Abriu uma fresta na porta, olhou com atenção, não conseguiu ver muito, pois o fundo estava escuro. Resolveu buscar uma lanterna para examinar melhor aquele armário. Pegou suas pantufas de cachorrinho e saiu do quarto apressado. Não iria dar alarme falso a seu pai antes de confirmar a existência de um monstro dentro do armário. Foi até a cozinha, sozinho, sem acender a luz, pois já conhecia o caminho. Chegando lá abriu a gaveta debaixo da pia, pegou a lanterna e as pilhas. Aproveitou que estava lá e resolveu fazer um lanche. Tomou leite com biscoitos. Tudo isso no escuro. Terminado o lanche, subiu devagar para não acordar ninguém e dirigiu-se de volta ao quarto. No quarto, ascendeu a lanterna e caminhou em direção ao armário, pé ante pé, para não fazer barulho e assustar o monstro. Dessa vez comprovaria a existência dele e mostraria a seu pai que seu medo de escuro era fundamentado. Conforme se aproximava do armário, tentava controlar sua emoção e sua respiração. Seu coração disparou quando colocou a mão na fechadura da porta. Abriu num supetão e jogou o facho de luz para dentro do armário, gritou "Ahá!", porém, o armário estava vazio. Ficou desiludido, não era dessa vez que iria provar a seu pai a existência de monstros no armário. Caminhou de volta à cama, cabisbaixo, tentando repassar a cena. Pensava que não era possível não ter um monstro ali. Todos os elementos estavam presentes: o barulho de garras arranhando a porta, a luz bruxuleante provinda do armário, o súbito silêncio no quarto, seus pelos do braço arrepiados e aquela sensação de não estar só. Porém, não havia monstro algum. Deitou na cama tristemente e ficou de barriga para cima. Ficou olhando o teto com o rosto emburrado e acabou fechando os olhos. Cruzou os braços numa clássica pose de criança contrariada. Passaram alguns minutos e quando ele já estava quase dormindo, ouviu uma voz no quarto que disse:
- Não fica assim. Amanhã você tenta de novo e quem sabe acha o monstro do armário. Agora, vou te cobrir porque está frio e já está na hora de dormir.
A coberta foi posta em cima dele, ele se virou de lado e abraçou seu travesseiro, foi quando se deu conta de que seu pai estava dormindo. Sua mãe também. Sua irmã não estava em casa. Levantou de supetão procurando a lanterna, porém, não a encontrou. Saiu correndo do quarto gritando por seu pai.
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