Santo plenilúnio Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Itamaury Teles de Oliveira, em 03-08-2008 00:42
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Fiz uma rápida pesquisa, dias desses próximos ao Carnaval, com membros da vetusta Sociedade dos Poetas Quase Mortos, reunidos ali sob o toldo da Cristal, em Montes Claros, sobre como se calculava a data exata da festa de Momo.
A pergunta espraiou-se rapidamente por mesas vizinhas e, mesmo tendo dado tempo suficiente para a resposta, ninguém se manifestou de forma conclusiva.
Embora com ares de cultura inútil, o cálculo é interessante. Adiantei que tanto o Carnaval como a Semana Santa têm relação com o calendário lunar e, por isso, ambas as datas são móveis.
O fato é que, desde o século 2, os cristãos passaram a comemorar a Páscoa - a ressurreição de Cristo, três dias após a sua morte - apenas em uma vez por ano. Antes disso, a Páscoa era celebrada todos os domingos. E, inspiradas no calendário judaico, as autoridades eclesiásticas resolveram que o Domingo de Páscoa seria o primeiro após a primeira lua cheia da primavera, no hemisfério norte, que corresponde ao primeiro plenilúnio do outono, no hemisfério sul. Assim fixado, retroage-se 46 dias e teremos a Quarta-feira de cinzas. Ademais, o Domingo de Páscoa deve cair no período compreendido entre 22 de março e 25 de abril. E só. Fácil, não?
Agora, estamos todos apetrechados para calcular as datas do Carnaval e da Semana Santa, esta tão celebrada pelos mineiros.
A propósito de Semana Santa, lembrei-me de um caso que li, faz tempo, num livro de um certo Brown araxaense. Coincidentemente, tem o mesmo nome do Dan Brown, autor do Código Da Vinci. E mais: em ambas as histórias permeia um romance entre Cristo e Maria Madalena.
O caso, segundo relatou, ocorreu em Pirapora. Resolveram por lá, em meados dos anos 80, fazer uma encenação da paixão de Jesus Cristo, talvez por inspiração na cidade pernambucana de Nova Jerusalém.
O grupo teatral, assessorado pelo vigário, ensaiava com afinco, no salão paroquial, todas as falas de Jesus, de Maria Madalena, de Pilatos, dos centuriões, do bom e do mau ladrão etc.
Embora essa história tenha um final dos mais conhecidos, em Pirapora terminou diferente. Isso porque o ator que representaria Jesus, um forasteiro de Belo Horizonte que passava uns dias na cidade, escolhido pelos seus olhos verdes e longos cabelos loiros, encantou-se pela beleza da atriz que faria Maria Madalena, sem saber que era quase noiva do ator que faria o papel de um dos centuriões.
Pois bem, mesmo após saber do romance, o galã da capital continuou a desejar a namorada do próximo, mesmo sabendo que o próximo estava próximo. Seus olhos verdes insistiam em mirar apaixonados os belos olhos castanhos da morena piraporense, durante os ensaios que se estenderam por três dias. E ela, inicialmente meio encabulada, começou a dar sinais de que gostava daquela situação.
O centurião, desconfiado e muito ciumento, quando percebeu que estava em vias de perder a namorada para o forasteiro, resolveu discutir a relação com a "Maria Madalena". Ela já andava mesmo querendo colocar um ponto final naquele namoro, fazia tempo, porque ele tinha um comportamento muito violento. E assim, na quinta-feira após o ensaio, aconteceu o esperado: "Maria Madalena" rompeu o quase noivado com o "centurião" e caiu nos braços do "Jesus".
O "soldado romano" traído nem dormiu naquela noite, só arquitetando um plano para se vingar daquele ator metido a Don Juan.
Sexta-feira da paixão. Ruas cheias de fiéis e curiosos para ver a encenação. No meio da multidão, Jesus aparece carregando uma grande cruz. Maria Madalena chora copiosamente. Centuriões batem em Jesus. Este sente na pele que as chicotadas estavam muito reais. Tão assim que as beatas próximas pediam clemência:
- Não bate nele assim não, centurião! - dirigiam a um em especial.
Dona Candinha, católica fervorosa, com o terço na mão e véu preto na cabeça, não entendendo bem o que foi dito, mas também querendo reprovar aquela violência, soltou o verbo:
- Pára de bater nele, "seu" Timulião! - Dona Candinha achou que aquele soldado romano fosse xará de um vizinho dela, que trabalhava no DER.
Nessa altura, "Jesus" já havia percebido que quem o açoitava com tanto realismo e prazer - com um chicote de couro trançado - era o ex-namorado da "Maria Madalena", travestido de soldado. Para manter a pose, e não estragar a encenação, pediu educadamente:
- Não me bata assim, centurião. Está doendo muito!
Aí é que ele se entusiasmou. Deu em "Jesus" mais duas chicotadas nas costas e ainda sorria debochadamente.
- É pra você aprender a não tomar namorada dos outros, seu filhote de pombo...
Mesmo procurando a todo custo ser tolerante, "Jesus" não suportou aquela situação degradante. Jogou a cruz de lado e partiu pra cima daquele centurião, com socos e pontapés certeiros. "Maria Madalena" ainda tentou apartar a briga, mas não conseguiu. Dona Candinha, a essa hora, sentia-se vingada e torcia para Jesus.
- Dá nele, Cristo, dá! Isssooo...
O padre, de longe, com as mãos na cabeça a não acreditar na cena, quase desmaia. A encenação acabou ali mesmo.
Imobilizados e levados para a Delegacia de Polícia, os brigões só foram liberados na manhã de Sábado da Aleluia. "Jesus", escoltado por dois policiais, foi colocado diretamente dentro do ônibus e despachado de volta a Belo Horizonte...


Publicado em : Crônicas, Crônicas
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Comentários (1)
Postado em Fátima, em 05-08-2008 16:35, , Membro Registado
Muito boa! Vc tem um estilo peculiar de contar causos engraçados. Rsrssrs... Bjim!
 
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