| Assédio literário |
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É a encarnação da própria fênix. Plenamente renascida. Segura, impetuosa, determinada, ousada, principalmente ousada. Sua ousadia transcende a discrição. Tornou-se totalmente indiscreta.
Imbuída de pequenos sentimentos, pois "ele" subestimara sua fúria de mulher moralmente traída, estava disposta a retribuir a sensação de ser rejeitada. Não aceitava esta condição. Durante anos nas datas especiais recebera flores, mensagens e presentes de seu falecido marido, sempre acompanhados de um cartão com a seguinte dedicatória: "para minha eterna namorada". Portanto, não estava acostumada a ser preterida. Sem o menor constrangimento entrou num site de relacionamento entre amigos e invadiu o perfil da namorada daquele que recentemente tivera um tumultuado namoro virtual, namorado este que seria o principal responsável por sua mudança de comportamento. Analisou as fotos que ali se encontravam e dentre elas escolheu aquele que o sorriso franco traduz uma natureza feliz. Definitivamente transformara-se numa nova mulher. Impetuosamente vasculhou a intimidade virtual da possível vítima. O site é público, pensava sem nenhum pudor. E a busca continuava de forma desenfreada com a sofreguidão de um esfomeado que devora com voracidade o alimento conquistado. Porém, tal foi sua surpresa, quando constatou que se tratava de um escritor em busca de leitores, nada mais. Audaciosamente ofereceu-se para fazer parte do seu círculo de amigos. Tímido e sem o entendimento de onde partira esta nova amiga, ele aceitou. Começaria aí o assédio literário. Com o intuito de fazer-se notada, colocou fotos no site, enviou recados intrigantes, citou autores conhecidos, escreveu frases poéticas e fez depoimentos elogiosos. Mudava regularmente seu perfil. Percebeu que através dele poderia manter um diálogo literário. Era a chance que teria de ingressar no mundo da literatura. Iria usá-lo, literalmente, ou melhor, literariamente. Contudo, para o escritor, ela representava apenas mais uma leitora. Mas, insistentemente continuava a assediá-lo. Para tanto, empenhou-se em chamar sua atenção. Apoderou-se de sua literatura e esmerou-se em comentar suas obras literárias. Identificou-se com o poema onde foi retratada a vida simples do interior. Absorveu sua sensibilidade e tornou-se cúmplice na sua angústia diante das injustiças sociais. Desvendou sua alma, compartilhou de sua melancolia e compadeceu-se de seus conflitos existenciais. Embebeu-se de sua cultura e inquietou-se ao perceber que ele sofre por aqueles que não são compreendidos nos seus devaneios. Sugou seu saber, plagiou suas palavras e admirou seu eterno querer. Sorveu de sua generosidade e insinuou-se literariamente provocando elogios aos seus parcos escritos. No entanto, o escritor assoberbado de trabalho, educadamente respondia as suas mensagens. Roubava-lhe o tempo. Todavia, o que aprendiz de escritora, quis na verdade foi roubar-lhe o coração.
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