| A PRÓXIMA ESTAÇÃO |
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Nós viemos de longe. Mas, antes, recolhemos no Umbral os cadáveres insepultos dos combatentes e das vítimas da segunda grande guerra, e acolhemos em nossos sonhos os seus espíritos atormentados. E os embalamos em noites memoráveis de ilusão.
Inspiramos os que nos antecederam a rolarem as pedras. Acalentamos sonhos que, com um sopro de inspiração ajudamos a tornar realidade. E então viemos, descemos, um pouco antes, um pouco depois, e no momento, em que o homem chegava à Lua. Sábios e profetas, anjos decaídos, espíritos eternamente jovens, assim somos nós. E neste mundo, onde tudo é proibido, sonhamos muito, realizamos quase nada. Vemos adiante, mas não caminhamos para alcançar. Nos tiraram nossas pernas, e amputaram nossas mãos. E nos puseram nesta prisão que, quarenta anos antes, fizemos de picadeiro e paraíso, com nossa inteligência, ousadia e astúcia, na parte mais antiga, mais doce e charmosa do mundo. Temos contas a pagar. O sujeito lá em cima, demora, mas manda a fatura. Afinal, ele é o dono do pedaço. E nós, apenas artistas expatriados. Músicos, pintores, escritores, intérpretes de Shakeaspere, e de todos os seus dramas e comédias. E até que descobríssemos algemas em nossos pulsos, fomos crianças, adolescentes cheios de esperança que, feito chama ao vento, foi se apagando aos poucos. Para este mundo, mandamos os computadores antes de nós. Mas nossas músicas, nas mãos de outros, tocaram em velhos vinis, e nossos textos, surgiram nas páginas em branco, pelas teclas rítmicas, de ultrapassadas máquinas de escrever. Adeus às armas, Mr. Hemingway, suas neves derreteram, seu peixe se fez em pedaços, e você finalmente compreendeu que o mar, apenas uma vez se abriu, para a ilusão de Moisés. Todos os dias eu venho a este banco resgatar parcelas de minha dívida. Meu credor é pontual e insaciável, ele me pede para que eu deixe tudo e o siga. Não se contenta apenas com o meu suor, a minha súplica, e minha vontade em logo me ver livre desta dívida, longe desta prisão, que alguns chamam de vida, e acham-se felizes por se encontrarem nela. Idiotas. Não enxergam adiante, não sabem voar, desconhecem a magia. Quatro décadas se passaram. Cá estamos, senhores, de malas nas mãos, prontos para a partida. Muitos de nós, já vieram e voltaram. E se aproxima nossa vez. Qual a próxima estação? Boa viagem a todos, sigam em frente. Eu, paro por aqui.
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