... de Lúcia- Lívia Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Isabel Maria Figueiredo, em 20-07-2008 21:16
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( Lívia, Lúcia, híbrida e violada, todas nuas, mulheres duplas que se desejam, línguas que se fundem, fragmentos do meu desejo mais lascivo, a luxúria que goteja do meu entrepernas.)
_ Lúcia_ Os lábios secos me engolem. E torno-me cativa. Do entrever das pernas. Do retratar a simbiose em que vivo com todos os corpos que me pertenceram. Trágica. Trago todas as noites de insônia marcados nas curvas. Do pescoço. Doações de sangue, homens e mulheres que se penetram, todos os serafins lascivos, hermafroditas que caminham sob a calota de gelo. Eles dançam, se lambem, se devoram , se bebem o sangue e o esperma, serafins sodomitas e luxuriosos. E eu me deito de pernas abertas esperando o sacrifício do gozo. Que não alcanço. Há os monstros que se masturbam e a música dodecafônica. Berrar meu prazer numa língua exótica. Perder-me nos lábios de um poeta, dormir no útero da diva, escorregar entre os corpos_orgias e contrair-me de alívio imediato. Eterna dor de se estar aberta. Exposta. Preciso da rudeza, das ataduras, algemas, velas, a pele se rompe debaixo do bisturi afiado. Sangrar. Morrer. Meu erotismo inverso.
_ Lívia_ Deu-me outro nome a megera! E espera que eu contenha meus gritos, que feche a minha boca, morda a língua, não arqueje nunca; espera, o gozo, o trocar de confidências estúpidas, o sono. Não me apaga este náufrago destino! Que espere!
_ Lúcia_ Perco aos poucos a umidade, sei que não haverá quem sacie o corpo, quem ame o odor agudo, quem se derreta no entrepernas. As mulheres que amo, os homens que desejo, o conluio amoroso; aqui nada me é permitido. A velha que me sustentava os hormônios não foi assassinada por um eslavo culpado. Caminha capenga indo e voltando, uma rameira invertida, rega meus ovários com sua acqua toffana, apodrece o útero, e canta uma canção sem ritmo que deixa meus serafins atordoados. Não gozo, a dor se faz displásica, todos os ossos, a coluna torácica desaba sobre as terminações sensitivas, não umedeço, não endureço. Desespero.
_Lívia_ A secreção clara e inodora emudece minha boca, seca. Não posso ater-me aos limites impostos, resvalo a margem das boas maneiras e bons costumes. Espero que alguém me abra as janelas para que possa entrar sorrateira e me enfiar debaixo das cobertas. Todo o corpo é público e aceita suborno. E me subornam com palavras doces, beijos ao luar, escravidão petulante. E ainda sim, eu não tenho direito ao gozo nem à chibata. Todas selam minha língua_blasfêmia, as peles se entreparando no vão das portas. O demônio que açula esta víbora que trago amarrada no meio das pernas não tem nome ou classe. Faz parte da turba de monstros se esfacelando na curva da escada. 
( Esta, a " História de Anna" e suas múltiplas pernas "pensamentos noturnos ...", a " História de Álvaro e Isa", as próximas histórias inverídicas que talvez eu publique , pertencem a mesma ceifa, involuem da mesma forma e talvez as una todas como uma sonata dodecafônica algum dia. Se gostou desta, sugiro que leia as citadas. Se aguentar. Admito que não tenho palavras fáceis e que sou confusa como uma matilha de cães do inferno comendo o cérebro de um suicida.)


Publicado em : Livros, Trechos de Livros
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Comentários (2)
Postado em ARRETADODEJERE, em 27-11-2008 17:17, , Membro Registado
CONTINUANDO!!!!! NAZÁRIO, Luiz. Da natureza dos monstros. São Paulo: Arte & Ciência, 1998. --- CARROL, Noël. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Trad. Roberto Leal Ferreira. Campinas: Papirus, 1999. ESSES DOIS SÃO MUITO BONS MESMO. 
VC JÁ TEM MEU E-MAIL SE QUISER ENTRE CM CONTATO. 
UM ABRAÇO!!!
 
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Postado em ARRETADODEJERE, em 27-11-2008 17:13, , Membro Registado
Eu falei contigo hoje no UOL sobre os monstros e fiquei de lhe passar umas referências, aí vai: COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Pedagogia dos monstros: Os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p. 23-60. - LECOUTEUX, Claude. História dos vampiros: Autópsia de um mito. Trad. Álvaro Lorencini. São Paulo: Ed. Unesp, 2005. - MIX, Miguel Rojas. Los monstruos: ¿mitos de legitimación de la conquista? In: PIZARRO, Ana (org.). América Latina: palavra, literatura e cultura. São Paulo: Memorial;
 
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