estavam as defesas do país. Depois que passou as informações para seus pares no navio de guerra, executou homem a homem com um tiro na nuca. Era a tomada da Indonésia. A Itália avançava sobre a Grécia e África. O governo francês em Vichy estava destituído e Charles de Gaulle era o último resistente francês, governando a França Livre de Londres. Foi em Março de 1942 que os primeiros bombardeiros B-52 chegavam à Grã-Bretanha. Dentre ele um que ficaria famoso, o "Memphis Belle", estava pronto para bombardear um conjuntos de fábricas em sua décima terceira missão, ele deixaria o campo de batalha depois de vigésima quinta em abril de 43. Ao lado do Belle, outro monstro dos ares dava carga nos motores e rugia para o céu cinza da Inglaterra e guinava o nariz para Alemanha. O alvo era posto avançado das Schultzstaffel, subordinado a Dachau. __Who dare, wins! Huzza, huzza, huzza! - gritou o primeiro a saltar. Os demais o seguiram e portando as Sten MVK, abriram os velames pouco antes dos trezentos metros. O SAS aterrissou numa colina esverdeada há cem metros da entrada do acampamento. Dali podiam divisar três conjuntos de prédios, a cerca de arame farpado, a guarita de entrada com dois guardas armados, cães e jipes dispersos pelo local. Os prédios estavam dispostos em U com o maior atrás e de lado para eles, os outros dois eram menores e estavam em sentido longitudinal de onde estavam. O tenente Bruce manteve seus homens calados e abaixados. A um gesto mandou um deles aproximar-se de forma rasteira da beira da colina para tentar enxergar mais homens. Sabiam pelas fotos aéreas que era um campo de concentração de pequeno porte, estava cercado por um vale e continha prisioneiros de guerra civis e militares. Havia um tanque para abastecimento dos carros no canto nordeste, uma garagem pequena e os três prédios. Calculavam um número em torno de cem homens armados e outros trinta na intendência, esses tinham de ser subordinados tão rapidamente quando aos demais porque se emitissem um pedido de socorro a Dachau, teriam uma divisão inteira de nazistas perto deles em uma hora. As comunicações deviam ser cortadas e deviam fazer isso discretamente. O tenente cercou o perímetro e achou o fio de comunicação suspenso entre as árvores, um dos homens correu os três quilômetros em carga rápida, seguindo seu treinamento e cortou o fio único e grosso com um tiro de rifle MVK. Se algum soldado estranhasse a queda de energia dos geradores não veriam o ponto onde o fio fora cortado e aguardariam imaginando ser uma queda de energia temporária. Dos doze homens de desceram, dois eram atiradores de elite. Estes foram posicionados um ao norte, exatamente onde estavam e outro a sudoeste, porque o prédio a esquerda deles tinha um andar a mais que os outros, portanto, deviam ser o alojamento dos soldados. Uma única porta em cada prédio dava acesso ao pátio central o que facilitava o trabalho dos atiradores. As carabinas Delisle 45 eram as armas de mãos modernas naquela época. Já vinham equipadas com o supra-sumo dos atiradores de elite: silenciadores e miras com lunetas. No pátio central um jipe cáqui sem capota sustentava uma antena no lombo. O tenente Bruce mandou que seu homem da esquerda desse um jeito em qualquer homem fardado que se aproximasse daquele jipe. Com um movimento de cabeça o tenente Lions rolou para o lado e correu com as costas arqueadas para sua posição. Para o tenente Grills, o comandante deu a incumbência de peneirar aquele reservatório de combustível. Aos demais, ele se juntaria assim que os alemães começassem a correr, lutando homem a homem, dois sempre mais avançados, ou seja, alguém atira, alguém corre adiante e atira também. A tarde era moribunda e o sol fraco e branco escondia-se atrás deles. A guarnição desceu a encosta em silêncio de rádio e passos, os homens formando um arco de guerra há trinta metros da guarita de entrada, os nazistas conversavam distraídos. O primeiro homem, um dos guardas da entrada conversava e fumava de frente para o outro. De repente o interlocutor recebeu um jato quente no rosto o que o fez fechar os olhos por um segundo. Não abriu mais. Os dois guardas estavam abatidos. Bruce mandou dois homens assumir as posições dos dois caso alguém saísse para o pátio. Fiquem em pé, de costas para o campo e de armas em punho, não esqueçam: os fuzis alemães são mais longos que os nossos, então, soltem as correias de suas armas e mantenham os canos abaixo da linha dos joelhos - disse rapidamente. Dois ingleses andaram calmamente até os corpos que arrastaram sem fazer barulho o lado das cercas e ficaram na posição indicada. Bruce pediu que o tenente Michael Weiss fosse um desses homens simplesmente porque sua avó era filha de alemães, ele dominava a língua e seria o homem a gritar para abrirem o portão do lado de dentro. As fotos aéreas mostraram, certa ocasião, que quando um carro com as bandeirolas das SS se aproximava, o homem do portão gritava ao homem de dentro, resguardado num casebre, para que ele destravasse o dispositivo elétrico da tranca do portão. Weiss e o outro ficaram na posição de sentinelas durante vinte minutos e ninguém aproximou-se deles. __Hei, Weiss... só espero que o Grills e o Lions não nos confundam com alemães. - disse o outro. __Silêncio, Cheston. Ouviu o que o tenente disse... - friamente Weiss arqueou o corpo para a esquerda e gritou: Dienstwagen, offnen sie das tor! O soldado alemão, lendo um jornal, sequer levantou os olhos para checar se realmente um carro oficial se aproximava. Apenas baixou a alavanca fazendo saltar faíscas e ouviu o tranco da trava se abrir. Cheston foi o primeiro a abrir uma das folhas e caminhar até o homem do casebre. Quando o soldado notou que o uniforme não era preto, mas bege e com uma bolsa de pára-quedista presa às costas, já era tarde, recebeu um tiro da testa e caiu. __Weiss, é agora!- ordenou via rádio, o tenente Bruce. Weiss retirou da bolsa um lança rojão P.I.A.T. Mk de 100 mm e o assentou sobre o ombro direito mordendo os lábios. A bola explosiva viajou ruidosa e destroçou parte do andar superior do prédio da intendência. Ao mesmo tempo o tenente Grills abriu fogo incessante com a MVK sobre o reservatório de combustível. Uma única bala atirada contra um tanque de gasolina, mesmo que pressurizado não o faz explodir imediatamente, porque o que incendeia é o vapor e não o líquido da gasolina. Mas se centenas de balas atingem um tanque de metal alguma faísca pode iniciar o processo. Ainda assim não haverá uma explosão, somente queima do líquido em questão. __Avançar! - gritou Bruce. Weiss e Cheston, lado a lado abatiam os primeiros soldados que passavam pelas portas, recebiam tiros que zuniam no ar e viam os primeiros homens correrem em sua direção de arma em punho. Os alemães usavam o fuzil Sturmgewer 44, mais longo e pesando perto dos cinco quilos. As MVK do SAS eram menores e mais leves, só que seus carregadores tinham menos balas. Por isso o SAS treinava para ser "um tiro, um morto". Os dois batalhões estavam no pátio e mesmo com o número maior, os nazistas estavam em desvantagem no corredor de saída dos prédios. Quase de forma cronometrada os ingleses tiraram as granadas das cintas e atiraram, uma onda de fogo varreu o vasto pátio. No que sobrou da intendência os comandantes do Posto Avançado tentavam comunicação com Dachau quando foram avisados que não havia forma, restava somente o rádio no jipe e em um caminhão na garagem. O comandante mandou um dos homens chegar àquele jipe de qualquer jeito. Um grupo de seis homens do SAS avançava por trás do prédio leste em direção a garagem. Surpreenderam alguns soldados recostados à parede e abriram fogo. O primeiro candidato a chegar ao jipe recebeu um presente do tenente Lions que ficou alojado no tórax. Em menos de um segundo ele puxou o percussor, a cápsula fumegante foi ejetada da câmara e uma nova entrou. Os homens trocavam fogo aberto protegidos em qualquer lugar e comunicavam-se do modo que podiam. O tenente Bruce foi alvejado de raspão no rosto e o ferimento o cegava temporariamente. Weiss mandou outro rojão na intendência abalando as estruturas do prédio. No prédio a oeste, o alojamento feminino, as mulheres jogaram-se sob as camas e a soldado que fazia a guarda delas sacou trêmula a Lugger do coldre. Olhou rapidamente pela janela e viu um corpo pela metade na calçada em frente, usava uniforme preto. Ela jogou a arma e vestiu a lona branca das prisioneiras sobre a farda, escondendo-se com elas sob as camas. Agachada num canto do outro lado da sala, Liv apertou os olhos. __Cest La guerre, mon ami! - disse Pierre agarrando-se às grades com Gascoin, ambos tentando ver algo pelo corredor das celas. __Serão franceses? - conjecturou esperançoso o homem de Poissy. __A mim podem ser até os troianos! Contanto que matem esse filhos-da-puta! No pátio a coisa estava feia para os alemães. Parcialmente fora de combate, Bruce deu ordens a seu sideman para jogar o máximo de granadas possíveis dentro do prédio da intendência, mas sem puxar os pinos, "Grills, chuva de chumbo", disse no grande rádio. O tenente chamou outros dois e todos jogaram quase nove granadas "mortas" dentro da sala no lado esquerdo do prédio, onde funcionava um escritório, deixando apenas uma em local visível para o atirador Grills. Isso funcionava como um grande explosivo de velocidade. Se um homem puxa o pino e deixa cair a trava da granada, tem em média, em 1940, cinco segundos para se afastar. Com nove explosivos sem tempo de detonação os homens correram atirando de volta para suas posições. Os homens dentro do prédio ouviram somente o tilintar das bolas pretas caindo sobre o assoalho. __Essa vai ser com gosto - disse Grills vendo a granada da janela claramente pelo visor da arma. O tiro gerou uma reação em cadeia e a parede inteira foi destruída revelando um prédio mais profundo do que as fotos aéreas mostravam. __Tenente Bruce, porque não explodimos logo o reservatório de combustível? __Pelo mesmo motivo que não bombardeamos simplesmente o local todo, tenente Willis, estamos numa missão de resgate. Com a noite fechando pra cima dos nazistas, a morena engatinhou sobre estilhaços de vidro até a Lugger da soldado, que agora tinha a cara metida no chão escondida pelos braços. Puxou o percussor da arma e sabia fazê-lo bem, tantas foram as vezes que aquela mulher repetiu o gesto apontando a arma para uma dela e rindo. __Levanta agora e vai pra fora, sua vadia... - disse rangendo os dentes, com a arma na narina esquerda da soldado. Outra prisioneira, ao lado dela, a puxou pelo cabelo e a fez levantar. Sob a mira da arma e com o mundo caindo em fogo em metal quente do lado de fora, elas tiraram a lona branca e empurraram a alemã para fora do prédio. O primeiro homem do SAS que a viu seguiu as normas do treinamento: não atiraria numa mulher desarmada em campo de batalha, mas ela ainda podia ser letal. Uma coronhada na ponta do queixo e o uniforme preto foi ao chão. No prédio oeste, ala masculina, brandia o fuzil gritando para os prisioneiros ficarem encostados nas paredes. Gascoin e Pierre foram deixando a grade lentamente. Henri baixou sobre os calcanhares e apanhou a caneta de lata que usavam para beber água. O soldado ficou em silêncio quando ouviu passos do outro lado da porta, vindo pelo corredor. O alemão apertou a arma contra o ombro esquerdo e fechou a mira na passagem. Ele estava num local escuro e podia ver a porta com a janela e a grade de ferro do outro lado. A primeira cabeça inglesa passou pela porta e olhou rapidamente. O alemão ficou imóvel. A porta começou a abrir ruidosa, lentamente. O soldado mantendo a mira firme. Um cano de arma curta passou pela luz da porta e checou o canto direito, nada. O corredor tinha dez metros com celas laterais e uma no fundo. O soldado estava pouco à frente da cela do fundo que abrigava dois prisioneiros franceses. Henri olhou para Pierre e fez sinal com a mão para que ele se abaixasse devagar. Do lado de fora o barulho começava a diminuir. Os dois ficaram perto das camas de pedra, presas às paredes laterais da cela e fizeram ambos o sinal da cruz. Era uma jogada perigosa, mas tinham de tentar. Assim que o tenente do SAS terminou de abrir a porta, segundos antes do alemão abrir fogo contra um alvo cego, Gascoin bateu a caneca de lata com força contra o chão de cimento. O estampido foi suficiente para tirar a concentração do soldado alemão e fazê-lo de mexer. Um tiro, um morto. O soldado inglês acenou para os prisioneiros. __Tudo bem! Ele era o único! - disse Pierre, num inglês torto, mas audível. As celas foram abertas. Os prisioneiros de Ardenes foram tidos como importantes na resposta ao avanço nazista. Logo que a comunicação oficial foi feita de Washington, avisando Londres de que os Estados Unidos estavam em guerra, uma aliança foi criada. O Primeiro-Ministro Winston Churchill, o Presidente Roosevelt e o General Charles de Gaulle haviam firmado um tratado de cooperação. Mutuários da mesma esperança e sentindo-se os guardiões de seus países, os três homens acompanhados de uma casta de especialistas firmaram o compromisso de conter a ameaça nazi-fascista. Todos iriam colaborar com armas e homens. Para os americanos, sua Easy Company era perfeita, para os ingleses, o SAS era soberano e o general De Gaulle tinha nos homens de Ardenes seus baluartes de resistência. __Ah! Vocês franceses! Sempre nos dando trabalho! - disse, irônico o soldado que escoltava os homens libertos para o pátio. Gascoin e os demais homens ainda viram a lua nascer e ouviram os homens do SAS reunidos no pátio, com dezenas de soldados alemães rendidos, a bradar o que os marcaria para o resto da vida: todos com as arma para cima, "Huzza, huzza, huzza"! Os homens e mulheres foram alimentados com a comida dos oficiais. Elas cuidavam dos soldados ingleses feridos e eles arrastavam os corpos para o centro do pátio. Agora eram os nazistas que choravam as perdas dos amigos. Pierre e Gascoin, sorridentes, acenderam um cigarro com os ingleses e ouviram o estrondo dos aviões cargueiros que traziam os equipamentos de ocupação. Estavam vivos e livres depois de mais de um ano de cativeiro e torturas. Pela porta do alojamento feminino, Henri viu a bela morena cuidando de uma moça ferida na testa pelo vidro. Pensou em ir até ela, mas um inglês o segurou pelo braço. __Os homens estão dizendo que você é um maquisard. É verdade? - perguntou o tenente Grills, num francês difícil, mas audível. O homem segurava um rifle gigante com uma luneta em cima. Um sobrevivente da batalha de Ardenes. Um dos homens que encarou os "nazis" de frente. Gascoin concordou. __O tenente-coronel Marik de Bruce quer falar com você...
|
Nenhum comentário
| < Anterior | Próximo > |
|---|