No Corredor do voto Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por João Batista Drummond, em 20-07-2008 18:51
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A fila avançava devagar e nos aproximava passo a passo da urna eletrônica.
Um terror crescente me dominava e mal conseguia disfarçar a tremedeira, que como um "delirius tremens eleitoral" provocava espasmos incontroláveis em minhas mãos.
Minhas pernas, fugiam ao comando do meu cérebro, em pânico e me deixavam como que pregado ao solo só respondendo à contra-gosto aos protestos e murmúrios ao longo da fila.
Minha boca seca, a língua como uma lixa, um frio na boca do estômago, pontadas de cólicas estomacais, aumentava infinitamente aquele momento de ansiedade, num tempo que se arrastava em lenta agonia.
Disseram-me que com o titulo eleitoral eu me tornaria num cidadão integral, com o direito e o dever de interferir na vida política do país.
Então porque aquela sensação terrível de estar caminhando direto para o cadafalso?
Como um condenado no corredor da morte eu caminhava com meus companheiros de infortúnio, pobres eleitores, num caminho sem volta em direção à urna.
Em minha paranóia imaginava se na hora de digitar os números, meus dedos não seriam como que dominados por alguma força diabólica, que me fizessem apertar contra minha vontade, as senhas malditas que trariam de volta à vida aqueles demônios e vampiros que nos assombram nos últimos quatro anos.
O lado negro da força se expandia a nossa volta e se expressava nas bocas de urnas, mantras malditos e jingles irritantes e insistentes, numa ordem sublimar e poderosa, impossível de ser contrariada.
"Ta dominado, ta tudo dominado", era o comando que atravessava o portal das baixas dimensões e chegavam até nós, pobres mortais, impotentes diante da fúria da propaganda eleitoral, arquitetada pelos gênios marqueteiros.
Fala-se que não devemos votar em branco porque isto prejudica o processo democrático e favorece aos maus candidatos.
Então porque esta justiça tão zelosa nos deixa diante de tal impasse?
Porque não devemos votar em branco mas podemos votar no "negro" da corrupção, da imoralidade, da fraude, do assalto ao erário, dos processos em andamento?
Porque temos o dever de votar nos candidatos escolhidos pelos partidos e inscritos na justiça eleitoral, através de critérios duvidosos, que nos deixam à mercê destas bombas de efeito retardado?
Se um sujeito, honesto e trabalhador, deixa de honrar um pagamento ao banco, seu nome e CPF ficam inscritos num cadastro no SPS e no CERASA, sob o titulo de mau pagador, independente de seus motivos ou de possíveis erros bancários.
Porque um mau político não pode ter seu nome inscrito num cadastro negativo,
para consulta do eleitor, antes da sua decisão no pleito eleitoral?
Porque a justiça eleitoral acolhe candidaturas tão absurdas e acaba endossando e avalizando maus políticos, sob a alegação de que nada foi provado ainda, se ela própria se encarregou de não julgar ou atrasar estes julgamentos?
Se estamos todos os dias ouvindo falar de erros médicos, porque não falar de erros judiciários e levar juizes, promotores e advogados às barras dos tribunais por dano ao erário e à consciência coletiva?
Eu imaginei, num dia de louca utopia, que aconselharia meus filhos a cumprir com orgulho e dignidade seu dever cívico do voto consciente, mas como fazer isto se me vejo diante de duvidas tão atrozes?
Como caminhar para o dever de cidadão como quem caminha em direção ao seu carrasco?
Ainda não sei como enfrentar o corredor da morte que conduz à urna do voto eletrônico, com a certeza do voto consciente e isto, porque o terreno político foi minado e contaminado como um pântano purulento.
Os políticos devem se atualizar e deixar de acreditar que os eleitores são retardados e ingênuos e que não basta parecerem honestos e competentes.
Têm que ser também, honestos e competentes se quiserem contribuir para transformar o pleito eleitoral num ritual democrático e num ato de cidadania, como o primeiro passo para a construção de uma Nação de verdade.
A Pátria de todos nós.


Publicado em : Crônicas, Crônicas
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