ERIK - Capítulo XV Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Laura Treviso, em 24-07-2008 10:39
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Já haviam se passado algumas semanas da abertura de nossa filial, quando Paul

resolveu viajar para Dover para avaliar o andamento dos negócios em nossa matriz e o

desempenho de Samuel.. Até agora parecia que os negócios iam bem por lá, também.

Eles mantinham correspondência semanal e os depósitos no banco continuavam sendo

creditados normalmente. De qualquer forma ele aproveitaria para levar algumas peças

novas e pegar encomendas.

Neste período, um jovem de aparência nobre, apresentou-se como Sir Charles Palmer,

filho do falecido Duque de Devonshire. Surgiu na joalheria, aparentemente interessado

em nossa ourivesaria.. Porém, seu real interesse, passou a ser Catherine. Ele passou a

visitar-nos regularmente, sem nunca levar nada. Apenas conversava com ela, que

começou a corresponder àquela corte. Cada retribuição em sorrisos dela, mais parecia

um murro em meu peito. Lutava contra este sentimento, mas ele era mais forte que

eu. Passei a vigiá-los atentamente.Precisava ter certeza de que ele não a magoaria de

alguma forma.

Tão logo Paul voltou de sua viagem, o senhor Charles apareceu mais uma vez, muito

cativante, apresentando-se como admirador de sua irmã e convidando-os para um baile

que ocorreria dali a três dias. Como o baile era público, ele não teria como evitar o meu

comparecimento. Sim. Ele já me conhecia. Todas vezes que ele visitava Catherine, eu

arranjava um modo de aparecer e amedrontá-lo um pouco com minha presença. O que

não era difícil. Era uma maneira de fazê-lo respeitá-la. Tinha certeza de que ela saberia

defender-se de qualquer ataque canalha, mas não custava dar uma ajuda extra. Já o

surpreendera uma vez tentando insinuar-se mais que o devido e, por pouco não a

tocara, em busca de maior intimidade. Ao ver-me, recuara. Naquela ocasião, eu sofrera

com o olhar recriminador de Catherine que, para meu infortúnio, começava a gostar da

companhia do senhor Charles.

Aqueles três dias, antes do grande acontecimento, pareciam ter deixado Catherine

ensandecida. Provou inúmeros vestidos até conseguir um que a satisfizesse. Após muito
insistir e quase enlouquecer o irmão, conseguiu que emprestássemos um lindíssimo

colar da coleção mais cara da joalheria, todo em diamantes e safiras.

No dia do baile, quando ela surgiu na sala, quase perdi o fôlego. Provavelmente ela

notou pois esboçou um sorriso orgulhoso naquele seu belo rosto, mostrando os dentes

perfeitos e as covinhas graciosas nos cantos da boca.

O senhor Charles ficara de nos encontrar no palácio de eventos. Assim que chegamos ao
local tentei manter-me o mais discreto possível. Sabia que já era conhecido, não mais

tão temido, mas ainda considerado uma figura estranha e pouco sociável. Fiquei

surpreso quando Catherine pediu-me para ser seu par na primeira dança. Tentei recusar,
achando que talvez ela quisesse fazer ciúmes em seu cortejador. Comentei que não

sabia dançar bem, mas , como sempre, os seus argumentos não me deixaram escolha

e ela saiu vencedora. Era bom vê-la tão alegre, o que chegou a contagiar-me. Há muito

não me divertia. Não daquela maneira.

_ Viu, senhor Erik Bell? È só observar os dançarinos a sua volta , seguir o ritmo e

ninguém perceberá que não estamos acostumados a freqüentar salões de baile.

_ A senhorita é muito lisonjeira. Por enquanto estou apenas cuidando para não pisar em

seus pés.

_ È tão bom vê-lo sorrindo. Isto é tão raro.

_ Então tentarei sorrir mais vezes para agradá-la.

Não lembrava de ter me sentido tão a vontade alguma vez na vida. Esta sensação de

bem estar durou pouco, pois mal a dança encerrou-se, Charles surgiu a cortejar

Catherine escandalosamente. Tratei de voltar a minha discrição de sempre, sem deixar

de observá-los. Ela parecia muito a vontade na sua companhia. A música, a dança, a

movimentação alegre das pessoas e a sedução do duque enfeitiçavam-na, afastando-a

de mim. Até Paul parecia estar flutuando, buscando uma companhia feminina. Ele

também se sentia só. Já não bastavam mais as companhias da irmã e de seu sócio. Ele
começava a sentir a necessidade de ter uma família, com esposa e filhos. De repente,

pensei que talvez estivesse chegando a hora de afastar-me deles. Ter meu próprio

lugar, minha casa. Eu me acomodara naquela situação, por sentir-me finalmente

levando uma vida familiar quase normal, a qual eu nunca tivera oportunidade de ter

antes. Mas chegara a hora de compreender que eles não eram a minha família. Eu ainda
era um intruso, querendo viver á sombra de outros.

Já passava da meia noite e o baile começava a perder sua força. Foi difícil para Paul

convencer Catherine a despedir-se e sair um pouco mais cedo. Ao subir no coche, o

cansaço finalmente a venceu, fazendo-a adormecer ao meu lado, repousando sua

cabeça em meu ombro. Sentia aquele perfume que me inebriara na primeira vez que a

vi, vindo de seus cabelos. Podia ver o arfar de seu peito e a suave curvatura de seus

seios adentrando o decote do vestido. Paul logo adormeceu também, pois não estava

acostumado á vida noturna. Com o balanço da carruagem, Catherine escorregou e

precisei segurá-la, aconchegando-a em meus braços. Poderia ficar assim o resto da

noite.

Ao chegarmos em casa, acordei Paul e encarreguei-me de levar sua irmã até o quarto,

enquanto ele chamava a senhora Emma para ajudá-la a vestir-se para dormir.

Carregando-a sem muito esforço, subi as escadas e coloquei-a deitada na cama ,

observando-a em seu sono profundo e sentindo sua doce e cálida respiração em meu

rosto.


Na manhã seguinte, apesar de ser um domingo, dia de folga do trabalho, Paul

acordara, tomara seu café e seguira para a loja, onde resolvera adiantar alguns

trabalhos pendentes. Catherine acordou mais tarde e pediu o seu café na cama. Ao

descer, perguntou por Paul.

_ Ele não consegue ficar longe da joalheria. Parece o meu pai. Gostou da festa, senhor

Erik? - falou com sorriso zombeteiro - Não o vi dançando com mais ninguém . Não se

interessou por nenhuma jovem?

_ A senhorita deveria dizer: "nenhuma jovem interessou-se pelo senhor?" - respondi,

retribuindo seu sorriso.

_ Porque acha que ninguém se interessaria pelo senhor?

_ Quem gostaria de ser cortejada por alguém de rosto disforme, usando uma máscara

para disfarçar seu infortúnio.

_ Acho que alguém que pudesse ver o homem atrás da máscara. Não acredito que a

aparência externa de uma pessoa justifique sua personalidade ou seu caráter.

_ Mas as pessoas em geral não pensam desta maneira. È mais fácil desprezar o

grotesco e considerá-lo maléfico. Já sofri muito com este preconceito. Hoje em dia já não
me revolto com as expressões de horror que os outros possam lançar por minha

aparência. Também sei que nem todos pensam assim. Por isso estou aqui, conseguindo
viver minha vida. Não fosse por pessoas como o seu irmão, eu já estaria morto.

Este não era de meus assuntos preferidos, portanto fiz menção em levantar-me e sair.

_ Se me der licença, senhorita Catherine, acho que vou atrás de Paul, para ver se não

precisa de ajuda.

_ Por favor, Erik. Eu gostaria que me chamasse de Catherine ou Cathy, como preferir.

_ Como quiser.

_ Antes de sair, poderia saber sua opinião a respeito de um pedido que recebi, antes de

falar com Paul?

Gelei ao pensar que tipo de pedido ela havia recebido e o porque de querer saber minha
opinião antes de Paul.

_ Ora, fico lisonjeado com tamanha confiança - tentei gracejar, sem muita convicção.

_ È sobre Charles Palmer. Ele quer freqüentar nossa casa. Gostaria de saber o que você

acha disso?

Sentia ansiedade nas palavras e um olhar doce e suplicante de Catherine. Minha

vontade era dizer que não, mas precisava liberá-la para viver sua vida. Talvez aquele

fosse o homem certo para ela. Ele poderia dar-lhe tudo que precisava. Eu continuaria a

observá-lo, mas não podia evitar o inevitável.

_ Como seu amigo, Catherine, acho que vai ser bom para você. Já está na hora de

pensar no seu futuro. Charles parece ser um bom partido. Pode contar com o meu

apoio, se isto for importante.

_ Amigo? Então eu não passo de uma amiga.

_ Aluna? Irmã? Como você preferir. Saiba que tenho grande apreço por você. Só quero

que você seja feliz, Catherine.

Lágrimas pareceram brotar de seus olhos azuis brilhantes, mas logo ela respirou fundo e
olhou-me com expressão magoada.

_ Não sei sobre o seu passado, Erik, mas acredito que você tenha sido tão machucado

em seu coração que ele transformou-se em pedra. Não é possível que você não perceba

o que venho tentando lhe dizer. Toda a sua sensibilidade foi transferida para folhas de

desenho, para uma mesa de trabalho e para coisas materiais?

_ Não estou entendendo, Catherine - tentei disfarçar, mantendo-me impassível

externamente, mas com o coração encolhendo-se no remorso por falar-lhe daquela

maneira.

_ Está bem, Erik. Eu não vou obrigá-lo a tomar nenhuma atitude. Talvez eu tenha me

equivocado com você. Perdoe-me por esperar encontrar algo mais do que educação e

amizade por trás desta máscara.

Eu não conseguia articular nenhuma palavra. Minha vontade era beijá-la e abraçá-la no

momento em que vi as lágrimas correndo por sua face amada.

Ela virou-se e saiu correndo para trancar-se em seu quarto. Por sorte, Paul não estava

em casa para presenciar aquela cena.

Saí para a rua, transtornado, sem destino, apenas com as últimas palavras de Catherine
nos pensamentos. Tentava me convencer de que estava fazendo o melhor para ela.

Depois de muito andar, acabei por entrar em um café no centro da cidade e sentei-me

num lugar mais reservado. Fui pinçado de meu desespero pelo som de vozes próximas,

sendo que uma delas me era bem conhecida.

_ E, então, Charlie? Como vão os negócios? Algum projeto em vista? - disse o homem,

soltado uma gargalhada logo em seguida..

_ Vá rindo, vá rindo. Saiba que estou em vias de finalizar uma grande jogada.

_ Posso saber qual?

_ Algo muito rentável e bastante agradável, eu diria.

_ Ah! Então posso esperar receber o dinheiro que me deves?

_ Calma, meu amigo. Creio que não deverá demorar muito. Prometo que lhe pagarei

com juros e correção monetária.

_ Humm....Então deve ser um negócio muito interessante. Se for, também quero

participar. Não deve ser um novo "golpe do baú", já que todas as jovens herdeiras do

país conhecem a sua fama de nobre falido á procura de um belo dote.

_ Nem todas, nem todas.

_ Quem é a otária desta vez?

_ Não quero que fale de minha futura noiva nestes termos, Ethan.

_ Está bem. Então, quem é a "felizarda"?

_ Uma jovem encantadora, com futuro muito promissor e extremamente agradecida a

mim por salvá-la da solteironice. Digamos que ambos farão um belo negócio. Ela ganha

um marido elegante,um título de nobreza, e eu fico algumas milhares de libras mais

rico.

_ Você quer dizer menos pobre. Sim, porque você não tem uma libra em seus bolsos.

Não fosse aquela pobre prostituta que lhe dá os míseros centavos que ela consegue em

suas noites por aí, por estar apaixonada por você, não sei em que sarjeta estaria caído.

_ Isto são meros detalhes, meu caro, que não devem ser lembrados, pois logo serão

passado.

_ Então, que tal um joguinho esta noite, para comemorar?

_ Quem sabe amanhã, quando terei uma resposta definitiva de minha "amada" - falou

sir Charles Palmer, Duque de Devonshire em meio a uma sarcástica risada.

Senti minhas têmporas latejarem e o estomago embrulhar ao ouvir aquele diálogo

asqueroso. Tive de segurar-me para não me lançar sobre aquele rato de esgoto e

esmurrá-lo até a morte. E pensar que eu acabara de lançar Catherine em seus braços.

Tinha que reverter aquela situação imediatamente. Precisava esfriar a cabeça e pensar.

Esperei que Charles e o tal de Ethan fossem embora.

Quando saí do café, estava atordoado, mas decidido a contar a Paul sobre o que

acabara de ouvir. Deixaria para ele resolver a melhor saída daquela situação. Não tinha

certeza se isto seria suficiente. O sujeito era da pior espécie possível.

Publicado em : Livros, Romance
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