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Naquela manhã, diante do espelho, eu disse, para o sujeito que me olhava com certa ironia. Ok, garoto, você venceu. Chegou aos 40 anos, lindo e jovial. Cheio de saúde? Nem tanto.
Claro, o que ele queria? Horas sentado, primeiro, à frente de uma Olivetti portátil, e de uns anos para cá, diante de um computador, subtraíram quase toda minha resistência, paciência e esperança. Bem feito! - dirá o leitor mais apressado. Porque ele não sabe que faço isso desde os 17 anos. Julho é um mês especial. Agora pouco disse à minha amiga Bruxa dos Contos, em nosso habitual bate-papo na Internet, que, neste mês, aconteceram e acontecem as melhores e as piores coisas de minha vida. Minha mãe desencarnou a 10 de julho, eu conheci a Srta. Love em 14 de julho, e casei-me, numa sexta-feira, 19 de julho. Contudo, abstenho-me de classificar como bom ou ruim tais efemérides, exceto a primeira, naturalmente muito ruim, pra não dizer péssima. Há vinte anos eu era um jovem magricela, barbudo e achando-me o melhor dos melhores escritores, dono de talento incomparável. Sim, pois não, Sabedoria, vais me conhecer ainda, eu pensava, convicto de que tinha todo o tempo do mundo, e de que bastaria bater à porta para que ela se me abrisse. Bati em todas. E estive preste a contratar um marceneiro para que me fizesse mais portas, para que nelas eu também pudesse bater. Resmas e resmas de papel A4, laudas e mais laudas, amassadas no cesto do lixo e, diante de meus olhos, madrugadas à dentro. Tá bom, não fosse por isso, eu não saberia o prazer que proporciona uma dose de Ballantinne's 12 às 3 da manhã. Não conheceria os lábios de Sueli, a garçonete, prestimosa em todos os sentidos, e capaz de me fazer levitar quando falava ao meu ouvido. Não sei quantas fitas para máquina de escrever eu troquei, depois de usá-las não sei quantas vezes, dos dois lados, de frente para trás e de trás para frente. Discos que desejei comprar, livros que jamais devolvi. Naquele tempo minhas pálpebras não tremiam de sono, meus olhos não ardiam, e minhas mãos não sofriam de LER. E daí? Olho-me no espelho e encontro um gatão de olhos verdes. Minha filha e suas amigas não poderão me chamar de velho quadrado e careta. Não combinaria com alguém que passou a adolescência e juventude ouvindo Joy Division e, depois, Echo and the Bunymen, Smith's e New Order. Mas gostava mesmo era do Kraftwerk, com o qual, eu, literalmente, viajava pela Trans Europe Express ou pela Autobahn, ao lado de Das Model. Até hoje me visto de preto, e se os filhos herdam muito dos pais, Viviane, herdou o que havia de pior em mim. Eu adoro preto. Eu. Os outros, o mundo, quê me importa? Tá, hoje eu pratico outras modalidades esportivas que não futebol, judô e natação. Tornei-me exímio arremessador de toco de cigarro, e acerto todas da linha dos 6 e 25. Ninguém me supera no levantamento de copo, desde que as disputas sejam aos sábados, entre 2 da tarde e 10 da noite. E se tenho 40 anos, sou espírito jovem. Eu sou assim. É assim que meus amigos videntes - já estão avisados - me verão em espírito depois que eu desencarnar, espero, por causas naturais - e que não demore. Cabelo curto, barba por fazer, jeans, camiseta branca e tênis All Star, preto e de cano baixo. Meu grande amigo e bem amado Mr. Oscar Wilde digladiou-se com a vida até os 46 anos. Muito tempo. E eu já chego aos 40 anos. Tempo demais para mim. Será que o Homem lá em cima perdeu minha ficha? Ou deletou meu arquivo por engano? Com os diabos! Que me esperem. Mas nem estes haverão de me suportar.
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