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| ESA #20 - Conversa de quase-irmãos |
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A porta estava aberta, chocara-se com força contra a parede do quarto.
Tudo o que Joyce conseguiu fazer foi sair correndo na velocidade da luz. Ao menos foi assim que pareceu, praticamente agira como uma formiga atômica, voando o mais rápido possível para longe daquilo. Não que aquilo fosse necessariamente ruim... mas era errado! E Joyce tentava não ser errada. Parou apenas quando entrou em seu quarto, trancando a porta. Escorregou para o chão. Abraçou suas pernas e enterrando a cabeça em seus joelhos, chorou. Droga. Estava toda errada! Toda errada! Sua mente girava com milhares de pensamentos desconexos. Por um lado, queria ter ficado no quiosque, abraçada com André, vendo o pôr-do-sol. Outro lado achava-se otária, visto que André tinha mais interesse em um mosquito do que nela! Já outro lado, adorava a idéia de beijar Erick... e por fim, um último lado que dizia que isso era errado! Era errado e ponto final. Joyce sentiu seu estômago revirar, com nojo de si mesma. Sentia-se uma menina suja! Imunda. Como havia sido capaz de fazer uma coisa dessas?! Era raiva de André? Era o quê?! O pior de tudo era ter que lidar com o simples fato de que estava arrependida: no fundo ela bem sabia que queria ter ficado no quarto com Erick. Mas não ia voltar para lá. Mesmo que quisesse, não ia voltar lá! Não ia nem pensar no assunto! Erick, por sua vez, estava em pé no mesmo lugar que Joyce o deixara, encarando a porta escancarada, sem reação. Sentia seus lábios dormentes do beijo voraz que trocara com Joyce. Sentia um aperto horrível no peito que subia até a garganta, amargo. Mas que merda! Soltou o ar que prendera nos pulmões e andou até a porta para fechá-la, andando até a cama depois, deitando-se. Colocou as duas mãos na cabeça. O que tinha sido aquilo? O mais sensato a se fazer era nem pensar no assunto, porque obviamente pensar no assunto o deixaria com dor de cabeça e traria um problema do tamanho do universo! Mas como não pensar? Sua boca ainda sentia a boca de Joyce... e isso era horrível, porque ele gostava de Sofia... mas não conseguia nem pensar em Sofia direito! Tudo o que sabia, era que havia sobrado aquela sensação estranha entre os dois. Depois da lanchonete, não havia clima para se falarem. Lembrou de como ela havia ficado irritada por causa daquele tal de Ênio. Queria esquecer Sofia, Ênio e qualquer irritação... e isso só servia para piorar as coisas, porque como se já não bastasse ter brigado com Sofia por causa de Ênio, agora tinha Joyce no meio disso tudo.. e André... e Guta. Era muita confusão em muito pouco tempo! Será que não podia ficar um dia sem fazer alguma merda? Sem estragar as coisas?! Ele estragava tudo! E isso por mais que aliviasse a sensação de que havia feito algo errado, aumentava a sensação de culpa exponencialmente. Era um imbecil sem cérebro, só podia. Acabara de estragar a coisa mais importante até então: Sofia. Como iria encará-la depois de tudo isso?! E foi quando achou que as coisas não podiam piorar, que alguém bateu na porta, com toda a força que possuía, fazendo um enorme estardalhaço. Virou a cabeça e encarou o relógio digital do quarto, marcando nove horas. - O que é? - berrou, de dentro do quarto sem se mexer. Achava que devia ser Márcio, irritado porque perdera a hora do jantar. - Erick, abre aí, cara! - era André, com uma voz desesperada. - Erick! Abre aí! Erick respirou fundo, contou até cinqüenta e levantou-se para abrir a porta para André. O que era agora? Encarou o irmão postiço encolhido pelo frio, com a cara apática. Os olhos castanhos arregalados, como se tivesse visto um fantasma. - Cara, que demora! - e entrou no quarto, sem pedir licença. - Vou usar o telefone. - Certo. - Erick não poderia discordar. Fechou a porta. André andou depressa até o telefone. Tentou sem sucesso umas três vezes. Desistiu. Encarou Erick que bocejava, mas que o fitava com um olhar interrogativo, de quem não sabe o que está acontecendo. Coçou a cabeça: - A Joyce tá puta comigo! - É... acontece. - Erick tentou esconder que sabia de alguma coisa, fingiu desinteresse. Mas sentiu-se desconfortável, não queria falar de Joyce agora... queria tomar um porre e esquecer de tudo. - Tá certo que eu falei pra ela pegar um cobertor ao invés de sentar com ela... mas pô.. meninas são estranhas... ela ficou brava só porque eu não quis parar de jogar..! - André continuou falando, meio que se confessando, meio que desabafando. - Era só um jogo, cacete. Não quis dizer que não ia lá pegar um casaco pra ela, só que ela tava enchendo o saco falando besteira... queria fazer não sei o quê...! - Certo. - Erick tentou acabar rápido com a conversa, pensava em abrir o vinho que ficou em cima do frigobar. Podia convencer André a beber também e quem sabe assim ele calasse a boca. - Não sei o que eu fiz de tão errado... ela é muito estressadinha! Cheia de manha, quer tudo do jeito dela... eu não faço nada de errado... - e nesse momento, Erick sentiu seu sangue ferver com as palavras desferidas por André. - Você é idiota, ou o quê? - Como assim? - André deixou um sorriso nervoso escapar, coma braveza de Erick. - A Joyce tava chorando, seu imbecil! Chorando no meio do corredor! - Tava? Por quê?! - André se preocupou. - Porque você é um ridículo!! Não é obvio? - Eu? O que eu fiz?! - se fez de desentendido. - Transou com a Guta! - Ah, isso... - André sentou na outra cama. Deu de ombros e sua face tomou uma expressão mais chateada. Arrumou o casaco nos ombros. - Você não contou pra ela, contou? - Não. - como também não ia contar que tinha beijado Joyce. - Ah, que bom... eu andei pensando nisso, sabe? Eu gosto de verdade da Joyce. - Não parece. - Eu gosto, sim! Gosto mais que tudo na vida. - Deixa de ser piegas, André. - Falou, falou... você não sabe de nada. - A Joyce gosta de você de verdade. Mesmo você sendo esse otário! - Dá pra parar de me ofender? - Quando você deixar de fazer imbecilidades, sim! - Isso vindo de você não é nada, pelo menos eu não fico bêbado pra chamar atenção!! - André irritou-se. - Você é cara de pau, André. Você ainda tem coragem de vir aqui, pagar de a pessoa mais correta do universo depois de tudo o que fez. Ao menos seja homem e assuma seus erros, eu não fico inventando desculpas pras merdas que faço, não. - Está bem! Eu admito! Eu fiz merda, comi a Guta duas vezes... e porra, a Guta é gostosa pra caralho, aqueles peitinhos redondos, affe... você viu! - Agora a culpa é da Guta? Eu juro que não entendo essas meninas! Não sei o que elas vêem em você..! - São meus hormônios! - Ah, vai se ferrar! Qual o seu problema, André? Por acaso acha legal ficar brincando com o sentimento dos outros? - Eu não estou brincando com o sentimento de ninguém! Eu estou sofrendo também, tá?! - Tá nada! - Você não sabe! Eu estou confuso! - Dá pra ver que você tá curtindo a história. Acha legal deixar a Guta chorando por você? Acha legal fazer a mesma cagada com a Joyce? Ao menos tenha a decência de dar valor ao que elas sentem por você, seu bosta! - Como você consegue fazer isso? - O quê? - Dar lição de moral assim nos outros como se fosse o dono da razão. Quem vê pensa que você é a pessoa mais correta da face da terra! Você não se enxerga, não?! - Eu tenho meus deslizes, mas ao menos não tô enganando ninguém. - o que agora era obviamente uma mentira, visto que Erick não estava sendo tão sincero quanto parecia ser. - Eu não tô enganando a Guta. - Estou falando da Joyce! - Certo... admito, estou enganando a Joyce! Mas não posso simplesmente contar a verdade pra ela! Não vou dizer que fiquei com a Guta agora que decidi que é da Joyce que eu gosto. - Se é da Joyce que você gosta, então porque não começa a tratar ela da forma que ela merece, hein? - É, acho que você tem razão... - André ponderou. Era um conselho verdadeiro. - Valeu pelo toque. É melhor eu começar a agir diferente, antes que ela comece a beijar outro cara... - e as palavras de André foram como facas afiadas e certeiras na moral de Erick. Os dois ficaram em silêncio um tempo. Erick porque não sabia o que dizer depois do comentário e André porque estava pensativo. Pensava em muitas coisas, precisava se entender com Joyce! - Eu vou tentar falar com a Joyce. - e André ficou em pé, correndo para o telefone novamente. Tentou mais umas cinco vezes, desistindo, ao ver que Joyce não ia atender o telefone. Virou para Erick que observava tudo passivamente. - Vai, Erick, me ajuda! - Eu não! - Por que não?! - Se a Joyce não quer falar com você, o mais decente da sua parte seria esperar ela resolver que é hora de conversar. Não acha? - Por isso que você é esse perdedor de bosta, Erick. O time adversário está vencendo e você não está nem aí, deixa tudo desmoronar na sua frente. É um derrotado mesmo! - André não poupou ofensas. - E o que você pretende fazer? Passar a noite berrando na porta até a Joyce abrir? Grande luta, senhor vitorioso! - Pelo menos eu vou ter tentado! - e dito isso, André saiu do quarto. - Deixa a porta aberta pra eu voltar caso não dê em nada, ok? André abandonou Erick sozinho no quarto em meio à tempestade emocional. O toque do celular de Erick cortou o silêncio. Levantou-se da cama e pegou o aparelho que estava em cima da mesinha que continha um abajur. Olhou no visor e viu o número de Sofia. Que péssimo timing... - Oi. - atendeu, meio sem saber por onde começar. - Erick? Oi, é a Sofia. - sua voz soou amuada, meio sem jeito também. - Tudo bem? Está em casa? - Não, não estou... Acabei sendo arrastado pra um fim de mundo. - Onde você está? - Não sei. - Como assim? - a garota preocupou-se, achando que ele podia ter se perdido. - Ah, o Márcio inventou uma viagem de família. Aconteceu algo? - procurou mudar logo de assunto. - Na verdade não... - Sofia confessou sendo direta como sempre. - Estava aqui em casa meio chateada, passei o dia todo ruminando o que houve ontem... poxa, eu sinto muito. Não quis parecer grossa e nem irritada... só fiquei frustrada, queria que você e meus amigos se dessem bem... e daí teve aquilo tudo, foi tão inesperado... fiquei chateada.... era isso que eu queria te dizer. Eu gosto de você, estou com saudades... - Certo... - Erick não estava com cabeça para lidar com problemas de relacionamento agora. Não com a boca dormente por causa de Joyce, muito menos com o mau-humor por causa de André. - Posso falar com você depois? O André tá aqui do lado, tá meio chato falar agora. - mentiu. - Ah... claro. - suspirou chateada de novo. - Desculpe. - Eu te ligo amanhã quando eu voltar pra casa. - Tudo bem, sem problemas... - procurou parecer uma namorada tranqüila e sem crise. - Desculpe, não queria atrapalhar. - Sofia desligou o telefone. Estava escondida dentro da lavanderia de sua casa. Já estava de pijamas amarelo e os cabelos presos em trancinhas. Puxa vida... Erick estava mesmo esquisito depois do desastre da lanchonete. Estava especialmente triste, porque dissera palavras carinhosas e Erick agiu como se fosse uma pedra sem sentimentos feita do mais puro gelo. Isso era atípico dele. Apesar das aparências, Erick era sempre carinhoso e sincero com ela. Aquela forma seca de falar era obviamente sinal de que havia algo errado. - Sofia! - a voz de Isabella gritou na sala. - Já vai! - respondeu, ficando de pé. Saiu da lavanderia e passou pela copa, largando o telefone sem fio e branco na base, pegando a bacia de pipoca. Ensaiou um sorriso falso e entrou na sala de televisão, onde Isabella e Ênio estavam sentados no sofá, esperando-a. - Que demora, não era uma pipoca de microondas? - Ênio indagou, cismado. - Ah desculpa, me distraí! - mentiu, sentando-se ao lado de Isabella. Estavam todos de pijamas, cada um com seu cobertor. Era o que faziam todo sábado: encontravam-se para assistir um DVD de algum filme CULT que Isabella escolhia. Normalmente francês. - Achei que agora que você está namorando, ia passar todos os sábados com o tal do Erick. - Ênio cutucou. - Ele viajou. - Sofia explicou com um sorriso amarelado. - Vamos nos ver só amanhã. - Ah, tá explicado! Viu Ênio? Agora estamos em segundo plano! - Isabella provocou, cutucando Ênio com seu cotovelo, usando um babydoll cor-de-rosa com a estampa da Minnie Mouse. - Ah, não Sofia... nada a ver você namorar aquele otário cheio de pregos. Você vai terminar logo, não vai? - O pijama de Ênio era verde com listras brancas, com ar de pijama de vovô, o que o deixava com um ar engraçado e maduro. - Ai Ênio, que pergunta é essa? - Sofia não gostou da brincadeira. - E fala baixo, a Cecília tá vendo tevê no quarto, poxa vida. Isabella, para apaziguar, apertou "play" no DVD, iniciando o filme, antes que a conversa tomasse outros ares. Além do quê, ficava irritada porque Ênio parecia enciumado. Mordeu a boca por dentro, procurando segurar a vontade de berrar e todo o seu ódio!
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