| Escrito por Renan Baraúna, em 15-07-2008 21:38 |
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Desde que se entende por gente é católico. E um bom católico. Missas aos domingos, eucaristia, confissões. A oração antes das refeições, o dízimo, as viagens a Fátima. E assim levou sua vida, impregnada do constante temor a Deus, temor esse triplicado por três nos momentos em que contemplava representações artísticas da Santíssima Trindade estampadas pelos vitrais das igrejas. A vida o levou ao sacramento do matrimônio. Casou-se virgem por opção, como era de se esperar, aos trinta e um anos. A esposa, obviamente católica, o acompanhava em sua fervorosa adoração à Santa Igreja. Logo no primeiro ano, tiveram o primeiro filho. Um lindo bebê, presente de Deus, batizado Gabriel. Os anos se passaram, e depois de Gabriel vieram Maria da Graça e Daniel. Uma belíssima família. Se o termo perfeição pudesse ser aplicado aos homens, estas pessoas, certamente, seriam as merecedoras do adjetivo correspondente.
Na medida em que a família crescia, no entanto, sua situação financeira tornava-se mais delicada. Típica família lisboeta de classe média, que até conseguia se manter, mas sempre no limite. Após cálculos e mais cálculos, chegou à conclusão de que era empresa inexeqüível ter mais um filho. Após muitas conversas com a esposa, muita reflexão e, pela primeira vez em sua vida, contrariando os desígnios do Santo Padre, resolveu fazer uma vasectomia. Após a operação, em momento de breve, porém incontida luxúria, conheceu uma vez mais sua mulher. E, pela primeira vez em suas vidas, sem o objetivo de crescer e multiplicar. O arrependimento lhe tomou de assalto, mas o destino foi cruel. Antes que pudesse se confessar, faleceu. Assim, repentinamente. Acidente de trânsito.
Vasectomia é pecado. Foi direto para o inferno, sem direito a purgatório. Assim como na terra, os céus andavam bastante inflexíveis quanto a tais questões. Logo que chegou, foi recepcionado e aprisionado por uma besta horrenda a pesadas correntes de ferro, completamente nu. E no mesmo instante, começou a ser infligida a pena que lhe estava reservada para toda a eternidade, em função de sua grave ofensa. Durante toda a duração do dia, tinha o pênis lambido, sem interrupção, por uma cadela de duas cabeças com espinhos nas línguas. A dor lancinante só era interrompida à noite, quando piranhas voadoras surgidas de um mar de lava, devoravam os restos carcomidos de seu membro e testículos. E durante a madrugada eles eram regenerados, em processo não menos doloroso, moldados da mesma lava, pelas patas ferventes de diabos artesãos, para novamente serem destruídos pelo mesmo ritual, no dia seguinte e por toda a eternidade. E assim foi, por anos, décadas. Até que um dia, Deus, infinitamente misericordioso, e julgando que talvez tamanho sofrimento fosse desproporcional à falta cometida, e considerando os antecedentes do pecador, resolveu lhe dar uma segunda chance. Permitiu que renascesse (graça concedida a pouquíssimos) para que pudesse se redimir.
E assim se fez. Reencarnou. Pobre. Ignorante. Sem qualquer acesso a métodos anticoncepcionais. Hoje, vive em uma favela em Brasília Teimosa. Tem uma vida difícil, casou-se aos dezoito anos. Teve sete filhos. A partir daí, forçou a mulher a abortar os rebentos subseqüentes, que atrapalhariam ainda mais sua já complicada vida. Dos filhos que sobreviveram, não se pode dizer que tiveram melhor sorte que os abortados. As meninas, todas se tornaram putas, novas ainda. Os meninos viraram, senão viciados, traficantes. Certo dia, um destes traficantes mata o próprio irmão, viciado. Dívidas de droga. Era o irmão ou ele. Durante o crime, um senhor já idoso que passa pelas imediações, vindo a alguns anos de Portugal, para viver em Recife, leva um balaço perdido na cabeça e, contorcendo-se sobre o chão, exala seu último suspiro. Seu nome é Gabriel.
Neste exato instante, a milhares de quilômetros dali, um outro senhor, também de avançada idade, que dorme em meio a lençóis de cetim com suas iniciais finamente bordadas a fios de ouro, sente um ligeiro desconforto, causado pela aragem que penetra a janela de seu aposento no Vaticano. Encolhe-se e volta a dormir, tranqüilo. Não há motivos para preocupação. Nada perturba o sono de quem detém o poder e a glória reservados ao legítimo representante da palavra de Deus em nosso miserável planeta.
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