Há um silêncio perturbador que me envolve completamente. Como se o mundo desmoronasse ao meu redor. Como se faltasse chão sob os meus pés. Como se faltasse oxigênio. Como se faltasse vida. Dentro de mim e por toda parte. O eterno vazio me consome como se fosse um buraco negro. Não encontro respostas na filosofia nem consolo nas religiões. A vida não me oferece rumo. Eu sempre escrevi para mim. Há momentos em que sou Werther. Mas quase sempre sou apenas Quasimodo. Rei Lear eu jamais serei. Um pedaço de pano atirado num canto eu sou. Vai acabar pra todo mundo. Esta certeza me conforta. A morte iguala a todos. Que venha, pois. Que venha logo. E que me deixe em paz. Traga-me a certeza de que realmente a vida não é só isso o que meus olhos cansados podem ver. Isso que machuca o meu coração, afronta o meu orgulho e faz pouco caso do meu egoísmo. Eu deveria agora estar revisando aquele texto. Mas já estou farto dele. Já brigamos por demais, durante dias, meses, anos, feitos cão e gato. E antes que ele me destrua, eu o farei a ele. Eu o destruirei. Com todo o ódio que sempre desejei, mas que jamais tive por mim e por as pessoas. Todas elas. Mas afinal por que existem? Não as convidei para participarem de minha vida. Talvez eu deixe a barba crescer. Talvez eu alimente o gato. E esqueça do passarinho na gaiola. E mesmo que tudo isso aconteça, a maldita folha ainda estará em branco presa à máquina de escrever. As palavras destroem. Elas enganam, manipulam... Mentem. O que somos afinal? Tapetes pisoteados? Canos entupidos de merda? O que somos? Pontes levadiças por onde passam, sem pedir licença, a demência e a vontade de muitos? Somos deuses? Podemos tudo? Nós, que inventamos mentiras e estórias com palavras. Nós que concebemos os sonhos. Porque a vida, talvez, não poderíamos. Porque esta muitas vezes nos falta dentro de nós. Como agora falta dentro de mim. E sinceramente não sei porque estou dizendo isso pra que um bando de idiotas me ouça e me dê razão. Tolos. Boçais. Vivam suas vidinhas miseráveis e sejam felizes. Deitem-se satisfeitos no berço esplendido da eterna mediocridade. Caminhem para Deus. Creiam no amanhã. Rezem a cartilha dos dominadores. Vou me atirar dessa ponte. Indo ao encontro do infinito. Braços abertos diante do sol, sugado pelo vento, envolvido pela noite. Vale de sombras. Frio. Solidão. Vultos passando. Vozes ao longe. Vozes. Ouço vozes...
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