| Lágrimas de Prata - "As Time Goes By" |
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Em dezembro de 1942 a campanha nazista a caminho de Stalingrado estava parada pela força dos punhos de aço dos russos. Lutando num inverno devastador, as tropas alemãs recorreram a Berlim, solicitando mais homens para o combate.
"Lutem até o último homem" ordenou Hitler. As campanhas de conscientização não surtiam o efeito desejado. Os próprios civis alemães, ou sua maioria, viam em Hitler um líder perigoso que deviam temer, e não o salvador evolutivo da superior raça ariana, como pretendia o fuhrer. Os italianos haviam perdido a costa marroquina numa das mais sangrentas batalhas e o chefe dos nazistas diminuía seu interesse em apoiar Mussolini. O Dulce contava com as armas alemãs, mas recebia um velharia de 1923 e seus fuzis Pannavia não eram suficientes. À entrada do aeroporto de Casablanca, sob domínio francês conivente com os alemães, quatro oficiais vestidos de preto e portando as suásticas nos braços desembarcavam de um jipe verde oliva todo descascado. A fumaça preta tomou conta do veículo quando parou, barulhento, perto da cabine do telefone, o número 45 da cidade marroquina. O oficial mais graduado desceu e veio falar com o tenente alemão de plantão no aeródromo. O homem não parecia muito alemão, moreno, olhos pretos e grandes, dentes grandes e espaçados, nariz adunco e cantos dos olhos caídos. O tenente notou a dizia de major na gola da camisa preta e empertigou-se em continência. O oficial portava seu uniforme completo e tinha uma prancheta que trazia na mão esquerda junto ao peito. Deu uma volta pelo tenente como se o inspecionasse e mandou que trouxesse os relatórios de vôos cargueiros vindos da Europa. __Sprechen muss mit dem kapitan! - respondeu o rapaz, tentando parecer eficiente, dizendo que tinha falar com o capitão antes. O major deu um soco na mesa e brandiu o quepe, mas sem tirar a prancheta da frente do peito. __Tun, was ich jetzt Bin senden! - a ordem de um major não pode ser menor que a de um capitão, então, o rapaz mais que depressa, mostrou os manifestos na vôos cargueiros proveniente da Europa, nos últimos dias. Os relatórios do aeroporto mostravam um tráfego pouco intenso. O major pediu que o tenente descrevesse a natureza das cargas, localização, destino e estocagem de rações e provisões, armas e munições. Disse que estava a trabalho de Berlim e que sua função era fiscalizar se tudo o que era enviado estava realmente chegando onde era necessário. Os outros três soldados que acompanhavam o major ficaram do lado de fora da casa de comando do pequeno aeroporto. Fumavam e conversavam em voz baixa. Tomavam café enquanto esperavam outra ordem de seu comandante. A noite chegou quente, seca e empoeirada. Os ventos do deserto traziam toneladas de terra até a pista o que tornava os pousos um desafio. De tempos em tempos os soldados eram escalados para varrer a pista, um trabalho quase inútil. Às duas horas da madrugada um Mercedes-Benz branco de capota baixada passou pela grade de entrada do local e dirigiu-se a casa de controle onde o major lia atentamente os manifestos e descritivos das cargas européias. No carro estavam um oficial de uniforme francês, um alemão e um civil. O conversível parou perto da casa e os homens desceram. Olharam os soldados alemães no jipe e não deram atenção. Os três entraram na casa e o oficial alemão quis saber o que estava acontecendo, aquele era o capitão. Foi informado pelo major que tinha de colaborar, eram as novas ordens de Berlim, fiscalizar tudo. O francês não deu a mínima, estava ali somente como motorista. O civil não entendia a conversa dos dois e de qualquer modo o que queria eram as cartas de transito que davam passagem livre a alguém para sair para a América. Todos queriam cartas de transito em Casablanca, ele principalmente, mas não porque queria deixar a cidade, seu negócio era próspero e sua vida tranqüila. Querias as cartas para vendê-las, afinal, eram mais valiosos que o ouro marroquino. O civil foi fumar um cigarro do lado de fora e olhou rapidamente para o jipe. Seu cigarro pendeu no lábio como se visse um fantasma. De dentro da casa de controle o major ouvia o capitão dizer que tinha de mostrar a ordem de Berlim para arquivar nos registros do escritório. O tenente que havia recebido o major deixou a casa e foi até o telefone onde discou rapidamente e disse algo tomando o cuidado de virar de costas para a casa e o jipe. O civil tirou o cigarro da boca e começou a andar em direção aos soldados, um deles virou-se e conversou com os demais. Dentro da casa o major via a cena enquanto o capitão insistia em ver as ordens. __Hei cara!- gritou o civil, sorrindo. O major levou a mão direita às costas. Notou que um grupo grande de soldados alemães vinha correndo de armas em punho. __Hei, amigo! Quanto tempo! - gritou o civil andando de braços abertos. O capitão perdeu a paciência e tomou a prancheta das mãos do major, havia um rasgo ensangüentado no tronco do uniforme. A pistola Webley MK1 fabricada em Manchester veio logo depois. O tiro abateu o capitão e voltou-se para os demais soldados. __Hei, Gasco! Sou eu, Ricky! - disse o civil perto do jipe - Que faz vestido de alemão? Lions o puxou para a frente do jipe fazendo com que se abaixasse. O tenente nazista gritou que não eram alemães e que deviam ser abatidos. Gascoin sacou as duas webley que tinha nas costas e começou a atirar. Weiss estava dentro da casa e tinha sua webley, dois pentes extras e uma faca. Derrubou a mesa de madeira e ficou perto da janela. Os soldados abriram fogo e metralharam o jipe. A primeira granada alçou vôo e explodiu perto do telefone. Mais homens do SAS surgiram de cima do único galpão atirando com as MVK. Soldados alemães refugiaram-se atrás do resistente conversível e responderam os tiros. Grills estava ao lado de Gascoin e viu mais alemães chegando pelo lado. __Não adianta usar o rifle de precisão daqui. Temos de ter fogo pesado. - disse. __Eu sei, Grills ...- e baixou para ser proteger das balas-... Mas não dá pra usar muitas granadas, tem uma bomba de combustível perto daquele carro. __A coisa vai ficar complicada... Londres, mesma hora. O grupo de pessoas que havia sido retirado de Dachau fora encaminhado para atendimento e redenção, ou um abrigo comunitário afastado da cidade, livre, portanto, dos constantes bombardeios da luftwafe. Poucas pessoas do grupo ficaram em Londres, Liv foi uma delas. Naquela madrugada em que o mundo vertia sangue pela guerra, a linda morena estava sentada num banco de madeira em um corredor curto, junto a uma porta imponente. Estava bem e calma. Assim que chegou foi logo encaminhada para um comando militar, onde recebeu roupas e materiais para higiene. Pelos serviços prestados no hospital de Saint Bernard foi lhe dado um pagamento convertido em libras esterlinas o que lhe possibilitou comprar roupas e outras pequenas coisas. Naquele momento vestia um terno creme, com saia até os joelhos, gravata preta militar e sapatos pretos de salto baixo por cima de meias finas brancas compradas por cinco xelins na City. Uma bolsa pequena completava a vestimenta e era o que a mantinha calma. Ela apertava o adereço porque não sabia o motivo de ter sido chamada à Thames House's Millbank, em Westminster. Em 1943, ali funcionava o Escritório Central do Serviço Nacional de Investigação e Inteligência Militar, posteriormente conhecido como MI-5, ou simplesmente, A Firma. Liv foi chamada para uma sala onde senhores distintos com diversas patentes militares a aguardavam. Havia outro homem sentado numa cadeira num canto escuro. __É a senhorita Duncan? - perguntou um deles. __Sim, senhor. - ela foi convidada a sentar-se numa poltrona confortável diante da mesa grande de mogno com um entalhe do Selo: uma figura com cabeça de leão, uma calda de dragão, encimada por uma coroa e rodeada por símbolos navais e alusivos ao número cinco. __A senhorita teve muita sorte em sobreviver àquele inferno em Dachau. - disse outro dos homens, este mais velho e com o rosto corado de vermelho. __Não mais do que ao ataque em Ardenes, senhor. Os nazistas foram extremamente violentos. - retorquiu muito séria. O homem diante dela, General Bernard Montgomery, recostou na cadeira alta e cruzou os dedos sobre a mesa. Um fio de fumaça azulada subia da ponte em brasa de um charuto à sua esquerda. Ele perguntou se isso a incomodava, ela disse que não. __Senhorita Duncan, nós recebemos duas de suas cartas que, certamente, foram de grande valia. Hoje podemos avaliar de uma perspectiva diferente o tamanho do inimigo. __Sim, senhor. O coronel do SAS que estava no comando em Dachau disse que vocês britânicos haviam usado minhas cartas. Gostaria de saber porque fui trazida até aqui... __Aquelas cartas, minha jovem, ensejam muito que isso. São na verdade relatórios detalhados sobre o contingente do inimigo e sobre seus armamentos no momento de preparação de um grande ataque. Soubemos ainda que houve uma ação furtiva para se obter essas informações. De que modo a senhorita está ligada a essa ação? __De modo nenhum, senhor. Eu apenas me concentrei no que diziam os soldados que chegavam ao hospital. Eles tinham essas informações porque um deles se apoderou de um rádio sem que o inimigo soubesse. Este continuou transmitindo, o que nos possibilitou adquirir o conteúdo do relatório. - a voz rouca, firme, mas delicada como a de uma criança, destoava da atmosfera da sala vitoriana, os generais estavam boquiabertos. __Ainda assim foi impressionante - disse o general Montgomery- Sabia que depois daquele ataque nossas tropas conseguiram arruinar diversas posições nazistas? Acabamos de saber da tomada da costa marroquina por um destacamento do SAS. Não tenha dúvidas de que seu relatório contribuiu muito para isso. __Fico contente, senhor. Sou francesa, mas acho que se lutarmos juntos podemos conter os nazistas, agora mais ainda, com o apoio dos americanos. __Mais que isso, pequena - disse outro dos homens- De certa forma você inaugurou algo que estamos planejando desde a fundação deste Serviço. Há um centro que chamamos Inteligência Militar e queremos que você trabalhe nisso. Trata-se do processamento de informações obtidas da mesma forma furtiva que aquele soldado francês o fez. Liv abriu um sorriso discreto. __Querem que eu trabalhe com vocês? Claro! Eu adoraria... Mas mesmo sendo francesa? Neste momento o general Montgomery assentiu com a cabeça liberando o homem sentado no canto escuro para que viesse para a luz. __Senhorita Duncan, vai trabalhar com este homem, para este homem, e seu trabalho será dividido conosco e com os americanos... Alto, olhos pretos e pequenos, arqueados para baixo dos lados do rosto afilado, papada sob a mandíbula, bigode fino somente sobre os lábios. __Mademoiselle Duncan - estendeu a mão para cumprimentá-la - Je suis le général Charles de Gaulle. Sou o líder da França livre. Quero que a senhorita seja responsável pela análise das informações de contra-espionagem de nosso país. A senhorita aceita? De rosto abobado, boca entreaberta e olhinhos esverdeados voltados para cima ela segurou a mão de De Gaulle e aceitou o cargo.
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