Seu Amílcar Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Sonia Amélia, em 05-08-2008 06:28
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Já nem me lembro mais quantas vezes me empolguei mais que deveria e, por isso, me decepcionei. E há muito deixei de contabilizar as demais decepções: por confiar demais, por amar demais, por acreditar demais nas pessoas, entre outras...

Mas a sabedoria popular é certa. Dizem, cá pelas bandas de Minas, que “papagaio velho não aprende a falar”. Ou pior: “que pau que nasce torto, ate a cinza é torta”!
Isso quer dizer que nem todos os meus anos de vida juntos, nem todas as vezes que eu “quebrei a cara” e nem todas as decepções acumuladas, me fizeram perder a fé na vida e no ser humano.

Prova isso a minha satisfação, outro dia, quando li num artigo do Rubem Alves que, como eu, ele também se deliciava em observar as pessoas, seja na rua, no seu consultório, nos ônibus...

Ah... empolguei novamente!

Fui obrigada a admitir que, provavelmente, nossos interesses eram diversos. Ele como psiquiatra, eu, como mera curiosa, pessoa comum que se distrai com o comportamento alheio. Porém, confesso que nem isso me diminuiu o entusiasmo. E mais me dediquei ao velho hábito.

Dia desses tomei um ônibus quase vazio para ir ao centro. Quando acontece de poder escolher o lugar de me assentar, via de regra opto por me aproximar de pessoas mais velhas pois, de acordo com o trajeto a ser feito, arrisco até a ser agraciada com um bom papo, geralmente daqueles que me embriagam com suas histórias, sua sabedoria.

Com isso em mente, já me assento com meu melhor bom dia estampado na cara, nos olhos e no meu sorriso.

É fatal. Nem preciso começar a conversa. Eles próprios a iniciam.
Das condições do tempo ou do trânsito aos problemas particulares, familiares ou de saúde, é um pulo.

E foi num desses “encontros” que conheci seu Amílcar. Logo, logo descobri que fazíamos o mesmo trajeto, no mesmo ônibus, várias vezes na semana.

Com o tempo, se eu entrava primeiro no ônibus e ele ainda não estava, ao embarcar ele deixava o lugar destinado aos idosos e vinha pra perto de mim. Noutras, com o ônibus lotado, ele gentilmente insistia em me ceder seu lugar e se arreliava quando eu dizia que gostava mesmo de ir em pé, garantindo, dessa forma, que ele, mais idoso, permanecesse sentado. Isso sempre me fazia refletir se era, o caso de o velho cavalheirismo nunca tê-lo abandonado, ou se seria ele, o Seu Am[ilcar, que dele não se afastava... Esse impasse, no entanto, nao me impedia de constatar que, além disso, uma grande sabedoria exalava em cada uma de suas palavras. E eu as absorvia, sempre com grande interesse, sobre tudo que conversávamos, enquanto nossa amizade se estendia.

Entre muitas outras coisas, aquela gracinha de velhinho me contou que sua maior diversão depois que havia se aposentado eram suas duas paixões: andar de ônibus e jogar truco com outros aposentados.

Das pérolas colhidas de nossos assuntos, lembro-me de uma em especial. Contei-lhe que também gostava de jogar, mas reclamei que não era das melhores e que, por vezes, preferia não jogar para não colocar meus parceiros em situação difícil, até mesmo constrangedora, visto que todos gostam de ganhar.

Ele, sério, tentou de todas as maneiras me fazer entender que a eu não deveria me culpar por não ter sorte no jogo.

Rapidamente eu pensei: ele vai tentar me convencer que sou uma pessoa de sorte no amor, já que não a tenho no jogo... E ri, mentalmente.

Mas qual... Naquela sua simplicidade, jeitinho bem mineiro de conversar, ele se aproximou de meu ouvido e me ensinou: “Fia, truco é igual sexo: ou se tem um bom parceiro ou é preciso ter uma boa mão!...”

Providencialmente chegávamos ao ponto onde eu desceria. Isso felizmente, me poupou de ter que respondê-lo.

Refém da minha timidez, despedi-me com um sorriso amarelo.
Satisfeita com essa "nova descoberta", decidi que já estava na hora de começar a tomar outro ônibus e de conhecer novas pessoas...


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
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Comentários (1)
Postado em Fátima, em 16-08-2008 14:02, , Membro Registado
Amei, amei! As pessoas mudaram, mas a sabedoria dos velhos continua a mesma. Bjim!
 
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