| ENTERRANDO ANTONIO |
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Então me sentei na poltrona, cruzei as pernas, acendi um cigarro e assim permaneci. Aos poucos aquela sensação de medo foi me abandonando à solidão.
Meus pais dormiam em seus quartos, haviam desistido de me esperar. Inanimados, os livros estavam na estante. Estavam mortos, e eu, disposto a deixá-los assim. Olhei para o relógio pendurado na parede da sala e vi que passavam das três. Procurei pelo cinzeiro, na mesinha ao lado, mas só encontrei papéis de balas. Eu precisava fugir de novo. Esta era a certeza que eu tinha olhando para o ambiente da sala, que, mais do que nunca me sufocava. Permanecer ali, esperando que os raios de sol despertassem um novo dia era como ser enterrado vivo. Fugir, fugir à realidade. Abandonar-me à solidão. A minha rota de fuga, era o meu inconsciente. Neste, eu encontrava proteção e deixava o meu corpo às circunstâncias daquela vida abominável. Agora eu precisava de algo muito forte que me conduzisse à solidão. Nada mais fazia efeito. E eu precisava atravessar a ponte. A angústia começava pelos pés, alcançava o estômago, atingia o peito e, num instante, tragava-me a cabeça como onda gigantesca. E isto se repetia, quase me convencendo de que eu era um náufrago em mar agitado. Por um momento, lembrei-me de quando era criança. A rua pela qual vim correndo há pouco, acreditando fugir do medo, do tormento que me sufoca - aquela rua - fora um dia o meu Jardim do Éden. Eu deveria ter morrido aos treze anos. Deus não teria remorso. E a vida, não teria se me tornado uma decepção. Da poltrona, vi, num relance, um aspecto da rua. Vozes e passos na calçada, diante de minha casa. Tive medo. Por que me perseguem? Quis compreender o que diziam. Os passos de repente cessaram. Esperei que apertassem a campainha, mas não o fizeram. E as vozes continuaram incompreensíveis, e agora, cada vez mais distantes. O cigarro já havia se tornado uma bituca em minha boca sem que eu o houvesse tragado uma única vez. Cinzas caíam sobre o tapete e sobre a minha calça sem me causar incômodo. Quis levantar-me para apanhar um copo d'água, na cozinha, mas não tive forças para fazê-lo. De repente, o silêncio daquela noite acalmava o meu espírito. "Leve-me consigo silêncio. E quando bem longe, abandone-me à solidão". Fechei os olhos e quis acreditar que não tinha pais, irmãos, amigos, escola, família, clube, igreja, eu não tinha nada. Nada. Apenas revolta. E o desejo de me entregar à solidão. Mas queria fazê-lo em espírito. Abandonar este corpo, atravessar a ponte, fazer a viagem definitiva, sem volta. Naqueles últimos meses, pude perceber, eu tentara lograr êxito, mas de maneira equivocada. Ficar sentado horas naquela maldita poltrona de veludo azul, esperando que um longo período de inatividade pudesse atrofiar os meus músculos, causando-me letargia, a grande porta que me levaria ao desejado destino, porque as substâncias químicas, todas elas, que experimentei, e as bebidas que entorpeciam os meus neurônios, tornando-me ridículo diante do espelho e das pessoas, eram como as marés, levavam-me para dentro do mar, e cuspiam-me para fora, quando se enjoavam da minha carne fresca e do meu espírito rebelde e podre. De modo eu experimentar sempre a mesma angustiante sensação do eterno retorno. Retorno ao mundo e a uma vida que, de fato, não era a minha. Tinha seis anos, quando, num final de tarde, na fazenda de um amigo de meu pai vi uma gaivota voando desgarrada do bando. E me perguntei por que seres humanos que podem tudo não podem voar. Espíritos podem voar - certa vez, disse-me um índio que vendia ervas e cantava músicas de sua tribo na praça central da cidade onde eu morava. E desde então, busquei encontrar o meu espírito para que o sonho de minha vida - voar - pudesse se tornar realidade. Mas então vi pessoas chorando de dor, durante a noite, num hospital. E me perguntei onde estariam os seus espíritos para que pudessem voar, abandonando a dor que sentiam àqueles corpos decrépitos. Crescendo, percebi que era preciso fugir deste mundo para que pudesse encontrar o meu espírito, e finalmente voar. Aprendi mais na rápida conversa que tive com aquele índio e observando aquela gaivota do que aprendi com minha família e nas escolas que freqüentei. Ambas recusavam à idéia de que o espírito pode voar. A primeira tentara me ensinar a vencer como homem. A segunda me mostrara, com indiferença, que apenas como homem, eu jamais poderia vencer. Portanto, eu tinha que buscar o meu espírito, para que pudesse voar. E se você voar? - um dia, alguém me perguntou. E eu respondi: Continuarei voando. Cada vez mais alto e mais longe. Até encontrar a solidão. Hoje enterramos Antonio. Logo a chuva começou a cair. Compreendi que, naquele momento, Antonio encontrava o seu espírito. Quando nascemos, perdemos nosso espírito. Quando morremos, nós o encontramos. Eu ainda sonharia com aquele índio. Ele viera para me dizer que voava. E lhe respondi consternado que ainda estava preso à minha realidade. Eu não podia bater asas. Pelo menos, por enquanto.
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