BuscaPé, líder em comparação de preços na América Latina
Lágrimas de Prata - Campanha Africana Imprimir Enviar para um amigo
Avaliação desta obra: / 0
RuimÓtimo 
 
Escrito por Brunno, em 15-07-2008 00:18
Avaliação média    (0 voto)
Visitas 1313    
Favoritos Nenhum

Após saber da morte de Gascoin, Liv decolou em direção a Londres. Depois de todo aquele tempo presa, ela, então, sentiu o peso da tristeza que enseja uma guerra. Não conteve as lágrimas legítimas que chorou do início ao fim do caminho. Com ela estavam outros sobreviventes da batalha de Ardenes.

Homens feridos e mulheres laceradas pela dor da perda. Ao lado dela havia um oficial francês que normalmente viajava no assento do piloto, mas naquela ocasião era passageiro. Os aviões B-26 não eram como as fortalezas voadoras B-52, os grandes bombardeiros americanos que davam forças aos Aliados, ao contrário, eram pequenos e confortáveis, com bancos amplos e janelas panorâmicas.

Enquanto ela chorava discretamente e as gotículas desciam pela face alva e delicada, o homem ao lado estendeu um lenço. Tinha o rosto redondo e fortemente vincado dos lados dos lábios. Bochechas gordas e sorria gentilmente.

Arqueou o corpo e revelou o nariz afilado, olhos escuros e cabelos pretos. Tinha exatamente quarenta e um anos e era piloto de caça da força aérea francesa. Começara a carreira como piloto do serviço postal nacional, e fora o primeiro homem a estabelecer a rota São Paulo-Buenos Aires-Montevidéu.

Ela tomou o lenço e secou as lágrimas, que insistiam em vencer o linho. Olhou com atenção a figura desenhada no lenço: um menino louro e sorridente, vestindo uma capa vermelha, e abaixo a assinatura do artista, A.S.E.

Agradeceu a gentileza e devolveu o delicado pano, mas o homem recusou. Disse que era um presente para que se sentisse melhor.

__É lindo... - disse ainda soluçando-... Quem fez o desenho?

__Fui eu mesmo. Gosto de ilustrações. Agora me diga, por quem você chora? - perguntou o homem de voz calma e pausada.

__Um amigo. O tenente inglês disse que ele foi morto por um tipo de explosivo no chão.

O homem emitiu um ruído de desprezo. Comentou que aquele tipo de coisa era uma barbárie da tecnologia, que um dia aquelas coisas ainda iriam ceifar muitas vidas inocente.

__De onde é o senhor?

__De Lion. Você deve ser de Paris como os demais que estavam presos em Dachau. Como se chama?

__Liv Marie Duncan, e o senhor?

Ele apontou as iniciais no lenço e sorriu novamente.

__Não chore menina. Seu amigo com certeza foi para um lugar melhor, pense que ele está apenas iniciando uma jornada de luz e sabedoria, a mais plena possível. Gosto de ilustrações e histórias, essa que você vê no lenço fiz para o filho de um grande amigo, também morto nesta guerra.

__É que eu tinha coisas para dizer para esse meu amigo... - novas lágrimas-... E agora não posso mais...

O homem sorriu tentando confortá-la.

__Pois saiba que o grande arquiteto deste universo tem planos para todos nós. Para você também. Hoje você chora por um amor...

Ela o fitou com os olhos vermelhos e inchados.
__... Não tente esconder. Essas são as mais nobres lágrimas que alguém por ter por outrem. São lágrimas de prata. - disse com o dedo em riste como se soubesse exatamente do que estava falando - Eu me chamo Antoine de Saint-Exupéry e sei que você vai ficar muito bem.

O homem recostou-se na poltrona e baixou o chapéu sobre os olhos. Liv ficou olhando o Mar do Norte abrir-se abaixo deles a caminho de seu futuro.

Num campo distante de Dachau os homens do SAS estavam em formação sob uma chuva torrencial, como se chover sempre nessas condições fosse regra. Diante deles havia uma mesa com diversas armas de mão dispostas da esquerda para a direita, das mais leves às mais pesadas.

Eram três fileiras de quatro homens, os doze que haviam descido em Dachau. Atrás dos doze havia mais dois, franceses. Gascoin e o amigo Pierre usavam os mesmos uniformes dos homens de Sua Majestade: coturnos pretos, calças cáqui, blusões cáqui sob uma camisa preta, cinturão de armas sobre ambos os ombros, pistola Colt 45 na cintura e uma metralhadora MVK pendente no ombro direito.

Na frente das fileiras os tenentes Grills, Lions e Weiss aguardavam o tenente-coronel Marick começar a falar. Atrás deles Cheston tentava driblar a chuva fumando um Benson&Edges sob o capacete.

__Pra onde acham que vamos agora? - disse Weiss vendo o coronel De Bruce agachado sobre o rádio.

__Que tal algum lugar onde tenha alemães? - retrucou Grills.

__Ouvi dizem que os japoneses tomaram o Pacífico.
__De jeito nenhum. Os americanos não deixariam. Já viram os tamanhos dos navios deles? Aqueles caras têm canhões maiores que o Big Ben.

Bruce levantou-se e veio até eles.

__Senhores, ao resumo da ópera: os nazis entraram na França não ocupada de forma extremamente violenta, civis foram ignorados. Acabei de saber pelo comando da Ochre House que Londres sofreu mais um bombardeio avassalador. Stalin está com um grande problema nas mãos e sugeriu uma idéia aos Aliados, iniciar uma ofensiva a leste desta posição...

Gascoin olhou para sua direita por instinto, como se pudesse ver os nazistas.

__... Os americanos liderados pelo general Patton e nós pelas mãos do General Montgomey vamos para outro lado. Os alemães pararam o avanço pelos flancos na Europa, acredita-se que estão tentando manter um corredor para o litoral francês, o que provavelmente vai dar um trabalho dos diabos. Como aqueles generais não estão aqui, não entendem que o melhor que temos a fazer é pôr caras como o Grills aqui com um rifle e uma luneta num campanário qualquer e acabar com aquele alemão safado!

"Huzza, huzza, huzza!"

__Ainda assim os estrelados querem outra coisa de nós. As infantarias americana, inglesa e o que restou das forças de terra dos cavalheiros ali atrás, liderados por De Gaulle, estão desembarcando neste momento nas praias de Argel e é pra lá que nós vamos.

Os homens franziram as testas, limparam as gargantas e ensaiaram uma pergunta ao conorel.

__Antes que comecem eu já explico: vamos atrair a atenção do Fuhrer para outro ponto, prevendo que assim as forças européias possam chegar à Berlim. Os americanos entraram de vez na briga e têm uma divisão parecida com a nossa, chama-se Band of Brothers, e sua principal divisão é a Easy Company, mas não se deixem enganar, os caras são durões.

__Não tanto quanto o SAS, Coronel! - gritou Cheston.

__É isso ai, tenente Cheston! De qualquer forma nós vamos para a África ocupada. Senhores Gascoin e Demolet são agora tenente do SAS - fez questão de dizer claramente- portanto agora serão chamados tenentes "Gasco" e "Demot", fica mais simples.

Meses depois da saída de Dachau, já sob treinamento constante e pesado, o SAS saltou sobre o atlântico enquanto forças americanas desembarcaram na praia de Argel. Em novembro de 1942 foi deflagrada a Operação Tocha.

__Vai, vai, vai! - gritava De Bruce à porta do avião.

Era a primeira vez que Gasco e Demot saltavam de pára-quedas e seu curso foi rápido, porém, eficiente. Os dois desceram quase tão suavemente quanto os ingleses sobre a areia branca a fina do litoral marroquino. Logo deram de cara com soldados americanos entrincheirados aguardando reforços.

__Quem é seu comandante? - perguntou um dos ianques.

__Tenente-Coronel Marrik De Bruce. Meu nome é Gascoin - notou a divisa de sargento no ombro do homem. Ele fumava um charuto preso nos dentes no canto da boca e praguejava o tempo todo - em quantos vocês são e qual a posição do inimigo?
__Mas que merda, tenente! São uns filhos-da-puta escondidos sobre aquelas dunas. Têm metralhadores nos flancos e nossos homens estão ficando sem boldriés!

__Gasco! - veio Grills até eles- o coronel quer que alguém destaque as posições daqueles nazis! Pelo que vimos de cima são quatro casamatas a cada cem metros. Isso dá a eles uma posição de tiro de cento e oitenta graus! Pegue esses sinalizadores e enfie na areia o mais perto que puder daquelas bocas de fogo, ou enfie no rabo de algum alemão safado!

Balas de vinte e um gramas passavam quentes por suas cabeças e derretiam a areia por onde passavam. Explosões subiam pilares de terra adiante deles. Esparsos aviões de reconhecimento rugiam altos em meio a baterias antiaéreas fazendo sinais de fumaça no céu das seis horas da tarde.

__A colina a esquerda é escarpada demais pra subir e vai delatar sua posição - dizia Weiss, orientando o novato - Vou com Demot, Cruise, Folley e Mack para o centro enquanto você tenta chegar até a casamata da esquerda, está me ouvindo?

__Entendido - Gascoin levantou a cabeça rapidamente sobre a trincheira - sargento quantas mechas vocês ainda têm?

O sargento Mitchell virou-se sobre a areia.

__Carlson! Mas que merda soldado! Quantas daquelas porcarias de mechas nós ainda temos?

__Cinco mechas de seis metros, sargento Logan!

__Cinco malditas mechas de seis metros, tenente Gascoin! - gritou o sargento.

Gascoin chamou Grills e Stein. Pediu a eles que ficassem de olho em seu avanço pela praia. De Bruce mandou darem cobertura se algum alemão o visse e atirasse com as metralhadoras de solo. Ele aguardou meia hora e correu para o flanco esquerdo escondendo-se em outro buraco.

__Por que ele esperou tanto pra sair? - perguntou um dos americanos ao sargento.

__O pôr do sol, filho. Agora aqueles malditos nazis têm o sol nos olhos... - disse sorrindo-... estejam prontos para avançar depois de ouvirem as explosões! - gritou para seus homens.

__Grills mexa-se trás. Fique a barriga na água a nossa esquerda e deixe que as ondas lhe molhem o saco. Ninguém vai vê-lo nessa posição. Demot, você é o homem das explosões, quero que deixe Weiss e os demais e siga com os americanos até a guarda das mechas. Gascoin vai precisar delas intactas e prontas para disparar.

__Sim senhor! - foi com o tenente Weiss até onde os americanos estavam guardando as mechas, longos tubos de explosivos TNT concentrado com nitrato de fósforo - Tenente de conseguirmos alguma glicerina aquelas coisas vão fazer mais que denunciar as posições dos alemães.

__Não duvido disso, tenente Demot. E parece que é exatamente o que o tenente Gascoin quer fazer. Lions! Destaque dois homens para carregar aqueles tubos até o sopé da colina, agora! Ajam quando ouvirem o sinal de Gascoin.

Determinados os papeis de cara um, Gascoin foi avançando furtivamente pela areia até os primeiros tubos, os que haviam sido deixados e não detonados perto da duna de terra firme. Jogou-se de costas no chão como um soldado abatido e olhou para trás. Via as casamatas dos alemães trinta metros adiante e dez acima de sua posição.

Tirou da cinta o rádio e apertou o botão de comunicação.

__Três homens na primeira casamata. Um metralhador está atento, espere... - o tenente Bruce e o Sargento Logan ouviam-... tenente, os outros dois estão conversando. Um deles saiu correndo para a direita.

Olhou para o lado e viu os clarões de fogo de duas armas.

__Aquela metralhadora está com as travas fechadas e a câmara aberta, estão sem balas! Isso reduz a capacidade de tiro deles em cem metros pelos próximos minutos...

__Silêncio de rádio! - ordenou Bruce. Em seguida foi rastejando até Grills, de rifle em punho. Parou parto dele e com a cara da areia e ergueu um dedo; apontou com dois dedos para o lado esquerdo de seu ombro; depois espalmou a mão, balançou e fechou o punho.

Grill assentiu e virou o corpo para o lado direito. "Um homem em transito, à sua direita, derrube-o".

Fechou o olho esquerdo. Regulou a mira para duzentos metros. Viu o alvo correndo: uniforme preto, capacete longo cobre a nuca, distintivo vermelho no braço direito, corpo arqueado. Passou entra as duas primeiras casamatas. Grills guinou o rifle para direita. Contou quatro segundos enquanto o homem corria atrás da construção rudimentar. Passou correndo e arqueado para a terceira casamata. Grills contou seis segundos e atirou.

Um tiro, um morto.

__Avance Gasco. - ordenou Bruce - Atenção senhores... - fez sinal para o sargento Logan.

__Acordem vagabundos! - gritou para seus homens.

Gascoin atirou uma granada parto da casamata. Demot deu sinal verde aos americanos que correram levando duas mechas de seis metros. Weiss, Lions, Cheston e Stein abriram fogo com as MVK contra as demais construções. Logo que baixaram as cabeças os tiros das maschinengwer MG 42 riscaram o ar.

A granada explodiu e não foi ouvida das outras construções. Os dois soldados não foram atingidos, mas não iam levantar tão cedo de suas posições. Viram somente uma ponta de tubo branco entrar pela abertura da metralhadora.

Gascoin jogou-se na areia e tentou se proteger. Grills puxou o ferrolho e viu a ponta do cano de três polegadas saindo pela abertura. O soldado alemão ainda tentou jogar para fora. A explosão do TNT e do potássio abriram um clarão no fim de tarde. A casamata estava destruída.

Avançando pelo flanco esquerdo, os Aliados, o SAS e a AfricaKorps tinham uma passagem livre para o Marrocos. Depois de tomar a primeira posição, as demais foram menos resistentes.

__Fogo no buraco! - gritava o sargento Logan. E mais explosões de fósforo acendiam a noite africana.

Pouco antes de entrar atirando na última casamata com alemães ainda ativos, Gascoin e Cheston bateram os capacetes e travaram os dentes.

Terminada a batalha, ainda com a terra ardendo em chamas e o cheiro de sangue precipitado, os homens do SAS e da Easy Company haviam abatido um pequeno exército de alemães e italianos.

De Bruce reuniu os homens em torno de uma fogueira, ergueu a MVK pela coronha ao que foi seguido por todos...

"Huzza, huzza, huzza"!


Publicado em : Literatura - Contos, Policial
Quote this article in website Favoured Send to friend

Comentários (0)

Nenhum comentário

Adicionar comentário

< Anterior   Próximo >