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ESA # 19 - Depois da tempestade, mais tempestade Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Mariana Mello, em 25-07-2008 15:55
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Sueli aproveitou que Márcio estava no banho e que André e Joyce aproveitavam o fim de tarde para andar pelo rio, e ao invés de fazer o que normalmente faria - olhar vitrines de loja do hotel - dirigiu-se para a porta do quarto onde estava Erick. Márcio estava tentando não parecer que tinha "doze anos", separando André e Joyce em um quarto. Por isso Erick estava sozinho em um quarto de três camas.

Teve que bater na porta com insistência para ela se abrir. Encarou Erick com cara de sono. O quarto estava todo escuro.

- O que foi? - Erick perguntou ao abrir a porta, de roupa amassada e cabelos desarrumados.

- Preciso falar com você, posso? - Sueli perguntou com um sorriso sem jeito, procurando ser simpática.

Erick abriu espaço para a mulher entrar no quarto, concordando com a conversa. O ar estava congelado pelo resfriamento artificial. As luzes estavam apagadas e as cortinas fechadas, isolando qualquer luz lá de fora. Ao entrar, Erick acendeu a luz e Sueli o seguiu, fechando a porta.

Sentaram-se à macia cama de lençóis coloridos postos pelo hotel. Ficou um silêncio estranho entre os dois, uma estranheza. Durou até que Sueli resolveu dizer alguma coisa:

- Já jantou?

- Não estou com fome...

- Ah sim. - ela ajeitou o coque banana em sua cabeça de cabelos tingidos e escovados. - Você está bem?

- Uhum. - Erick a examinou, estava claro que ela queria dizer alguma coisa, como passar um daqueles sermões típicos de pais. Nervosamente apertava com as duas mãos seus joelhos, por cima da calça vermelha e social, tinha os braços cobertos por um suéter azul claro, nada combinando e exageradamente colorido.

Essa era Sueli, uma tia perua. Apesar disso, era uma mulher bonita, mas que se esforçava demais para se arrumar, o que a deixava sempre com um ar de perua meio exagerado, cheia de jóias no pescoço, orelhas e mãos. Mas tinha um sorriso gentil, desses sorrisos que as mães legais sabem dar.

- Eu queria conversar com você, Erick. - a mulher falou, surpreendendo o garoto. - Desde que você se mudou não tivemos a chance de conversarmos em particular... e já faz quase um mês que está em nossa casa.

- Conversar? Sobre o quê? - Erick impacientou-se e não procurou esconder o seu tom de voz. Era óbvio que vinha um sermão. Estava de saco cheio de sermões.

- Eu não vim te dar uma bronca, querido. - sorriu confortavelmente, colocando uma de suas mãos no ombro de Erick. - Já faz quase um mês que você está morando conosco, estamos todos passando por um momento de adaptação que é difícil e demorado, mas... eu quero que me responda honestamente, pode ser?

- Ok... - foi quase hipnotizado pelo olhar profundo e cheio de máscara para cílios preta de Sueli. Era um olhar materno, carinhoso.

- Você está bem?

Quando viu Erick abaixar a cabeça e perder a coragem de encarar-lhe, Sueli sentiu seu coração apertar como se estivesse sendo espremido por duas paredes de concreto cheias de espinho. Ele obviamente mentiu:

- Sim, claro.

Diante disso, Sueli não soube o que dizer. Engoliu seco, segurando na garganta suas mágoas de mulher. Deixou seu coração falar por si:

- Erick... na sua idade, com todas as coisas pelas quais você está passando... ninguém espera que esteja tudo bem com você. É compreensível inclusive que você não esteja nada bem... e nessas horas todos sabemos como é fácil ser irresponsável, agir por impulso para tentar esquecer aquilo que nos machuca por dentro... mas você precisa entender, querido, que há pessoas que se preocupam com você... e apesar de não ser uma relação perfeita como todos gostariam, essas pessoas não deixam de gostar de você. Mas não é justo que você as machuque com suas atitudes... e nem que você se machuque com tudo isso. Você entendeu, querido?

Erick não queria, mas entendeu o que Sueli estava dizendo. Era exatamente o que ele vinha fazendo há meses, muito antes de sair de Brasília. Levantou a cabeça para encará-la novamente, para ter certeza de que tinha sido ela quem dissera tudo isso.

- Eu me sinto um erro... tudo parece errado, como se não encaixasse.

- Isso vai levar tempo para passar, querido. Mas não quer dizer que não possamos tentar. Não vai ser nenhum crime se você for feliz aqui conosco, não estará traindo ninguém... nem Gregory, nem sua mãe... de fato, certamente ao saberem de sua felicidade, eles ficariam felizes também.

- Eu tento... - Erick afastou o cabelo dos olhos. - Mas não estou em clima de festas, nem de viagens, nem de comemorar nada. E durante todo esse tempo, eu tô tentando... o tempo todo... e nesse tempo todo... ninguém quis saber o que eu achava, onde eu queria estar, o que eu queria fazer... todo mundo tem algo pra dizer, algo que acha que vai ser melhor pra mim... por que ninguém me pergunta o que eu acho?

- Ah querido. - Sueli o abraçou. Foi um abraço de mãe, com braços confortáveis e seguros. - Isso é porque estão tentando proteger e ajudar você! É por isso que você precisa dar tempo ao tempo, querido, para as coisas se acertarem. Sei que desde que você mudou, você e Márcio não estão se entendendo... mas coloque-se no lugar dele também, ele se sente frustrado, porque quer ser um bom pai e não consegue.

- Eu só quero ir pra minha casa... mas agora nem sei mais onde é que ela fica... - Erick confessou.

- Ela fica aqui conosco, benzinho. E também fica com Gregory. Basta nos dizer que quer ir, ninguém vai te obrigar a ficar. Você pode visitá-lo sempre que quiser.

- Pra quê? - Erick afastou-se de Sueli e secou os olhos com a manga da camiseta. - Não estou falando com ele.

- Isso é algo que você não devia fazer, Erick. Eu sei que ele tem tentado falar com você. Por que você não o atende?

- Eu não tenho nada pra falar pra ele... nem pra ninguém.

- Nem pra mim? - Sueli deu um sorriso brincalhão, que arrancou um sorriso de Erick. - Você pode sempre falar o que quiser para mim, Erick, farei o possível para ajudar, está bem?

- Está bem.

- E tente não tomar atitudes irresponsáveis. Tome cuidado... faz menos de um mês, mas já sentiríamos a sua falta em casa. Quem ia fazer barulho o dia inteiro? André é um fracasso nisso!

- É, ele é... - Erick riu. - Obrigado, Sueli.

- Não há de quê, agora se arrume para irmos jantar. Seu pai vai ficar feliz de ver você. - ela o beijou na testa e levantou-se. - Ok?

- Ok.

Erick esperou Sueli sair e assim que a mulher fechou a porta foi tomar banho. Adentrou o banheiro e acendeu a luz. Encarou-se no espelho e viu o fracasso que era, só de olhar qualquer pai veria o que realmente era: um irresponsável, mimado. Sabia que era. E não achava que seria capaz de fazer o que Sueli havia pedido: ser um bom garoto, comportar-se e mais, tentar ser um bom filho. Aliás, não sabia nem o que isso queria dizer, porque se queria dizer que era pra ser igual André, preferia morrer! Entretanto, havia uma coisa que o preocupava nisso tudo: imaginava Cecília conversando com a mãe de Sofia sobre ele... "ele usa piercing, gosta de heavy metal e toda festa ta caindo de bêbado até vomitar tudo o que bebeu" e pronto, perderia a namorada.

Tudo bem, que não fosse por Márcio, que fosse por Sofia. Tinha mesmo que tomar jeito e tentar ser um bom menino, como Sueli esperava que ele fosse.

Entrou no chuveiro.

Do outro lado do Hotel André estava sentado em um quiosque de jogos, onde no centro havia uma mesa de pembolim. Joyce estava sentada no parapeito do quiosque. Estava anoitecendo e a temperatura estava baixando rapidamente. Ela usava calça jeans e um moletom cor-de-rosa de frio.

- Estou com frio. - ela falou para André, esperando que ele largasse o brinquedo que ficava brincando sozinho como um idiota.

- Vai por uma blusa.

- Já coloquei e continuo com frio. - o imbecil nem tinha reparado em sua roupa.

- Então sei lá, pega um cobertor no quarto, não ta vendo que eu to jogando? - André impacientou-se. - Quer jogar um pouco? Vai te esquentar, certeza.

- Não quero jogar, queria que você sentasse aqui comigo e me esquentasse! Podíamos ver o por do sol juntos.

- Agora não Joyce.

- Certo, então eu vou pegar um cobertor mesmo. - Joyce desceu do parapeito do quiosque. Esperou que André largasse o brinquedo e como um príncipe, impedisse-a de ir, tomando-as em seus braços e beijando-lhe. Mas André continuou lá, brincando sozinho em um brinquedo que era de dupla! Que sapo!!

À Joyce não sobrou nada, saiu do quiosque e foi na direção dos corredores dos quartos, atrás de um cobertor. No meio do corredor, estava chorando, com a boca cerrada procurando segurar o choro todo. Que mico, chorar assim no meio do hotel com todo mundo passando por ela! Pior ainda era pensar que André não era homem suficiente para falar o que estava acontecendo! Ela estava frustrada, tentando arrancar um pouco de carinho de uma múmia fedorenta!! André só podia ser uma múmia morta, porque não reagia a nada! Se dependesse dele, morreria de frio! Maldito... podia ser um pouco mais atencioso, como Erick o fora no carro, emprestando o casaco. Maldito André, que não era nem metade do namorado que ela gostaria que ele fosse... e justo agora, que ela estava pronta, droga! Ela estava pronta!!

Parou de andar sentindo-se fraca e sem rumo. Cobriu a face com as duas mãos. Maldito André...!

- Ei, Joyce? Tudo bem? - a garota afastou as mãos do rosto, para encarar Erick que cruzara com ela no corredor. Estava com os cabelos molhados, de calça jeans e camiseta de uma banda, de mangas compridas. - O que foi?

Joyce o abraçou.
- Não agüento mais...! - e soluçou em prantos, afundando a cabeça no ombro de Erick.

- Eu sei exatamente como você se sente. - E sabia mesmo. Havia dito as mesmas coisas que ela horas antes para Márcio. - Vamos, não fica chorando aqui no meio do corredor, vai...

Joyce deixou-se ser guiada pelo amigo. Erick só parou de andar quando voltou para seu quarto, abriu a porta com a chave de número 533. Acendeu uma das luzes e entrou com Joyce, fechando a porta em seguida. Estendeu para ela uma toalha:

- Vai lavar o rosto.

- Tá... - Joyce pegou a toalha branca e fofinha do hotel, adentrando o banheiro. Fechou a porta. Encarou-se no espelho com a cara vermelha e os olhos inchados. - Sou uma imbecil. - falou pra si mesma, depois, abriu a torneira gelada e lavou-se.

Secou o rosto com cuidado, largando a toalha por cima da pia de mármore. Olhou-se de novo no espelho sentindo-se um pouco melhor, mas envergonhada por ser tão fraca e chorona. Depois, saiu do banheiro.

Erick estava na varanda do hotel, esperando por ela. Joyce andou até ele. Dali do andar em que estavam a vista dava para as montanhas onde o sol já se escondia no entardecer.

- Que vista linda. - comentou, entrando na varanda.

- É. - respondeu, virando-se para ela. - Tá melhor?

- Sim, desculpe pela cena.

- Tamos empatados eu acho. - referia-se à cena que fizera pela tarde, quando chegaram.

- Acho que sim. - riu. - Não sabia que estava tão ruim assim pra você.

- Nem pra você...

- Eu também não sabia... - Joyce confessou, sentindo as lágrimas voltarem.

- É, eu também.

As palavras sempre sinceras de Erick surtiram um efeito de conforto em Joyce.

- Erick... você me acha bonita?

- Quem não acha, Joyce?

- Eu digo bonita de verdade... gostosa e tudo mais.

- A resposta é a mesma.

- Eu acho que o André não acha...

- Isso porque ele é um otário. - Erick riu, virou-se para ela. - Largue de besteira. Não é porque ele é um otário com você que você precisa ficar desse jeito, ele nem merece tudo isso.

- Não fala assim, Erick. O André é meu namorado, eu gosto dele, quero que ele goste de mim.

- Tudo bem, desculpe, estava tentando te animar. Só falei o que eu acho.

- Por que você não gosta do André?

- Não é isso... só não gosto das atitudes dele. Além do quê, se vamos ser irmãos, alguém tem que ser o irmão pentelho.

- É, você é bem pentelho.

- Eu tava falando dele!

- Ah! - Joyce riu. Depois ficou um minuto de silêncio, hesitando. Tomou coragem. - O André não gosta de mim, não é?

- Isso é complicado.

- O que você acha?

- Quer com sinceridade? - Erick suspirou.

- Quero. - mas depois pensou bem. - Não... quer dizer, não sei.

- Se você quer com sinceridade, tem que estar preparada pra qualquer resposta, Joyce.

- Estou me enganando, não é?

Erick sorriu para ela.

- Certo, deixa esse papo pra lá. Tá com fome? - e foi entrando no quarto de novo.

Joyce o segurou.

- Erick, responde com sinceridade. O André não gosta de mim, não é?

- Não sou eu quem tem que te responder isso, Joyce. É o André.

- Certo. - Joyce o soltou. - Não estou com fome.

- Nem eu, o que é bom, não precisamos ir até o restaurante. Assim você não precisa olhar pra cara de otário do André e nem eu.

- Do André e do Tio Márcio.

- Exatamente. - Erick abaixou-se em frente ao Frigobar e abriu a porta. Havia latinhas de refrigerante, de cerveja e duas garrafas de vinho, no meio das outras de água. - Quer arriscar e tomar um vinho?

- Arriscar?

- É porque amanhã no check-out vai aparecer na fatura e eu estarei encrencado.

- E você se encrencaria por mim?

- Hoje sim. - riu e tirou a garrafa do frigobar.

- Soa até romântico.

- Com direito a amendoim. - e pegou um pacotinho de amendoim que tinha em cima do frigobar em uma cesta, jogando-o para Joyce, que o pegou. Abriu o vinho e foi sentar-se com ela na varanda. - E por do sol.

- Perfeito. - Joyce sentou-se ao lado dele, que estendeu a garrafa para ela. Joyce deu o primeiro gole. - A ultima vez que eu bebi, não deu muito certo. Passei mal.

- Eu também.

- Ah é. Onde é que o senhor estava ontem?! Deu tudo certo com a Sofia?

- É, mais ou menos. Acho que tivemos nossa primeira briga ou algo do tipo.

- Como assim, Erick? - Joyce assustou-se. - Vocês tão namorando?

- Ah, tamos ai, meio que namorando. Sei lá agora. Nunca fui bom dessas coisas.

- Você leva mais foras ou dá mais foras?

- Acho que levo mais. Você definitivamente não leva.

- Do André eu bem que levo... - Joyce riu, tomando mais vinho. - Sabe que para começarmos a namorar eu tive que praticamente me atirar em cima dele?

- Que mau negócio que você fez. Antes tivesse se jogado em cima do Renato!

- O Renato pode ter toda garota que quiser.

- Exceto você.

- Não é bem assim... e você está fugindo do tema principal da conversa, que é : onde é que o senhor estava ontem a noite? Tava numa ressaca impossível hoje cedo.

- É... não fui pra lugar nenhum. Quer dizer, depois que fomos à lanchonete com a Sofia e os amigos esquisitos dela, motivo pelo qual até brigamos, deixei a Guta em casa e parei na padaria da esquina mesmo.

- Ficou bebendo sozinho no meio fio?
- É.

- Que deprimente...

Erick deu de ombros.

- Deprimente é a gente aqui, falando dessas coisas chatas.

Joyce riu. Era um comentário pertinente.

- Então você a Sofia tão sérios?

- O que é "estar sério"?

- Se gostando, compromissados, a fim de irem adiante.

- Eu tenho dezesseis anos, o único adiante que conheço é namoro.

- Suficiente, se houver fidelidade e você não sair por aí zoando com outras meninas e nem ela...

- Certo. - Erick não quis responder. O que ia dizer? André não estava sério com Joyce, mas fazia toda pinta de que estava. Isso era mais uma etiqueta de zona de conforto, nada mais.

- Está ou não está?

- Sei lá, Joyce... acho que sim, talvez. Semana passada a Sofia veio com um lance todo de "temos que ser sinceros um com o outro" e tudo mais. Ou foi semana retrasada? Nem lembro.

- E você foi sincero?

- Além do que devia ser. Mas ela não.

- Como você sabe que ela não foi sincera com você, Erick? Que coisa feia, acusar uma pessoa assim.

- Ah, é algo que eu sinto.

- Mas você gosta dela.

- Gosto.

- Então se ela gosta de você está tudo bem, né!

- Acho que sim. Mas agora que você já sabe onde eu estava ontem, vamos continuar falando do Renato.

- Por que você quer falar do Renato?

- Que isso, Joyce, tá na cara que ele gosta de você.

- Certo, e meu nome é Joana!

- Ok, Joana.

Ficaram em silêncio um momento, Erick bebeu mais vinho porque não sabia mais o que falar.

- Você acha? - Joyce indagou perplexa. A noite já caía.

- Acho. Sabe como é, todo mundo tem segredos.

- É acho que sim!

- E o seu segredo, qual é?

- Eu sou virgem. - Joyce falou.

- Ah, tá brincando... só tem virgem nesse mundo. - Erick lembrou-se que quando Guta e André disseram que tinham um segredo, o segredo foi o mesmo.

- E o seu, qual é?

- Não é ser virgem. - debochou. - Eu bebo bastante, mas isso logo passa a não ser segredo pra ninguém.

- Certo, um alcoólatra e uma virgem sem graça.

- Você pode resolver o seu segredo.

- Você também.

- Eu nem quero.

- Eu quero. - Joyce confessou. Isso lembrou que André não a queria. - Mas o André não quer.

- Que otário...

- Eu não me sinto bonita. Na maioria das vezes acho que sou desajeitada, sou magrela e minhas pernas são compridas demais. Minha boca é muito grande, meu cabelo tá sempre estático demais...

- Ah, não, pára, Joyce... você é linda. Sem dúvida é a menina mais linda que eu já vi.

- De que adianta? O André não acha nada disso.

- Ele é cego, ou então claros problemas de interpretação cerebral. - Erick ficou de pé e entrou no quarto procurando sua mochila.

- Muito gentil da sua parte os elogios, mas não precisa ofender o André.

- Tudo bem, a partir de agora ofenderei você, por ser burra e sonsa. - voltou para a varanda com a máquina fotográfica nas mãos. Bateu uma foto de Joyce, na surpresa e sentou-se do lado dela, virando o visor. - Você é linda, não tem nem o que dizer.

Joyce encarou o visor e viu uma garota de pele branca e cabelos escuros e lisos, emburrada. Tudo o que viu, foi que de perfil seu nariz era maior do que parecia.

- Eu sou nariguda.

- Pára com isso Joyce, que crise boba... quer uma prova que você é bonita?

- Ah e você pode provar?

- Claro! Quer? - ele desafiou.

- Ok, quero.

- Tá bem, eu vou tirar dez fotos. Se em uma você ficar feia, ou estranha... eu deixo você se achar feia. Mas nada de falsa modéstia, combinado?

- Combinado!

- Então fique de pé! - e dito isso, ele ficou em pé primeiro.

Joyce o seguiu, ficando em pé também.

- O que eu tenho que fazer?

- Só olha pra lá pro horizonte e dá um gole de vinho, o maior gole que você acha que consegue.

- O maior?

Sem entender, Joyce se posicionou. E assim o fez: levou a garrafa esverdeada na boca e deu o maior gole que achou que conseguiria dar na garrafa e é claro que não conseguiu, derrubou vinho pelos cantos da boca e secou com as costas da mão, enquanto dava uma risada sonsa e sem graça para Erick.

- Oops, foi mal.

- Foi nada, ficou ótimo. - ele estendeu a máquina para ela, trocando pelo vinho.

Joyce passou as fotos no visor, era uma seqüência de fotos da sua babada fenomenal. Deu risada, porque ficou engraçado.

- Não, você ta vendo errado! - Erick se intrometeu soltou a garrafa no chão, aproximando-se para ensiná-la a ver as fotos. - Primeiro que você não pode passar a seqüência, porque cada foto é uma foto e tem sua beleza em particular.

- Certo.

- Tipo essa. - era uma foto de Joyce segurando a garrafa na boca e fazendo bico, para beber. - Se você achava sua boca horrível, pare agora, você é sensual, Joyce. Se eu mostrar essa foto por aí, vai ter fulano imaginando coisas mais picantes do que uma garrafa.

Joyce encarou aquela foto por um tempo. A foto estava escura e a sombra torneava seu rosto, desenhando-o. Os cabelos jogados para trás davam um ar despojado, e realmente dava vontade de morder aquela garrafa.

- Você é um desses fulanos?

- Com uma foto dessas? Certamente! - e deu uma piscadela, com um sorriso.

- Você é um bom fotógrafo, Erick. Obrigada.

- A câmera é boa. - debochou.

- Tem mais vinho? - Joyce quis saber.

- Aquela já acabou. - Erick riu, e entrou no quarto guardando a câmera na mochila. Andou até o frigobar novamente e retirou a segunda garrafa de lá. Quando foi abri-la, porém, Joyce segurou as suas mãos, abraçando-o por trás.

Erick largou a garrafa em cima do frigobar, perto da cesta de salgadinhos, e virou-se para Joyce, que ergueu o queixo. E depois, eles se beijaram. Joyce o abraçou com mais força, com as duas mãos em suas costas e Erick a segurou no rosto.

Foi um beijo forte, de respiração acelerada, com piercings e dentes... e ao mesmo tempo, foi um beijo doce e leve. Não demorou muito, foi rápido, porque logo que perceberam onde estavam, afastaram-se.

Joyce o encarou com os olhos escuros e arregalados. Cobriu a boca com as duas mãos, perplexa. Erick desviou o olhar, coçou a cabeça.

- Desculpe.

- Não, eu que peço desculpas... - mas depois, Erick a encarou novamente.

Joyce se sentiu estranha. Seu coração parecia descompassado de susto e os lábios vermelhos de Erick a hipnotizaram. Droga, ela queria de novo. Erick sentiu a mesma coisa e como se um pudesse ler a mente do outro, nada mais foi dito. Beijaram-se de novo. Um beijo longo, demorado, carinhoso.


Publicado em : Livros, Romance
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