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Lágrimas de Prata - África Livre - parte dois Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Brunno, em 31-07-2008 18:07
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N. do A.: desculpem, sei que está enorme... me empolguei

Em Janeiro de quarenta e três o SAS, parte da Easy e mais uma esquadra de aviões norte-americanos, franceses e ingleses, chegou às cercanias da cidade de Trípoli, na Líbia. O local contava com pouco mais de cento e trinta mil habitantes que naquele momento ou estavam mortos ou escondidos em suas casas tentando sobreviver ou eram alemães nazistas armados até os dentes.
Gascoin tinha um curativo sobre o olho esquerdo. O olho estava bom, apesar da dor e de um princípio de infecção que não lhe acometeria se estivesse em terras inglesas, os soldados sabiam as propriedades anti-sépticas do musgo esfagno, abundante em todo norte da Europa. Os pontos haviam sido dados com linha de seda grossa, o que sem dúvida deixaria uma cicatriz enorme, mas que diabos, ele não tinha porque se preocupar mesmo.

Enquanto as negociações e tentativas de armistício eram feitas entre gabinetes norte-americanos, europeus e asiáticos, a guerra continuava em boa parte do globo.
__Quando entramos? - perguntou Bony, um dos tenentes do SAS, que agora sem seu "alemão", Weiss, tinha de ser mais cuidadoso.

Os homens estavam deitados de bruços enfileirados e sobre uma colina no flanco leste da cidade. Londres havia enviado uma ordem via rádio de que era muito importante que os homens tomassem a cidade, e se possível com baixo nível de destruição de prédios, a antiga prefeitura, hoje feita sede do assentamento alemão, guardava documentos importantes que derrubariam alguns poderosos, do modo mais simples.
O SAS tinha um homem para isso. Os americanos haviam dito que iriam iniciar um bombardeio indiscriminado em pouco mais de quatro horas, era apenas o tempo necessário para que os aviões estivessem abastecidos e saíssem de Gibraltar.

Ao ouvir isso Marrik de Bruce pensou alguns impropérios que julgou desnecessário dizer, mas tinha razão. Era sempre assim com os americanos, centenas de balas para matar um alvo imóvel e amedrontado, como se uma única bala bem disparada não fizesse o mesmo efeito.

O coronel de Norfolk chamou seus homens a um comando de braço. Os treze homens restantes do Serviço Aéreo Especial fizeram um círculo em torno de seu comandante. O homem pediu que estivessem prontos, mas que não fossem a vanguarda dos canhões. Deixaria que os americanos bombardeassem tudo e depois entraria calmamente, o importante era uma ação perigosa, mas indispensável.

__ Desta vez faremos o contrário, homens. Vamos agir na retirada. Por enquanto nenhum de vocês vai fazer nada. Ficaremos aqui aguardando a chegava da esquadra americana, mas há uma coisa que precisa ser feita.

Os homens estavam sentados sobre seus capacetes, alguns comendo os restos da ração, todos fumando e lutando contra as moscas. Ouviam atentamente, mas não concordavam com aquilo de deixar os ianques paspalhos derrubarem centenas de alvos civis que não tinham nada de beligerante.
__É por isso que ficaremos quase todos aqui, por enquanto. - quase todos, disse o comandante - Gascoin, como está o olho?

__Bem, senhor. - tirou as ataduras e não estava tão bem assim, mas tinha de servir - além do que é o esquerdo e atiro com o outro.

__Tenente Gascoin, vou mandá-lo para dentro da jaula dos leões, e espero realmente que você sobreviva. O que acontece é que ordens recentes vindas de Londres, isto incluso o seu General De Gaulle, querem saber quem está fornecendo material militar aos italianos fascistas. Ao que parece a indústria de aço do Dulce não esteve tão bem nos últimos anos para estarem tão abastados de armas e blindados.

__Indústria de aço? Que eu tenho a ver com isso, senhor?

__Ouça, homem. Londres que saber quem está fornecendo aço aos italianos, e se for quem estão pensando, têm como negociar uma estratégia para fechar mais o cerco aos alemães. Soube que nossos submarinos anões estão se encaminhando para a Noruega e têm couraçados alemães na mira.

__Como vou chegar a esses registros senhor?

__Isso eu não sei. Sei somente que temos uma descrição da planta da cidade começando pelo flanco leste, por isso estamos aqui. Só tem um problema: os americanos vão destruir essa cidade em quatro horas, tem de conseguir isso antes...

__Ou morrer tentando, coronel! - disse com firmeza, preparando-se para sair.

__Esta não é uma opção, tenente Gascoin. Se estiver acuado corra o máximo que puder, mas não esqueça: "quem ousa, vence".

Prestando continência, ele repetiu o lema do SAS e saiu em direção a um conjunto de ruas que parecia o limite da cidade com o deserto.

Gascoin sabia que tinha de cobrir alguns quarteirões para chegar ao antigo prédio ao lado da prefeitura de Trípoli. Era onde funcionavam os arquivos de uma parte da DAK, a divisão norte - africana da campanha nazista. Hitler havia enviado dezenas de documentos sobre aliados e inimigos para aquele local porque simplesmente confiava que jamais perderia aquela posição.

A queda da resistência marroquina havia posto mais homens nas ruas e isso dificultava a locomoção de Gascoin. Sabia que tinha de andar seis quarteirões em meio aos escombros da cidade e chegar até um entroncamento de vias, onde tomaria o caminho da direita para chegar à praça e, do outro lado, erguia-se o edifício da antiga prefeitura e a biblioteca ao lado, local escolhido pelo fuhrer pra guardar os poucos documentos que tinha.

Parecia obvio que deslocar-se pela rua não seria nada fácil, então Gascoin tratou de subir no telhado de uma casa em ruínas, depois passou para outro telhado e assim até chegar ao entroncamento, abaixo dele viu várias viaturas de patrulha nazista que não o teriam deixado de notar se estivesse no chão.

De onde estava tinha uma visão privilegiada do prédio algumas centenas de metros a sua frente. O problema era que o caminho estava guardado por panzers, os pequenos carros de combate armados com uma metralhadora em cima.

Havia seis soldados no local. Gascoin estava encocorado como uma gárgula sobre um dos telhados e via os homens conversarem distraidamente. Passar por eles pelos telhados seria impossível já que o vão da rua era grande demais, então tinha de separá-los sem causar alarde.

"Se Weiss estivesse aqui..." pediria que espalhasse uma mensagem no rádio tirando a patrulha do local, mas o homem fora enterrado em Casablanca. Deixou sua posição e voltou alguns metros pelo telhado em que estava e por ali caminhava tranquilamente.

No início daquela rua havia um carro parcialmente destruído que poderia ajudar. O soldado francês pegou um pano vermelho que achou nos escombros de uma casa, na conzinha achou algo que pelo cheiro era vinho branco dos piores e retornou ao telhado.

Teria de ser rápido, mas podia dar certo.

Ateou fogo ao pano enrolado na garrafa de vinho e atirou dentro do carro velho. O fogo começou lentamente e logo que a fumaça subiu os soldados alemães foram conferir.

Imediatamente sob o nariz de Gascoin um deles gritou alguma coisa.

__Brennen sind unsere Flagge!

Com isso mais homens saíram do local deixando dois de guarda. Dera certo. Eles pensaram que o pano vermelho, restos de um vestido, na verdade, fosse uma bandeira nazista sendo queimada em protesto. Se alguma patrulha visse aquilo e nenhum soldado alemão estivesse tentando salvar a bandeira, o fuhrer seria avisado e o soldado executado.

Dois ficaram, ele tinha de ser rápido principalmente na descida. Por isso pedira todo seu equipamento para o coronel De Bruce. Recuou alguns passos sobre o telhado do prédio de seis andares, respirou fundo, e esticou suas cordas de tensão.

O SAS era um grupamento de pára-quedistas. Ele correu e simplesmente saltou. O velame inflou porque fora solto da bolsa antes do salto e a Webley silenciada fez o resto. Gascoin não era Grills, mas atirava bem, quatro tiros, dois homens mortos.

Puxou ambas as cordas fazendo o full stool e assim que tocou o chão virou-se e puxou o velame para baixo embrulhando tudo rapidamente. Enfiou o pára-quedas sob o panzer ocre todo perfurado e enferrujado, arrastou um dos corpos para dentro de um café abandonado e vestiu-se como alemão com as roupas do mais alto.

A estratégia do aeroporto tinha dado certo, valia à pena tentar novamente. Ele ajeitou o boné em frente ao rosto e avançou pela rua. O prédio da biblioteca era do outro lado e havia gente fardada entrando e saindo o tempo todo. A maioria entrava no prédio da prefeitura, ao lado.
Tinha conseguido uma divisa de sargento com o uniforme do alemão abatido, os demais iriam notar logo, então tinha de ser ainda mais rápido. O sol das onze horas da manhã dizia que tinha pouco mais de duas horas para sair dali antes que o inferno se abatesse em forma de bombas americanas.

Gascoin empertigou-se a maneira alemã e pôs-se a caminhar em direção ao prédio, se alguém falasse qualquer coisa com ele estaria morto em segundos. Passou pela porta e chegou a um salão amplo onde havia em cada lado, um guichê com soldados mulheres falando com outras pessoas, transeuntes diversos, quase todos fardados e distraídos com qualquer coisa.

Dois lances de escadarias de mármore branco nasciam no solo e subiam em arco para o segundo andar, uma passagem por entre a escada dava acesso ao que parecia ser banheiros e uma sala pequena. O que ele procurava devia estar em uma sala em maior.

Subiu as escadas sem ser incomodado e chegou a um conjunto de prateleiras enormes divididas de uma forma que ele não entendeu. Havia mesas para leitura e uma porção de soldados consultava livros e mapas ao mesmo tempo em que sobre ume mesa grande, falava pelo rádio com alguém do lado de fora.

Caminhou para sua esquerda e ficou dois minutos olhando a entrada, nada dos soldados da rua, deviam estar procurando o assassino de seus amigos antes de dar um alerta e receber uma punição. Caminhou mais um pouco e viu uma placa que por sorte podia ser compreendida.

Dépôt, ou depósito de documentos em francês, é escrito Depot em alemão. Assim que entrou divisou a sala como tendo cinco por quatro metros, um arquivo de gavetas de aço a sua esquerda recostado à parede e mais um na parede lateral, uma estante com pastas de cor amarelada atrás, duas mesas com homens trabalhando a maquina de escrever, soldados conversando, uma janela grande e havia fios elétricos sobre a porta, era um alarme.
Ele pôs-se a olhar os exemplares das gavetas dando as costas aos homens das mesas e aos soldados, ao lado da porta havia um suporte para chapéus e uma cadeira de ferro com encosto recurvado. Um dos homens cessou o que fazia e olhou o sargento alemão tentando ler o que diziam as pastas. O homem deixou o cigarro sobre o cinzeiro e perguntou...

__Diese Forderung, sergeant? - perguntou um dos homens na mesa, soldado como os demais.

Gascoin manteve-se de costas, mas isso chamou atenção dos demais. Ele tirou o quepe e virou lentamente. A cicatriz no rosto chocou os homens que pararam de falar imediatamente. Gascoin aproximou-se do homem da mesa e disse, com gestos que havia sido ferido e não podia falar. Apontou a garganta e depois foi até um pequeno quadro na parede que continha um mapa.

Bateu o dedo sobre a Itália e apontou os arquivos. O soldado arquivista levantou-se prestativo e abriu uma das gavetas tirando uma série de pastas todas com a etiqueta "Italien" e deu ao sargento. Henri notou que duas pastas, de capas vermelhas, foram deixadas dentro da gaveta, provavelmente porque era necessária uma patente maior para ter acesso a elas.
Rapidamente sentou-se na mesa do homem e passou a olhar o que continham as pastas. Mantinha os olhos discretamente no relógio da parede enquanto os soldados continuavam seu trabalho sem incomodar o sargento. Tinha uma hora e meia para sair dali antes da chuva de chumbo.
Um dos soldados pegou o documento que aguardava ser datilografado e deixou a sala, eram três alemães agora. Ele tinha de saber o que continham as outras duas pastas e chamou dois dos homens. Apontou para as que ficaram dentro da gaveta e recebeu uma negativa como resposta.

Desenhou rapidamente a patente de capitão num papel e apontou para dois dos homens com veemência para que fossem chamar um superior. Os dois obedeceram e sabiam que os oficiais ficavam no prédio ao lado, na prefeitura ocupada.

Depois de algum tempo lendo e não identificando nada que pudesse ser interessante, como esquemas de carregamento e cotações de Sthal como havia dito De Bruce, Gascoin simulou com tosses e levando a mão à garganta, que precisava de água.

O soldado tentou ajudar batendo de leve em suas costas, mas o homem parecia engasgado. Desceu até a pequena sala debaixo das escadarias onde funcionava uma copa com café, chá e água.

Gascoin tirou as duas pastas de dentro da gaveta, trocou o conteúdo das pastas amarelas pelas vermelhas e voltou a seu lugar no instante em que o soldado vinha trazendo a água. Segurou a respiração para dar veracidade ao mal estar e melhorou logo que bebeu o copo todo.

O soldado perguntou se ele estava melhor, afirmou que sim, mesmo sem ter certeza e bateu de leve no ombro do homem agradecendo-o a gentileza. Separou três pastas e gesticulou que as levaria para o outro prédio. O soldado guardou as demais e cuidou em checar se as duas vermelhas estavam onde havia deixado. Tudo em ordem.

Na saída estendeu o braço direito com mão espalmada para baixo e cumprimentou o oficial.

__Heil, Hitler!
Gascoin empertigou-se e respondeu o gesto com vontade. Saiu da sala e viu os demais soldados voltando com um homem vestindo o uniforme negro das SS, trinta minutos para o ataque.
Ficou parado na escada aguardando que os três subissem. Os dois soldados apontaram Gascoin e conversaram algo rapidamente. Logo que o capitão veio até ele sabia que o sargento não podia falar devido ao ferimento de guerra, mas Gascoin o recebeu com o cumprimento nazista, ao que foi respondido.

Entregou os documentos ao capitão que os abriu e leu rapidamente. Não sabia exatamente do que se tratava, mas notou que eram manifestos de carregamento de aço para Berlim e Stuttgart. Como os documentos eram de pastas amarelas e não restritos aos oficiais, ele liberou o sargento para levá-los. Assim que Henri começou a descer a escada o capitão disse alguma coisa que o deteve.
__Sargeant, Protokoll und kann dazu fuhren.
Gascoin fez um gesto assertivo com a cabeça e continuou descendo em direção à saída. O capitão gritou pra que ele parasse. As demais pessoas que estavam circulando pelo local ficaram imóveis. O capitão veio em sua direção e apontou bravo para um dos guichês, que Gascoin já havia passado.

__Protokoll! - reiterou a ordem. O capitão liberava o documento, porém, não antes de registrar o cargo.
Ele rapidamente baixou a cabeça e foi até a soldado alemã, meio de cara fechada, para protocolar a retirada do documento. Enquanto aguardava, bateu rapidamente com o dedo na perda direita, onde o rádio estava preso por uma cinta, dando sinal ao SAS para manter o caminho de saída aberto.

Consultou as horas novamente, vinte minutos para o bombardeio. Assim que chegou a rua tomou a direção da prefeitura. Desviou o curso no último instante e com naturalidade foi caminhando para onde havia um caminhão estacionado sem ninguém por perto. Demorou quase duas horas para entrar na cidade, tinha de sair em menos tempo.
Na sala dos arquivos o soldado ficou imaginando porque o sargento não veio com uma ordem de Berlim para levar os documentos, já que se tratava de informações de uma das nações amigas do Eixo.
Chamou seu colega mais experiente e os dois conversaram por um tempo. Depois foram até a porta e viram que o capitão não estava mais no local, então, foram até as pastas vermelhas dos documentos confidenciais e notaram que o relatório de cinco páginas estava solto dentro da capa, havia sido puxado à força das presilhas.
__Mein Got! - exclamou o soldado, porque sabia que eles iriam perder as cabeças por uma falha daquelas.

Os dois homens avisaram mais soldados que foram rapidamente para frente do prédio da biblioteca no momento em que o caminhão descia a rua em direção ao entroncamento. Um dos homens foi chamar o capitão que deu ordens para deter aquele soldado e quando vários foram atrás do veículo e poucos ficavam em frente à porta, todos viram o grande Deimler-Mercedes perder o controle e bater contra a lateral das casas.

Um dos soldados virou o corpo para onde o caminhão estava estacionado e viu um dos panzers com o sargento ferido a bordo que arrancava para a saída leste da cidade. Um alarme foi soado e mais homens foram destacados para perseguir o estranho. Os soldados que estavam no entroncamento contaram sobre os corpos achados depois do incêndio no carro velho e foram agredidos a golpes de cassetetes pelo capitão.

Gascoin acelerava o veículo misto de moto e carro pelas ruas esburacadas enquanto outros vinham atrás atirando. Tinha de cobrir novamente os seis quarteirões para voltar à linha amiga onde a Easy Company aguardaria os alemães com uma recepção calorosa.
A recepção veio antes. Gascoin não ouviu devido ao motor do panzer, barulhento e desregulado, mas do alto dos prédios que o cercava e aos alemães, o coronel Marrik gritou no rádio, "Who dares, wins! Fire!"
E uma chuva de balas de MVK abateu-se sobre os capacetes negros e alongados atrás. Gascoin levantou os olhos para o céu a sua esquerda e ficou pasmo com a quantidade de pontos pretos que subia do horizonte.
Grills ficou com bolha nos dedos, gastou cinco boldriés de seis balas cada um abatendo assim, vinte e seis soldados alemães em movimento. O sargento Mitchell da Easy passou a não no rádio e deu duas ordens: a primeira "do not fire, yet! I repet: not even shoot!", e a segunda, "avancem, seus páreas, vagabundos! Vocês querem viver pra sempre?".

A primeira ordem foi passada para os aviões em curso e a segunda fica clara. Gascoin avançava, o SAS recuava e a Easy Company vinha de frente. Os carros com metralhadores em cima que seguiam o estranho sargento ferido deram de cara com um batalhão da Easy, coberto pelos atiradores do SAS nos telhados, já nos limites da cidade.

Assim que Henri ficou fora da linha de tiro dos alemães, o coronel De Bruce deu ordens aos seus homens para que escoltassem o tenente Gascoin até os limites da cidade e fizessem em torno dele uma abóbada de aço. Os homens desceram dos telhados e tiraram Gascoin do panzer, foram com ele de volta para a areia longe da saída da cidade e o puseram sentado no chão ficando todos os demais de costas para o protegido e de armas em punho num circulo fechado.
O coronel De Bruce checou o perímetro e mandou que os homens levantassem e vissem o espetáculo.

__Até que esses caras têm coragem! - apontando para os americanos que somente agora saíam da cidade, com alemães atirando em seus calcanhares.

Gascoin havia sido ferido por tiros nas duas pernas. Conseguira pilotar o panzer porque o acelerador é na mão. O sangramento não era grande e a dor ainda não era tão forte, estava quente e podia ser tratado.

O sargento Mitchell gritava, ria, corria e atirava, acompanhado de seus homens e dizia no rádio, "mandem fogo nesses malditos nazis! Abram o portão do inferno!". Segundos depois os P-51 e B-52 baixavam os narizes em direção ao solo e aceleravam os motores.

No prédio da prefeitura o capitão estava vermelho e não sabia mais com quem gritar. O barulho só era maior na sala do General Von Barent que tentava uma ligação para Berlim em caráter de urgência.
O capitão entrou esperando receber sua punição pela falha. O General Chefe da Divisão das DAK havia conseguido a ligação para Berlim e estava esperando a liberação da linha.

Parou diante do capitão com uma folha na mão.
__O senhor autorizou a retirada do documento, capitão Strausser?

__Da, mein allgemeine! O soldado não podia falar, mas tinha um documento de pasta amarela na mão. Eu pensei que fosse um documento não confidencial. - tentando justificar a falha.
__Por sorte eu consegui uma ligação para Berlim. Devem responder a qualquer momento, então poderei dizer a eles que as informações foram vazadas para o inimigo, do contrário... - alguma coisa fez o general parar de falar e olhar para a janela. Era o rugido de um motor supercharger V-1710 da General Eletrics na frente de um Mustang P-51.

O telefone começou a tocar, mas não havia tempo para falar.

Dos limites da cidade a Easy juntou-se ao SAS para assistir a queda da DAK no norte africano. O tenente do SAS Henri Gascoin mentinha os documentos contra o peito como se fossem feitos de ouro, mas o aço já estava de bom tamanho.
Em 12 de Maio de 1943 Adolf Hitler tinha mais um de seus acessos de raiva incontrolável. A Alemanha nazista perdia de vez o domínio africano. No mês que se seguiria os últimos bolsões de resistência nazista na África seriam dizimados, em Junho os U-Boats seriam retirados do Atlântico Norte e o cerco aos alemães começava a fechar-se efetivamente.

Os documentos capturados pelo SAS davam conta que de o aço enviado aos italianos vinha dos russos. Era de excelente qualidade, mas era dividido entre carregamentos nazistas e fascistas. Isso margeou o acordo entre os Aliados que agora contavam também com o apoio do Kremlin para obviamente parar de fornecer material ao inimigo e juntar-se aos demais na caçada ao fuhrer.

Os homens do Serviço Aéreo Espacial estavam sem balas, com fome, cansados, feridos, subnutridos, e a caminho da Sicilia, onde os americanos haviam desembarcado e tomado as colinas das praias. O norte da Itália, para onde o SAS iria a seguir estava naquele momento em cautelosa paz, como se alguma coisa grande ainda fosse acontecer.

No barco em que foram resgatados, os homens do SAS tinham ares de heróis. A notícia das batalhas africanas correra os rádios e eram aclamados como o grande esquadrão de elite de guerra. Os franceses Pierre Demolet e Henri Gascoin eram tidos como sobreviventes da campanha mais sangrenta daquela guerra até então. Os treze homens restantes do batalhão oriundo da Ochre House de Heereford agradeceram os cumprimentos dos demais e curtiram uma viagem tranqüila, com baralhos e cerveja guines pra todo mundo.

Henri ficou seis dias deitado na enfermaria do navio devido às três perfurações de balas nas pernas, mas não eram ferimentos grandes e não causaria seqüelas imediatas.
O documento de capa amarela estava manchado de sangue. Pois foi desse mesmo jeito que foi levado e entregue no endereço específico em Londres, onde era aguardado com ansiedade. A funcionária que recebeu foi a passos largos para a sala designada como setor francês de resistência Aliada. O local estava cheio de homens fardados falando em inglês e francês, todos tentavam chegar a um consenso quanto a mais nova preocupação de todos.

A jovem deixou o documento que foi passado de mãos em mãos. Foi depois de ler esse documento que o chefe do setor, ou simplesmente "The Boss" como havia sido apelidado pelos ingleses e "Le Chef", pelos franceses, entrou em contato como os soviéticos conseguindo sua atenção.

Le Chef redigiu os documentos, analisou as conseqüências e determinou que se aquelas quantidade de aço haviam sido embarcadas para Berlim, Stuttgart, Roma e Fiorano, então havia uma discrepância nas informações. Quando perguntada o que achava daquilo, Liv foi taxativa: estão armando uma operação ainda maior.

Foram dez dias de trabalho intenso examinando os documentos e determinando qual o próximo passo a ser dado e para onde enviar os cães de guerra de Sua Majestade. As comunicações eram diretas com o gabinete do Primeiro Ministro, com o General De Gaulle e com o presidente Franklin Roosevelt. Depois que tomadas as decisões era "The Boss" quem dizia se iam adiante ou não.
Um dos jovens trabalhadores do setor de administração de guerra tinha de saber se as ordens seriam passadas aos militares ainda naquela semana e para onde mandar os homens. Ele e sua bela e jovem amiga haviam acabado de estenografar o documento oficial que tinha de ser assinado e tinha que falar com o chefe, que normalmente era calmo, mas de poucos sorrisos, não afeito a gracejos e seriíssimo.

__Como acha que está hoje? -murmurou com o amigo à porta do chefe.
__Espero que bem, quando crescer quero ser dessa forma! - dizia o novato todo cheio de esperanças já abrindo a porta, depois de bater e receber ordem de "Le Chef" para entrar.

__Terminaram o documento? Está pronto para ser enviado? Temos de planejar as novas operações imediatamente...
__Sim, senhorita Duncan. Nós terminamos, espero que a senhorita goste. - disse o sorridente rapaz.

De trás de uma grande mesa de madeira pesada e escura, Liv pegou as páginas e leu rapidamente.

__São nove horas, vocês podem ir pra casa, vou ficar aqui e cuidar disso. O documento parece estar em ordem, mas vou examiná-lo melhor esta noite - Liv tinha os cabelos curtos novamente, cortados a altura dos ombros, lisos como sempre, mas agora havia uma parte presa atrás por um prendedor elegante e discreto. O tailleur creme e a tenra idade amenizavam a imagem dela, assim como novos óculos de leitura que agora tinha de usar, finos e leves, mas para seus comandados era o chefe e pronto.

__Não quer alguma coisa, senhorita Duncan? Café ou chá? - perguntou a moça.

__Obrigada, Melissa, mas não é preciso. O que quero é que estejam aqui amanhã antes das sete horas, preciso de gente pronta para entrar em contato como Estado Maior e com as ligações do jeito que estão posso precisar de vocês dois, descansados, agora já pra casa. - disse sorrindo brevemente.

Os dois deram-lhe boa noite e deixaram a única sala com a luz acesa no prédio da Thames House Millbank. No corredor os dois amigos tinham o mesmo pensamento: queriam ser como ela!
Depois de analisar atentamente o que deveria apresentar para o Estado Maior, ela levantou e foi até a janela. Havia a névoa londrina, uma lua enorme e alaranjada entre nuvens negras e a torre do Big Ben acinzentada a esquerda. O Tamisa tremeluzia aquém a avenida em frente à Thames, mas ela tinha a cabeça noutro lugar.

Preferia a bruma de Paris, as cores do Sena, e o vulto gigante da torre Eiffel na noite.

Preferia a França a qualquer cargo importante fora dela. O jovem funcionário estava ansioso para dar continuidade às operações, mas Liv sabia que aquelas eram decisões de guerra, de morte, de famílias destruídas, e não havia nada de glorioso nisso.
Olhou o documento de capa amarela sobre sua mesa e pensou: "esse SAS tem mesmo um espião eficiente..."


Publicado em : Literatura - Contos, Policial
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