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| ESA # 18 - Família é assim mesmo...! |
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André estava com Guta, trancado em seu quarto, beijando aquela boca deliciosa e apertando seus seios redondos... na sua imaginação.
Caramba, como Guta era gostosa! Não tinha nem outra palavra, era isso mesmo: gostosa. Com todas as letras e sílabas. Estava excitado apenas de lembrar do corpo carnudo de Guta. Ela era carnuda, sim! Quente e macia! Nem parecia que era mesmo virgem como dissera, antes daquela noite no quarto de Erick... E esses pensamentos o trouxeram de novo para a realidade: "O que é que você está fazendo, porra?!" Foi isso o que Erick disse para ele sábado quando estava chegando em casa depois da festa, com uma voz de reprovação assustadora. Na hora respondeu "Não se mete.", mas a verdade era que Erick tinha razão! O que ele estava fazendo?! Se gostava de Joyce porque ficava correndo atrás de Guta?! E se gostava de Guta por que é que não terminava com Joyce?! Qual era o seu problema, afinal? André tirou as mãos de dentro de sua calça. Estava sendo sacana. Isso era coisa de gente retardada: não saber o que quer da vida, não saber de quem gosta de verdade, ser volúvel, trair... isso era coisa de gente retardada e estava sendo retardado com duas pessoas especiais: Joyce, sua namorada e Guta, sua amiga de infância! Devia terminar logo com Joyce e ficar com Guta... seria o mais sensato, já que estava com esse tesão todo por Guta. O problema era que com Guta era só isso, era só tesão... e com Joyce não. Com Joyce era amor, puro amor. É. Chega. Estava decidido. Daria um ponto final nesse relacionamento maluco e cheio de fogo com Guta e ia tratar bem de Joyce! Ia namorá-la como um verdadeiro príncipe, porque era isso que Joyce merecia! Amava Joyce. Joyce era sua escolha. Joyce. Preparava-se para dormir sentindo-se um monstro, quando um estrondo o acordou do estado de quase sono em que se encontrava. Acordou de supetão arregalando os olhos e sem pestanejar abriu a porta de seu quarto, para verificar o que estava acontecendo. O corredor estava vazio e o barulho vinha do andar de baixo, da sala talvez. Com os pés descalços pisou devagar descendo a escada, um pouco desconfiado. Olhou para o relógio da mesinha do telefone, era um relógio de vidro e metal dourado. Duas e meia da manhã. Será que era um ladrão tentando entrar pela porta? Ouviu alguns sussurros e a fechadura da porta destrancou. André sentiu todos os seus ossos se arrepiarem... e depois congelarem em um susto: a porta abriu e ele encarou Erick, visivelmente bêbado, segurando-se para não cair. Derrubou as chaves no chão e tropeçou no tapete da entrada, assim que passou pela porta. - Erick! - André levou o maior susto de sua vida e correu para socorrer o irmão postiço, ajudando-o a ficar em pé. - Ai, ai ai... - Erick reclamou quando André o puxou pelo braço, fazendo-o ficar em pé. Não estava com equilíbrio suficiente para andar. André olhou para fora procurando alguém, mas aparentemente Erick estava sozinho. Encostou o irmão na parede. - Fica quietinho. - disse em sussurros para Erick. Pegou as chaves do chão e trancou a porta. Voltou a encarar Erick que já escorregava sentando-se no chão. - Não, não! - levantou o irmão novamente, passando o braço de Erick por seu pescoço e o segurando na cintura, para equilibrar-se. - Que bosta, Erick! Onde você estava?! - Eu preciso vomitar. - foi tudo o que Erick disse. Quando percebeu, André estava subindo as escadas com Erick o mais rápido que podia, até chegarem ao banheiro do corredor, onde Erick vomitou aparentemente tudo o que havia ingerido naquela noite. - Que isso, cara! O que aconteceu? - André estava assustado. No mesmo instante a porta do quarto de seus pais abriu. Da porta, Márcio encarou André de pijama em pé no corredor, com a luz do banheiro acesa e aparentemente alguém vomitando. Erick, pelo visto. André ficou branco quando viu Márcio, porque o homem imediatamente perdeu a expressão de sono, adotando uma carranca severa. Olhou no relógio de pulso que horas eram e caminhou até o banheiro. - O que está acontecendo? - e viu por si mesmo, seu filho mais que bêbado vomitando. Virou os olhos impaciente e colocou uma mão ao ombro do seu enteado. - Vai pro quarto, André. - Mas pai... - Eu não vou repetir. - foi firme. - Certo. - André a contragosto deu meia-volta e entrou em seu quarto, sem contestar, mas ficou com a orelha grudada na porta, tentando escutar tudo. Márcio suspirou irritado mais uma vez. Aproximou-se de Erick segurando em seu braço para ajuda-lo a ficar em pé. - Ei, ei... você tá bem? - Eu estou ótimo. - Erick relutou para soltar-se dele. - Só enjoado. - E voltou a curvar-se para vomitar um resto de álcool. - Estou vendo. - Márcio foi de novo ajuda-lo a ficar em pé. - Isso precisa acabar, Erick. - Eu não pedi a sua ajuda, me solta. - relutou novamente e com dificuldades ficou em pé se segurando na pia, enquanto lavava o rosto sem jeito. - Por que não toma um banho, filho? - Pára, não me chama assim! - protestou, com uma careta sentindo-se enjoado de novo. - Sai daqui, eu não chamei você! Eu não quero sua ajuda! Márcio não queria discutir com seu filho daquela forma, mas isso o irritou profundamente. Mais irritou do que magoou. Por isso, não insistiu: - Ótimo, se vira sozinho. Amanhã teremos uma boa conversa, mocinho. - e com isso, voltou todo o corredor e fechou a porta do seu quarto, fingindo toda a indiferença possível. Erick vomitou mais uma vez e por fim, recostou-se contra a parede do banheiro, sentindo seu estômago queimar de tanta dor. Droga. Queria estar em Brasília, deitado em sua cama. Já estava quase sol à pino quando Erick desceu as escadas, com os cabelos molhados e meias, de calça jeans e camiseta vermelha sem estampa. Bocejou com sono e com dor de cabeça, a claridade incomodava seus olhos azuis. Assim que entrou na cozinha topou com Márcio fazendo uma caipirinha, Joyce de biquíni amarelo minúsculo e shorts jeans, chupando um pirulito de cereja e André amarrando os sapatos. Sueli estava com os cabelos precisando de uma nova mão de tintura, com as raízes enormes, mas estava bem bonita, com eles presos em um coque banana e um vestido florido bem leve no corpo, sentada ao lado de Joyce, bebendo uma caipirinha de maracujá. - Bom dia, Erick. - Joyce anunciou. Todos se viraram para ele imediatamente, e o silêncio reinou na cozinha, até que Erick resolveu responder. - Bom dia, tudo bem? - Super animada!! E você? - Por que eu estaria animado? - Ué com... - Resolvemos que iremos todos viajar, estávamos te esperando, querido. - Sueli tomou a frente da conversa e ficou em pé de supetão. - Vou aproveitar e arrumar sua mala, para você não esquecer de nada! - Viajar? - a dor de cabeça de Erick piorou com a notícia. - Como você chegou tarde ontem, não deu tempo de te avisar, espero que não seja uma hora ruim. - Márcio fez questão de debochar e finalizou a caipirinha de morango estendendo para Joyce, enquanto Sueli saía da cozinha. - Não, eu acho. - Erick sentou-se na mesa ao lado de André e serviu-se de um copo de água. - Não quer uma caipirinha? - Márcio voltou a debochar. - Posso fazer de abacaxi pra você! - Eu odeio abacaxi. - Basta escolher outra fruta. Tem limão, maracujá, morango, fruta-do-conde, pêssego e figo. - Ew... figo... - Erick sentiu enjôo e deu um largo gole em sua água. - Sabe, nada como um outro porre para curar uma ressaca! Pelo menos era isso que um amigo meu, Lúcio, sempre dizia... estudávamos juntos na faculdade, mas depois que as aulas acabaram, perdi notícias dele... - Ah tá. - Erick não queria conversar e não estava entendendo o que Márcio queria com aquele blá-blá-blá todo. - Está de ressaca, Erick? - Joyce indagou, com um sorriso e o pirulito dentro da boca, de forma sensual. - Saiu ontem sem me chamar? - Você queria sair? - André indagou, meio enciumado, virando-se para Joyce que apenas afirmou com a cabeça. - Podemos sair hoje à noite. - Erick, você não tem tênis? - Sueli indagou da porta, com as sobrancelhas erguidas. - Tênis pra quê? - Acho que o André pode te emprestar um... - Márcio devaneou. - Ou podemos comprar um no caminho. - Eu tenho um tênis. - Você tem um all-star. - André debochou. - All-Star é tênis. - Mas não serve pra onde iremos, babaca. - André continuou. - Eu te empresto um! Tenho uns trinta mesmo. - Por que all-star não serve? - Erick perguntou com um pouco de preocupação em sua voz. Aquele tipo de afirmação vinda de André não era bom sinal... - Vamos para um hotel fazenda! - Joyce quem contou a notícia. - É perto de uma reserva ambiental, iremos fazer caminhadas, ver cachoeiras... essas coisas. - Ah, não... - Erick reclamou, colocando as duas mãos na cabeça, tapando os olhos. - Não quer ir? - Sueli indagou preocupada. - Claro que ele quer! - Márcio insistiu e iniciou a preparação de uma caipirinha de limão. - Além do mais, não há outras opções, é um passeio familiar! Erick sentiu um martelo cair na sua cabeça, sentenciando sua morte: um passeio familiar com a família que não queria ter. Ô inferno!! O pior da viagem não era Márcio cantarolando uma música brega de Roberto Carlos e nem Sueli divertindo-se com isso, fazendo os backing-vocals, muito menos André roncando, dormindo com a cabeça na janela. O pior da viagem era, definitivamente, as pernas brancas e depiladas de Joyce, arrepiadas do frio do ar condicionado. Ela estava com frio, os cabelos castanhos soltos cobriam seus ombros. A boca avermelhada do pirulito, já no fim, que ela chupava com toda calma e paciência, e de vez em quando passava pelos lábios como se fosse um batom, só para lamber o doce. Isso era um martírio!! Erick já estava quase morrendo, em uma inquietude sem fim, com tudo isso. Joyce era uma explosão inocente de sensualidade. O fazia de uma forma quase virgem... nem percebia que estava sendo sexy. Ela estava sendo uma garotinha brincando com um doce. Nem imaginava as reações que estava provocando. Mas Joyce, apesar de virgem, não era nada inocente. E estava mesmo era fazendo uma provocação. Sabia que os garotos achavam-na bonita e sensual. Sabia, porque muitos diziam... e isso era horrível, porque deixava mais obvio uma tristeza: André não achava. André não a desejava, ela sabia. E estava lá, manezão, dormindo!! - Ai, estou com frio. - disse baixinho. - Também, taí quase pelada... - Erick reclamou, com sua sinceridade cheia de espinhos. Mas com um suspiro, tirou sua jaqueta de moletom preta, estendendo pra ela. - Mas assim você vai ficar com frio. - Erick deu de ombros e a cobriu com a jaqueta. - Obrigada, Erick. - Nada. - ao menos ela se cobriria um pouco! - É verdade que você tá saindo com a Guta? - Não. - Não?! - Joyce assustou-se, olhando para ele. - O André disse... - O André é um otário. - com isso, Erick virou pro outro lado, olhando pra fora da janela. Joyce ficou quieta. Com os cantos dos olhos olhou para André, que dormia com a boca aberta. A viagem ia ser uma droga, já estava prevendo... devia ter ficado em casa! Quando finalmente o carro adentrou o estacionamento do Hotel Fazenda, cheia de ursos desenhado nas paredes, Erick já estava praticamente em estado de histeria interna. Não agüentava mais Roberto Carlos sendo cantarolado em looping!! Não agüentava mais as pernas de Joyce e muito menos os roncos silenciosos de André. - isso porque André não era roncador, mas dormia de boca aberta respirando muito forte. Desceu do carro pisando de All-star no chão de granito. Márcio foi o segundo a descer, encarou seu filho com um sorrisão na boca, mostrando todos os dentes: - Lindo lugar, não? - É. - nem era! Tava nublado, pra começar...! Márcio estendeu uma chave para Erick, do hotel, com o número 533 no chaveiro. - É um quarto, mas tem três camas. Onde nós, homens ficaremos! As mulheres ficarão em outro quarto. - Você tem o quê? Doze anos? - Erick retrucou, mau-humorado. Fechou a porta do carro com força. - Erick não fala assim com seu pai. - Sueli reclamou, do outro lado do carro. Joyce saiu do carro logo em seguida, após André. - Calma, Su. - Márcio interveio. - Viemos aqui para comemorar, viajar em família... não brigar. - Qual o problema de vocês? - Erick continuou, irritado. - Eu não to afim de comemorar merda de família nenhuma! - e chutou o pneu do carro. - Erick! - Márcio o segurou. - Me solta, me deixa em paz! - Erick se debateu até ser solto e assim que Márcio soltou seus braços, saiu correndo. - Erick! - Sueli gritou por ele. André não pensou duas vezes, ainda estava sonolento, mas era rápido: correu atrás do suposto irmão. Correu depressa, mas enquanto corria teve tempo suficiente para pensar, como se o tempo fosse relativo e estivesse em câmera lenta. Seria melhor deixar Erick correr para bem longe e sumir. Desaparecer para sempre, nunca mais voltar. Ao mesmo tempo, sentiu uma dor estranha ao pensar isso. Sentiu-se egoísta... E foi então que Erick parou. Com as duas mãos no joelho, sem ar. Cansado. Sentiu tontura, o estômago revirou da ressaca. Foi ao chão quando André se jogou em cima dele, derrubando-o no gramado do jardim do Hotel. - Você é um idiota! - subiu em cima de Erick para lhe dar uns bons cascudos. - Um idiota! - Cala a boca! - Não me manda calar a boca, seu otário! Filhinho de papai imbecil! Boyzinho escroto! - Cala a boca! - Você é um inútil! - André por ser atleta era superiormente forte. Sem dificuldades imobilizou Erick no chão segurando seus braços, e seu corpo, com seu peso. - Me solta, que merda! - Erick tentou se soltar, mas André estava irritado e com toda sua força o segurou pelo pescoço, prendendo-o no chão. - Pára com isso! - Sentiu o ar faltar e segurou nos braços de André. - Imbecil! - André berrou mais uma vez. - Idiota! Erick encarou os olhos de André, vermelhos de raiva. Estava totalmente fora de si, nunca imaginou que veria André dessa forma. A asfixia piorou, machucando sua pele. E depois tudo aconteceu depressa demais: Joyce berrou, Márcio apartou os meninos e Sueli tremia sobre suas pernas bambas, tendo uma crise de pressão baixa. - O que é que você pensa que está fazendo? - Márcio chocalhou André com toda sua força, enquanto Erick tossia recobrando o ar. - Enlouqueceu? - e depois soltou seu enteado, voltando-se para seu filho, ajudando-o a erguer-se do chão. André ficou estático, meio sem entender o que havia acontecido. - Ótimo! Grande! Vocês dois estão de castigo! Acabaram de estragar a viagem, espero que gostem e divirtam-se! - Márcio berrou, irritado. - Eu não sei qual é o seu problema! - e essa frase foi pra Erick, porque se virou para o garoto com o dedo em riste. - Talvez você não goste da idéia de morar conosco, mas acostume-se! Essa é sua família agora! Você é meu filho! Eu sou o seu novo pai! André é seu novo irmão e a Sueli é sua nova mãe! Lide com isso, você não é uma criança!! Erick não conseguiu pensar. A única coisa de que tinha certeza era que aquela não era sua família, aquele não era seu pai, ele não tinha irmãos e aquela mulher não era, nem de longe, sua mãe! - Eu não agüento mais! - foi o que gritou. - Eu não agüento mais essa merda! Será que dá pra entender que eu não agüento mais?! - Fica quieto e já pro seu quarto, mocinho! - Eu não quero! - Erick retrucou. - Não estamos abertos a discussão, já pro seu quarto! É melhor você ir por bem do que por mal! - É? E o que você vai fazer?! - Eu cansei dessa sua arrogância, Erick. - Márcio segurou o braço de seu filho com toda a força que tinha. - Me solta! - Você vai pro seu quarto de castigo! - E Márcio arrastou o seu filho pelos corredores do Hotel Fazenda cinco estrelas. Sueli passou a mão na testa, secando o suor e encarou André, que estava estático. Foi abraçar seu filho e beijou-lhe o rosto. - Vai ficar tudo bem. - foi o que sua mãe lhe disse. - Vai ficar tudo bem. Joyce queria ir embora. Aquilo era o inferno! Não sabia o que era pior: André e Erick brigarem ou Márcio e Erick brigarem. A única coisa que sabia era que aquela família estava longe de ser uma família, porque ninguém se compreendia.
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