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Escrito por GERALDO JOSÉ COSTA JUNIOR, em 22-07-2008 13:17
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Quando as paredes ainda tinham cheiro de tinta fresca. E os matos não cresciam na calçada; não havia fila nos bancos; nem pessoas morrendo no corredor dos hospitais. Carros eram poucos. Gente também. Apenas o suficiente, como deve ser. Para que cada um pudesse depois contar a sua história, sem remorso, sem pedir desculpas.
É mais ou menos isso. Mais ou menos assim que começa. A minha história. Talvez, a nossa.
Vestido como rei, ele caminhava pela montanha, dia e noite, sob sol escaldante ou debaixo de chuva. E não chamava Maria, não era louco.
Percorreu as montanhas de Jordão e as praias da Enseada, em busca do silêncio.
Porém, a paz, só foi encontrá-la num fiorde muito distante coberto de neve.
E ali continuou durante algum tempo. Disposto, se preciso, a enfrentar um urso enorme e raivoso. Porque naturalmente não sabia que os ursos polares só existem no Pólo Norte. E ele estava no Sul. E ali, o máximo que poderia encontrar seriam pingüins igualmente famintos.
Renan deixa rastros por onde passa, pensou.
Era o seu filho. Seis anos. A cara do pai.
Cento e vinte dias sob o manto da noite. Observado pelas estrelas, rodeado pelo nada. Seria bom. Esquecer um pouco o sol. As estrelas, quem sabe, trariam esperança.
O maldito pingüim, mesmo espetado no graveto, parecia vivo. Cheiro de carne assada. Putrefata. Cheiro de morte.
Pensou que talvez pudesse encontrar no bolso uns trocados pra comprar cigarro. Onde?
Já não era noite. O dia começara sob neblina. Sentado na guia da calçada, as pernas encolhidas, a cabeça entre os joelhos. Queria espremê-la. Mas nem para isso teve forças. Talvez um trago fizesse bem. Talvez dois. Certamente três fariam.
Onde estão os ursos? Onde os pingüins? Aquela parede ameaçando desabar sobre si, onde estava? Onde?
Mal podia manter os olhos abertos. Sempre quisera escrever sobre essas coisas. Mas havia desistido. Não pensaria em ninguém mais além de si mesmo. Nunca mais. Portanto, não precisava escrever. Bastava pensar o bastante. Imaginar tudo e todos, e sob todas as formas possíveis. E impossíveis. Pingüins e ursos polares convivendo pacificamente no pólo sul. Ou seria no pólo norte?
Por volta de dez, talvez conseguisse levantar-se. O sol haveria de despontar em algum momento do dia. Até o sol revolta-se, quando se vê ultrajado por densas nuvens.
Percebeu que, antes do sol, bem antes, já havia ultrapassado os seus limites.
Roubar para quê? Matar para quê?... Viver? Para quê?
Debaixo de uma jaqueta de couro preta, jeans rasgado, meias e cueca não menos fedorentas do que o par de tênis molhado nos pés. Despenteado, sujo. Se havia brilho, era no seu olhar. Mas quem se importava em buscá-lo?
Passara aquela noite, acreditando-se rei, percorrendo paisagens como figuras de Ciribelli, em silêncio, em busca do nada. Pingüins, talvez. Ursos polares, quem sabe.
Finalmente levantou-se. Enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta, e partiu. Não ostentava coroa, deixara o manto, já não era rei.


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
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Comentários (1)
Postado em SANTOSH, em 18-12-2008 13:38, , Membro Registado
Como já havia dito em outro comentário, eu acredito (é o meu reduto) e busco o Desafio em si, sinônimo do Equilíbrio.  
Sempre que leio um texto seu, sinto uma profunda identificação, mas, percebo que a balança pende mais para um lado...
 
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