Palavras em doses alopáticas, um pensamento de 6/6 hrs. Imprimir Enviar para um amigo
Avaliação desta obra: / 3
RuimÓtimo 
 
Escrito por Nildon da Silva de Figueiredo, em 10-08-2008 21:03
Avaliação média    (1 voto)
Visitas 1403    
Favoritos Nenhum

Por F.S.N.*

A vida tem sido muito corrida últimamente, meu tempo tem sido divido entre trabalhar e passar mal. Sim, tem sido tempos divertidíssimos, nada de rotinas. Um dia típico é recheado de aventuras, desafios e surpresas. Cada hora que passo na frente do pc trabalhando é única, inúmeras coisas acontecem, tais como a sensação do perigo da ocorrência de falta de luz, atualizações em real time do trânsito de São Paulo, o surgimento de mais um pornô de alguma pretensa celebridade, entre outras coisas (nem comento sobre as variações emocionais causadas pela tecla insert). Já nas horas do intervalo minha vida não para e acabei transformando meu hobby em profissão, sou um doente profissional. Sim, depois de muito pensar e devido a combinação de inúmeros antiinflamatórios e antibióticos cheguei a conclusão que sou um doente profissional. Veja, há uma diferença entre hipocondríaco e isso, no primeiro caso as doenças são imaginárias, no meu caso tenho os laudos para provar que são verdadeiras, inclusive os psiquiátricos. Minhas horas vagas, meus momentos de descanso, têm sido divididos entre passeios noturnos no P.S. e delírios de febre.
Já falei sobre isso anteriormente, já tinha até desenvolvido anos atrás a questão da minha mumificação antibiótica, e posterior canonização.
Não pense que estou infeliz em tomar remédios em escala industrial não, e nem fique com dó, porque até me divirto com isso, tem até suas vantagens.
Quais são elas? Inúmeras, pensamos no lado sexual, nem preciso entrar no clássico chavão do fetiche por médicas e enfermeiras, isso é muito démodé, o tempo em que passo entre um delírio e outro de febre, foi bem produtivo, desenvolvi um novo fetiche. Fetiche por remédios.
Cada vez que vou tomar antiácido, por exemplo, imagino uma linda ruiva deitada nua coberta de hidróxido de alumínio, hidróxido de magnésio e carbonato de cálcio. Basta agitar o frasco misturando o veículo q.s.p. com os demais ingredientes que ela aparece. Muito melhor que chantilly com morangos.
Já na questão esportiva, nada mais radical do que tomar o antibiótico associado a antiinflamatórios, sinto-me um xtremer, é uma corrida contra o tempo, cronômetro cada segundo, da ingestão até começar o efeito e sua duração, tentando sempre melhorar as marcas. Associado a isso está toda a adrenalida relacionada à ocorrência ou não de efeitos colaterais e interações medicamentosas. O suspense é digno dos melhores thrillers.
Infelizmente devido a três fatores esse novo estilo de vida é para poucos, uma vez que os preços dos remédios estão pela hora da morte, a ocorrência da necessidade da existência de doenças reais e simultâneas, e a última, mas a mais essencial característica, ter alguma entidade de outro plano se divertindo muito com isso a ponto de não te dar nada de rápida solução, mas também nada grave a ponto de óbito, o que acabaria com a brincadeira cedo.
Bom, por enquanto é só, tenho que ir, está na hora do meu remédio, e as três tenho uma inalação agendada. Outro dia eu volto e conto a fábula sobre o dia em que meu fígado se juntou com meu pulmão e fugiram, o que deixou meu estomago deprimido, levando ele a cometer suicídio. Quase uma lição de amor.
É isso

* F.S.N. é doente profissional formado em Harvard, autor do best seller Quem mexeu no meu Genérico e escreve semanalmente a coluna: Remédios, não uma condição, mas um estilo de vida. **

** Essa é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade é mero efeito colateral.


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
Quote this article in website Favoured Send to friend

Comentários (2)
Postado em tamaraprior, em 26-08-2008 13:47, , Membro Registado
Ah, os remédios!
 
» Responder a este comentário...

Postado em Liz, em 11-08-2008 19:19, , Membro Registado
Este quadro clínico é bem mais comum do que imagina-se, mas com sintomatologia tão bem descrita eu ainda não tinha visto!..rs. 
Muito bom! 
Um abraço
 
» Responder a este comentário...

Adicionar comentário

< Anterior   Próximo >