Inferno Interior Imprimir Enviar para um amigo
Avaliação desta obra: / 1
RuimÓtimo 
 
Escrito por Mirna Cavalcanti de Albuquerque Pinto da Cunha, em 24-07-2008 12:14
Avaliação média    (1 voto)
Visitas 2015    
Favoritos Nenhum

Todos somos responsáveis por quem nos tornamos.

Há muitas pessoas que só se sentem bem quando fazem os outros infelizes. Lamentavelmente. A história que vou narrar é sobre uma dessas tantas pessoas.

Chamava-se Paulo. Cada manhã, ao acordar - ainda deitado, começava a pensar no que poderia fazer de negativo para atrapalhar, prejudicar - enfim, quais seriam as maldades a serem por ele praticadas naquele dia. Já ao sair da cama tinha mal-traçadas idéias que, durante o desjejum, aprimorava. Elaborava, então, o plano escolhido, a 'vítima' e planejava detalhes os mais perniciosos.

E assim fazia todos os dias. Da manhã à noite, praticava maldades as mais diversas e comprazia-se com seus atos que, por vezes, podiam ser classificados até mesmo como sádicos.

Não foi dado ao ser humano ficar na Terra para sempre. Assim, chegou o dia em que Paulo deveria partir. Para surpresa sua, São Pedro pessoalmente abriu-lhe os Portais Celestiais de par em par, deixando-lhe entrever o Paraíso. Atônito, Paulo pensou: "passei a vida toda praticando maldades e não fui mandado para inferno algum... ainda bem... 'inferno' era, então, só história, não existe mesmo... pois, se existisse, eu não estaria aqui..."

Adentrou o Paraíso feliz da 'vida'. Beleza pura! Pôs-se a passear por jardins magníficos, com flores de variadas cores, árvores frondosas, muitas frutíferas e carregadas de dulcíssimos frutos. A relva que cobria os jardins estendia-se como um tapete de veludo verde de tonalidades exuberantemente coloridas. O canto de pássaros de belas plumagens chegava aos seus ouvidos, trazidos por uma aragem agradável que lhe acariciava o rosto.

Tudo ia muito bem, até que passou a sentir a desconfortável presença de uma criatura o tempo todo a seu lado. De início, o homem nada dizia. Acompanhava-o por todos os lugares que ia. Quando passou a comunicar-se, demonstrava sempre sentimentos negativos. Era mal-humorado, criticava de forma grosseira os demais, maltratava quem dele se aproximasse, nada dividia com quem quer que fôsse... enfim, sua companhia estava não só a perturbar a placidez da qual Paulo estava desfrutando, mas como o aborrecia sobremaneira, ouvir sempre as mesmas cantilenas pejorativas, em tons, às vezes, de exaltada voz.

Não demorou muito e chegou o ponto que Paulo não mais poderia tolerar o 'outro', pois a inseparável companhia havia se tornado insuportável. Paulo olhou à sua volta e viu, entre os anjos, um que parecia ser o chefe dos demais. Foi até ele e suplicou-lhe para que o livrasse da indesejável presença. Havia mesmo desespero em sua voz:

"Peço-vos, Angélico Ser, livrai-me da companhia deste homem. Está sempre ao meu lado, aborrecendo-me todos os dias, portando-se inadequadamente, falando - e mal - de todos quantos estão aqui, ofendendo gratuitamente aos demais... Senhor Anjo: não tenho como suportar uma pessoa assim tão má..."

O Anjo, um Serafim, olhou-o com comiseração e respondeu-lhe: "Paulo, a quem te referes? Não há ninguém a teu lado"... "Como não, senhor anjo Serafim?", contestou-lhe Paulo. "O senhor não está o vendo? Não o está ouvindo?"
Respondeu-lhe o Serafim, com olhar penalizado:
"Paulo, não vejo nem ouço ninguém - pois estás só. O que imaginas ser 'outro', és tu mesmo. Durante tua vida na Terra, "construiste" o ser que agora abominas. Quando tiveste oportunidade - em vida terrena - de arrepender-te e tentar desfazer as maldades todas que praticavas diuturnamente, não o fizeste.

Agora é tarde demais. Trouxeste contigo bagagem da qual não poderás mais livrar-te, pois é parte integrante de quem te tornaste. Viverás no inferno por ti criado.

Ele está dentro de ti".


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
Quote this article in website Favoured Send to friend

Comentários (1)
Postado em Pitz, em 31-07-2008 22:09, , Membro Registado
Muito bacana. São tantos Paulos Soltos pelo Mundo...  
A Principio, pensei que você fosse enveredar pelas maldades praticadas pelo Paulo; depois acreditei ver Paulo no inferno. Por fim me rendi ao enredo e percebi que a busca pelo desfecho(Surpreendente), guiou-me curiosamente até o final.Parabéns. 
E tomara que os negativos Podres de vidas terrenas, não pintem nosso céu de cinza. 
 
Grande Abraço, 
 
Allan Pitz
 
» Responder a este comentário...

Adicionar comentário

< Anterior   Próximo >