IGNIUS (7) - Pogónoforos Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Emmanuel Ceriz, em 11-08-2008 14:17
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Pogonóforos

“Será a morte necessária?”, pensava Atlan enquanto observava o corpo do Pogonóforo que jazia sobre o convés.

Estava encostado à balaustrada do pequeno barco que alugara, ali próximo, nas ilhas. Não era o ideal, mas, com os escassos fundos de que dispunha, fora o que se pudera arranjar. Os subsídios para investigação eram somente concedidos aos lobbies académicos e pouco mais. Como sempre... Era por isso que só lhe restava auto financiar as suas próprias investigações.

Voltou-se para Íris, à qual pertencia a iniciativa daquela pesquisa, e deixou escapar a pergunta que lhe ia na mente:

— Será a morte inevitável?

Íris pareceu reflectir um pouco antes de responder.

Encavalitou-se na amurada do barco e, contemplando as transparentes águas azuis turquesa, dispôs-se a discorrer sobre o assunto:

— Bem, para nós, mamíferos, que estamos tão habituados a que o ser vivo nasça, cresça e morra, a morte parece ser realmente inevitável... creio que, instintivamente, generalizamos o nosso ciclo de vida a todo o reino animal e vegetal. No entanto —continuou virando-se agora para Atlan — a vida das bactérias e das grandes árvores decorre de maneira bem diferente da nossa. A reprodução das bactérias que se dividem em partes iguais, confere-lhes uma espécie de eternidade, sem terem assim de passar pela morte. E podemos afirmar que, as bactérias de hoje são, de certo modo, a bactéria primordial, que vivia há centenas de milhões de anos na “sopa primitiva” dos oceanos.

— Sim — disse Atlan — isso é espantoso... embora esse tipo de “imortalidade”, alcançado pelas bactérias ao reproduzirem-se por cissiparidade, não é perfeito porquanto as memórias obtidas na experiência de vida de cada bactéria não são completamente transmitidas aos descendentes. Só é transmitida, ou melhor, reproduzida, a memória ‘física’, a codificação genética, a memória “hardware”...

...é semelhante ao que se passa no processo de clonagem: as memórias das experiências e das vivências do indivíduo perdem-se. Não são reproduzidas juntamente com o corpo.

Talvez esta perda não seja total — reconsiderou Atlan —talvez os cromossomas retenham alguma coisa da vida do indivíduo... ou talvez tenham sido ligeiramente alterados ou afectados ao longo da vida de um ser, retendo assim, através de um imperceptível e ligeiro rearranjo, uma conformação que conserve, a um nível holístico, algo das memórias da vida de cada indivíduo, pelo menos daquelas memórias que foram mais marcantes. Bem, mas isso é algo que ainda se desconhece...

Mas faz sentido. Imagina, Íris, que a codificação genética não possui apenas um nível de codificação (unidimensional) mas, pelo menos dois...

...sendo o segundo uma codificação a nível holístico — o genoma poderia então conter exactamente os mesmos pares de aminoácidos geradores do corpo físico, mas, uma ligeira diferença, na localização ou na orientação espacial dos aminoácidos que compõem o ADN (Ácido Desoxirribo Nucléico), ou até das moléculas que os constituem, não poderia, de algum modo, ‘codificar’ parte do comportamento adquirido? Retendo assim algo das memórias das vivências de cada indivíduo?...

— Mmm... não deixa de ser uma ideia curiosa: dois níveis de codificação... ou talvez três, ou, quem sabe, até uma infinidade deles!...

...mas tendo cada um, provavelmente, um “peso” ou preponderância cada vez menor, à medida que aumenta o factor

holístico... ¾ disse Íris como quem pensa em voz alta, enquanto se baixava para melhor examinar o estranho pogonóforo estendido no convés.

E então, subitamente, emergiu do seu rosto uma expressão de surpresa.

— Imagina com o que é que esta suposição é perfeitamente congruente?

— Não sei, não estou a relacionar... com o quê? — perguntou Atlan com alguma impaciência.

— Com a ideia de “nuvem de possibilidades” expressa no transmutalismo!

— Ah, sim! — exclamou efusivamente Atlan ao aperceber-se da conexão — realmente, segundo esse ‘axioma’, qualquer entidade é uma nuvem de possibilidades contendo todas as entidades alternativas. E, como previsto — prosseguiu reflectindo — cada uma dessas entidades alternativas terá um ‘peso’ progressivamente menor quanto maior for a diferença em relação à entidade principal, a entidade que nós percebemos como concreta.... não achas que poderíamos então dizer que, as outras entidades ¾ as alternativas ¾ vão tendo, em contrapartida, um ‘peso’ holístico cada vez maior?... ou que se situarão cada vez mais num nível holístico, ao mesmo tempo que serão cada vez menos concretas?

— Estou a ver onde queres chegar. Faz sentido... Já que no conceito transmutalista de ‘nuvem de possibilidades’ se considera que a entidade em si, ou seja, a sua ‘porção’ mais concreta, é o núcleo denso dessa nuvem ® é a região onde as possibilidades são mais prováveis. E, segundo a tua ideia, o conceito de probabilidades poderá coincidir, aqui, com o conceito de níveis holísticos....

— Sim, a esse nível parecem ser até a mesma coisa, mas vistas de “ângulos” diferentes!...

— Então pensas que as moléculas genéticas de ADN poderão “memorizar” alguma coisa da vida do indivíduo — disse Íris recapitulando e organizando as ideias de Atlan — que poderão codificar algo mais do que a sua estrutura física. E que essa codificação poderá ser a de algumas das memórias da vida de um ser...

— Sim — continuou Atlan — e admito que o possam fazer através de uma espécie de codificação holística...

— Com a qual vês uma certa congruência com a concepção de ‘nuvem de possibilidades’ e achas que, ao nível da codificação em si, holismo e probabilidades poderão, no fundo, ser a mesma coisa... — Sim, na medida em que as nuvens de probabilidades (as zonas mais “densas” das nuvens de possibilidades) também ‘codificam’ os comportamentos das entidades (como o do electrão por exemplo). Na realidade, elas ‘codificam’ as entidades em si: mas, para sermos mais precisos, e de acordo com a concepção transmutalista, as ‘nuvens’ não apenas descrevem e codificam, mas são essas próprias entidades!

Assim, cada estrato de probabilidades de uma nuvem pode ser entendido como uma entidade ligeiramente diferente da entidade principal.

Mas quando nos afastamos desse “núcleo” mais denso da entidade e os estratos se ‘esbatem’, tornando-se apenas em possibilidades, isso reflecte que, “aí”, as entidades alternativas já são muito diferentes da entidade principal.

Isto poderá ou não ser tomado como uma forma de codificação?...

Íris sentia-se mergulhar completamente nas teses desenvolvidas por Atlan. A tal ponto que sentia que era como se fossem as suas próprias ideias!...

...e sentia-se, assim, naturalmente impelida a prosseguir e completar os seus raciocínios:

— Sim, claro... sob esse prisma... poderíamos tomar as nuvens de probabilidades e, de resto, todas as ‘incertezas’ de Heisenberg como codificações de informação...

...e, visto que informação é realidade, é existência, é ser... poderíamos então concluir que as nuvens de probabilidades são ‘codificações’ de seres, de entidades. Daí que, cada um de nós não seria apenas o seu próprio ser, mas sim o núcleo de uma imensa nuvem contendo em si todas as coisas, todos os seres.

Na realidade, contendo todo o resto do universo — mas com ‘pesos’ progressivamente menores para as entidades mais “afastadas” do ‘núcleo’. Ou seja, para aquelas mais “diferentes” daquilo que actualmente percebemos como sendo nós próprios. Isso será, afinal, o nosso eu “concreto”, isto é, a zona mais densa da nuvem de possibilidades. Mais precisamente, a zona mais densa de uma região já de si densa — a região de ‘probabilidades’ da nuvem...

¾ E a nível quântico passa-se o mesmo ¾ acrescentou Atlan ¾ diferentes estratos de uma mesma nuvem de probabilidades descrevem diferentes partículas...

De súbito, como que atingido meteóricamente por uma nova ideia, Íris sentiu-o fazer um parêntesis e observou-o a circular à volta do convés, completamente abstraído do que o rodeava.

“É preciso unificar tudo”, pensava Atlan, “é tudo a mesma coisa! Tudo não passa de diferentes visões ou leituras de uma mesma coisa, de um hiper-fenómeno!...”

Depois, tão subitamente como ‘partira’, regressou prosseguindo com a exposição das suas ideias.

—... Uma determinada nuvem de probabilidades representa um átomo. Mas, um estrato mais profundo dessa mesma nuvem de probabilidades, já representa uma outra entidade, por exemplo o núcleo do átomo. E, outro estrato da nuvem, ainda mais nítido, representa os nucleões ( protões e neutrões). Mas, estratos ainda mais refinados da nuvem poderão representar cada uma das partículas que compõem o neutrão: um protão, um electrão e um neutrino de electrão.

Para além de que poderíamos admitir ainda ‘estratos’ intermédios para representar os bosões intermediários – as partículas portadoras dos campos: forte, fraco, electromagnético e gravitacional. Esses estratos da nuvem situar-se-iam nas regiões intermédias entre os tipos de partículas das quais os bosões são mediadores:


—...Mas, e o holismo? O que te leva a considerar probabilidades e holismo como sendo a ‘mesma’ coisa? ¾ interveio Íris.

— Apenas os considero a mesma coisa na medida em que ambos são codificadores. Ambos codificam informação. E ambos o podem fazer em diverso graus, escalas, ou níveis. São codificações com diversos níveis de integração.

O mesmo conjunto de elementos de um destes codificadores, e usando até a mesma disposição desses elementos, pode codificar tipos de informações completamente distintos, completamente diferentes!... Só depende da forma, ou do nível, através do qual são aproveitadas. O que dependerá, naturalmente, do propósito em vista.

Atlan deteve-se um pouco na observação do insólito pogonóforo que, indiferente a tudo, permanecia estendido sobre o convés do pequeno barco, e prosseguiu o seu raciocínio:

¾ Repara no caso de Tália e na forma como ela faz emergir da sua nuvem de possibilidades os seres mais adequados a cada situação!... a facilidade com que ela transporta o seu núcleo ínfimo de consciência através de todos os seus seres alternativos ‘clivando’ apenas aqueles que lhe interessam num dado momento.... ...há, de facto, uma certa semelhança com a clivagem de um cristal, já que cada clivagem faz surgir, nele ou dele, outro(s) cristal(is) com uma estrutura completa em si mesma e representativa de um novo cristal, distinto daquele que o continha.

E a nível holístico, por exemplo, já vimos que existe este mesmo tipo de multicodificação, ou codificação em diversos níveis. Como é o caso, por exemplo, da fotografia de um jornal constituída por muitos pontinhos. Cada um dos quais, isoladamente, isto é, separado dos outros, não significa nada para além do próprio pontinho. Mas, quando em conjunto com os outros pontos, codifica uma imagem — a da fotografia. Percebemos isto quando nos afastamos um pouco e, de um simples conjunto ampliado de pontos, obtemos uma visão de conjunto que tem como resultado a imagem contida na fotografia.

Até aqui nada de novo... Mas imagina agora, Íris, que esses pontos (nos quais vejo um certo paralelismo com os códigos genéticos) codificariam mais do que um nível de informação. O que é que se poderia passar neste caso?... Para além da informação que salta ao nível da vista desarmada — isto é, a própria imagem — se aprofundássemos mais a nossa visão, ampliando a imagem, poderíamos ver outras imagens formadas por determinadas disposições nos agrupamentos dos pontos que a formam. Aprofundando ainda mais a “visão”, até chegar ao nível da percepção dos próprios pontos, ainda assim poderíamos “ver” mais do que um conjunto de pontos sem significado — bastaria para tal que, por exemplo, os pontos estivessem codificados como “letras” que formariam “palavras” quando emparelhadas com os pontos (“letras”), mais próximos.

Assistiríamos, assim, a um terceiro nível, holístico, de informação. Neste caso, uma página bidimensional de palavras contendo um texto unidimensional. (Já que a leitura de um texto é um processo sequencial — palavra após palavra e letra após letra — então podemos considerá-lo como o fio de um novelo e afirmar que é unidimensional.)

De resto, esse mesmo nível, poderia ser tridimensional, se as “letras” se ligassem topologicamente como o faz uma rede tridimensional de neurónios.

Mas não ficaríamos apenas por aí!...

Julgo que, teoricamente, a quantidade possível de níveis de codificação de um sistema formado por vários componentes, seria imensa...

Basta para tal imaginar que introduziríamos a referida imagem no descodificador de um computador e que seríamos informados de que existiria uma outra ‘mensagem’ codificada pelos grupos de pontos distribuídos ao longo da diagonal da imagem. Ou pelos grupos de pontos equidistantes de dez em dez. Ou pela relação (ou diferencial) entre sub-níveis da imagem (obtidas entre pontos e agrupamentos desses mesmos pontos). Ou por outro tipo de codificação realizada através de, por exemplo, uma imagem ou mensagem formada por todos os pontos de apenas a mesma cor...

...ou mesmo codificações indirectas que resultariam, por exemplo, apenas quando sobre a imagem se fizesse incidir uma determinada luz ou radiação, o que faria emergir dela uma outra imagem ou qualquer outro tipo de informação...

Repara, Íris, há toda uma série de possíveis codificações virtuais: pela inter-relação de uns componentes com os outros, de uns níveis com os outros, de umas características com as outras, etc. Penso que poderíamos chamar codificações diferenciais a estas ultimas, já que resultam de um código obtido por ‘diferenças’ entre vários componentes ou grupos de componentes.

Há , virtualmente, uma infinidade de codificações possíveis num mesmo sistema de código. (Assim como uma infinidade de entidades numa mesma entidade.)

...foi assim que, por analogia, cheguei à ideia de que também os genes poderão, pelo menos em potencial, codificar diversos níveis de informação.

Não digo que o façam actualmente. Mas sim que poderiam fazê-lo. Que existe essa possibilidade.

E essa qualidade, potenciada a alto nível, teria como consequência que os nossos filhos herdassem, juntamente com o nosso património genético, todas as nossas memórias!...

— E qual poderia ser o resultado disso? — inquiriu Íris.

— A consequência seria que a evolução humana auferiria de um incremento tão acelerador — sem perda de informação de geração para geração — que faria com que a humanidade, muito rapidamente, ultrapassasse todas as barreiras dos impossíveis e se tornasse uma espécie divina e imortal!

De resto — concluiu Atlan — nessa situação, a morte tal como a entendemos hoje já não existiria, pois já não haveria a mesma perda de informação. A informação de todas as vivências, conhecimentos e prazeres, experimentados por cada indivíduo, seria transmitida aos seus descendentes, conferindo-lhe assim uma quase verdadeira continuidade.

E aliás, não é a perda de informação a causa do envelhecimento, da decadência e da morte?...Os cromossomas, ao longo das sucessivas duplicações celulares, vão “encurtando” e perdendo informação através dos telómeros. Também as células cerebrais, como não se regeneram, vão sendo insuficientes para gerir convenientemente toda a informação e podemos dizer que há informação que se perde porque deixa de ser útil, na medida em que deixou de ser gerida. A morte é perda de informação.

¾ Será baseado nisso que reside o segredo da quase eternidade do pogonóforo? Terá ele reduzido a sua perda de informação? ¾ questionou-o Íris olhando na direcção do longo corpo do ser enigmático que tinham encontrado nas profundezas do oceano.

¾ É uma boa hipótese ¾ concedeu Atlan ¾ já que toda a causa da morte é, no fundo, a incapacidade em conservar informação.

Repara, Íris, que, mesmo quando um corpo é destruído, por exemplo esmagado, também aí a morte se tornou irreversível e permanente porque houve incapacidade do indivíduo em conservar informação — a informação definidora da estrutura do seu próprio ser. Se a conservação de informação fosse completa, isto é, não só a codificação da estrutura de um determinado ser, mas também a codificação da informação necessária para efectuar o processo de regeneração ou duplicação dessa estrutura (desse ser), então esse ser não morreria.

Ou, se morresse, seria apenas uma morte temporária. Apenas durante o período que levaria a concluir a regeneração do seu organismo... três dias, um dia, um minuto?

¾ Uma morte temporária... isso não te faz lembrar nada, Atlan?

¾ Claro, claro que faz!... não temos assim tantos casos de morte temporária na história conhecida para que essa correlação me passe despercebida... El Em Manu.

¾ Deus Em Humanidade. Ou Em-Manu-El, isto é, Em/com huMANos Deus. “With Us God” ou “God With Us”…

¾ Sim, já que era o seu verdadeiro nome. Embora não seja o nome pelo qual é geralmente conhecido... Já agora, Íris, quais são as tuas opiniões sobre esse fenómeno histórico?

¾ Bem... vou começar por te contar isto: Uma ocasião, coloquei a seguinte questão a um membro de uma religião: “Jesus, enquanto homem, transmutou o seu corpo adquirindo a imortalidade. Isto não poderá significar que nós, humanos, teremos a possibilidade de fazer o mesmo?”

A sua resposta foi: “Não. Jesus conseguiu fazê-lo porque era filho de Deus e porque isso fazia parte da sua missão.”

E eu fiquei a pensar se não será isto uma desculpa para o homem... “Se Jesus o conseguiu foi porque era diferente de nós, por isso, estamos desculpados por não tentar fazer o mesmo.”

Da mesma forma diz-se muitas vezes que determinado indivíduo conseguiu algo na vida porque era rico, ou porque era mais inteligente, ou mais alto, etc. Desculpámo-nos frequentemente do nosso insucesso, atribuindo ao ser bem sucedido, uma característica que não possuímos, algo que não somos. É claro que não somos todos iguais, mas isso não tem impedido que diferentes indivíduos tenham atingido os mesmos objectivos. Situamo-nos todos dentro da mesma espécie, dentro do mesmo tipo de ser.

No meu caso, a leitura que faço da vida de Em-Man-U-El é a seguinte:

Numa época de mentalidade rígida e comportamento regido pela Tora e pelas leis moisaicas nasce um ser que evolui mais do que os seus contemporâneos. Como fruto dessa evolução ontológica desenvolve uma mentalidade de amor, tolerância e paz. Transmite aos outros essa nova mensagem e são muitos os que o escutam e seguem.

A sua evolução prossegue e, como consequência, a sua consciência passa a ter acção directa sobre o meio, isto é, sobre os outros, sobre a matéria e sobre si mesmo. Estas acções directas da sua consciência sobre o meio são interpretadas como milagres: a transmutação da água em vinho, a multiplicação dos pães, a cura de doentes, o caminhar sobre a água, o ressuscitar de um morto.

Jesus continua o seu caminho e a sua consciência vai transformando-se no seu centro; cada vez mais dominante sobre o seu corpo e sobre o meio. O seu corpo passa a ser, apenas, um dos instrumentos da sua consciência. Entretanto, o seu ego diminui cada vez mais, tendendo para zero. A sua consciência, ao contrário, expande-se e identifica-se progressivamente com a consciência universal. Ele e o Todo, ou ele e Deus tornam-se um só. E aqui ele identifica-se, de facto, como filho de Deus.

A quantidade e a qualidade da energia que flui e reflui no seu corpo é cada vez maior. Consequentemente, este entra em processo de transmutação: o fluxo extraordinário de energia altera a sua estrutura corrigindo imperfeições e fraquezas.

No fim, Jesus sofre um ataque massivo das forças humanas (ou do Con-Sistema) que, pelo menos aparentemente, provocam a sua morte. Porém, em si mesmo, na sua estrutura ontológica, havia já uma matriz indeformável (transconsciência?) ¾ o processo de transmutação do seu corpo estava, nesse momento, mais adiantado do que a destruição que lhe foi infligida. Após a morte, a transmutação completa-se. O seu corpo morto é regenerado num corpo ainda mais perfeito e incorruptível...

¾ E, pelo que consta nos registos históricos, o seu corpo terá levado três dias a regenerar-se... ¾ comentou Atlan.

¾ E talvez a realizar, também, uma qualquer outra acção... porque afinal, o próprio Em-Man-U-El tinha, anteriormente, ressuscitado Lázarus em apenas alguns minutos, segundo consta nos evangelhos.

¾ Sim... Mas voltando à codificação... ...É surpreendente, Íris, quando pensamos que toda a codificação da informação de um ser humano poderia ser guardada num espaço menor do que a ponta de um alfinete!

E que esse espaço poderia permanecer ileso, mesmo que o indivíduo em causa fosse esmagado por uma pedra de duas toneladas!...

“O núcleo de uma única célula do nosso corpo”, pensou Íris, “contém todo o ADN que nos define e que seria suficiente para fazer um duplicado físico de nós mesmos... e, realmente, ocupa um espaço menor do que a ponta de um alfinete! Mas...”

¾ ...Mas, quanto à protecção, Atlan: porque dizes que esse espaço, por ser muito pequeno, poderia permanecer ileso?

¾ Quão menor é o tamanho ocupado pelos códigos definidores (da estrutura de um ser) mais fácil é protegê-lo.

Repara, por exemplo, no neutrino: é uma partícula tão pequena (e tão “indiferente” aos relacionamentos com as outras (porque destituída de carga eléctrica)) que atravessaria facilmente a Terra sem sequer se ter apercebido!...

Os corpos muito pequenos são quase inafectáveis pela matéria, pelos acontecimentos, pelas catástrofes... e, de resto, pelo próprio tempo.

Além disso, a energia para proteger um sistema de pequenas dimensões, é também muito menor.

Mas há uma outra razão:

Possivelmente, um corpo muito pequeno poderá ter uma muito pequena perda de informação porque terá mais facilidade em conservá-la. E isto porque é um alvo muito menor aos bombardeios de aleatoriedade...

...O que está de acordo com as teses de Aleathor ¾ concluiu Atlan puxando do seu caderninho de apontamentos do bolso traseiro das calças e fazendo, ali mesmo na amurada, um esboço:

¾ Estas linhas onduladas representam o “bombardeamento”, sobre um sistema, de quaisquer factores aleatórios: partículas, radiações, acontecimentos, etc. Quaisquer factores capazes de alterar, causar danos, ou até de destruir completamente a informação aí contida ¾ explicou. — E, como a perda de informação de um sistema é a sua entropia aniquiladora...

...isto leva-me a crer que um buraco negro é um ser, ou uma entidade anti-entrópica ® como nada escapa de um buraco negro, nem sequer a luz, também ele, assim, não perde qualquer informação, conservando toda a ‘memória’.

— Um buraco negro é um ‘ser’? — interveio Íris.

— Na realidade penso que sim.

A vida é, em si, uma neguentropia, uma entropia negativa. Ora, se um buraco negro não tem qualquer perda de informação, ele possui assim uma elevada escala de neguentropia que é, fundamentalmente, a qualidade definidora da vida.

(Na realidade não gosto de lhe chamar buraco negro. Essa designação imperfeita deve-se apenas às primeiras ‘observações’ dos buracos negros no cenário cósmico: eram visíveis apenas como regiões escuras do espaço. Isso por não reflectirem a luz e por esta também não passar através deles. O que se passa é que, devido à sua gravidade super intensa, o buraco negro aprisiona a luz dentro do seu domínio de acção.)

Tudo indica que um buraco negro usufrua de um ganho contínuo e sempre crescente de informação. Em cada ‘rotação’ revisita todo o seu horizonte de acontecimentos, repetindo assim, constantemente, a sua informação. Será como um processo sucessivo de reinformação. Em cada ‘rotação’ no seu espaço fechado sofrerá um incremento de informação. E, consequentemente, de entropia negativa ou neguentropia.

Os buracos negros parecem ser ‘coágulos de eternidade’ no tecido entrópico e perecível da existência. Foram estrelas que deixaram de ser afectadas pelas vicissitudes da natureza e, “transmutando-se”, ganharam o direito à independência e à eternidade.

E, no entanto, coexistem num universo de seres perecíveis e degradáveis.

É como se fossem, por analogia, os seres máximos em que nos poderíamos tornar ao vencer a morte.

¾ Mas não achas que o buraco negro, ao isolar-se do restante tecido espaço-temporal, alcançou assim uma imortalidade muito solitária? ¾ observou Íris.

¾ Não! Aí é que está: muito pelo contrário! Ao dissociar uma ‘porção’ do próprio “espaço-tempo”, o buraco negro alcançou, não só o conhecimento do universo inteiro, mas obteve também o convívio com a totalidade da existência... com todas as entidades do universo!... E isto deve-se à minha suposição de que a dissociação de uma porção de espaço-tempo possui a mesma estrutura e constituição do restante ‘tecido’ existencial:

“Cada parte contém o todo” ¾ 2º axioma transmutalista.

Uma “pequena” parte do tecido espaço-temporal, como aquela que é dissociada pelo buraco negro, é como uma miniaturização da existência, contendo em si todas as suas ‘reflexões’, isto é, no fundo, todos os seus objectos e entidades.

Atlan puxou de novo do caderno e começou a desenhar as suas ideias:

É como uma ‘bola de sabão’: ela reflecte, na sua superfície, todos os objectos do ambiente que a envolve. E, se dela se dissociar outra bolha mais pequena, também esta reflectirá todos os objectos que a rodeiam (em formato menor, proporcional ao tamanho da bolha).

¾ Mas estás a falar de reflexões... e não dos objectos em si ¾ objectou Íris.

¾ Esta “reflexão” poderá ter pouco a ver com o conceito que temos de reflexão.

Penso que esta ‘reflexão’ dos objectos do universo no tecido existencial é equivalente aos próprios objectos. São os objectos em si mesmos. Tão reais como os ‘objectos-reflexo’ em outros buracos negros ou os objectos de que nos apercebemos neste universo...

...tudo são, possivelmente, manifestações de ‘consciência’. De uma ‘consciência’ existencial (para além espaço-tempo).

E não são os objectos que estão reflectidos no ‘tecido’ espaço-temporal, mas sim unidades, partes, ou componentes dessa ‘consciência’...

Tudo me leva a crer que, qualquer processo que obtenha o “merecimento” de ganhar a eternidade, tal como se fosse o “presente da águia” dos índios toltecas, envolve uma ‘elevada gravidade’... (Isto é, enormes quantidades de energia ou matéria ¾ que no fundo são equivalentes, como o demonstrou Einstein com a sua famosa equação E = m c2) ...e gravidade, claro está, tem sido sempre a qualidade de “mãe geradora” necessária para parir ou criar qualquer forma alternativa de existência. Talvez até mesmo para criar uma entidade livre dos condicionalismos da morte.

— A “morte”... a morte está sempre presente nas tuas reflexões... Tens assim tanto medo de morrer, Atlan?

— Não, eu não me importo de morrer... Importo-me é de não ser livre de optar entre morrer e não-morrer. E, para mim, não ser livre é ser escravo... e sempre detestei a escravatura.

— Mas não achas que a imortalidade poderá estar depois da morte, numa vida eterna como espíritos? (Até há em quem se satisfaça encarando a morte como sendo a própria “transmutação”!!...)

— Mesmo que isso se verifique, essa existência após a morte, continua a haver perda de informação, porquanto o corpo físico, que faz também parte da entidade, se perde. A sua informação não foi, assim, conservada. Logo isso seria uma imortalidade incompleta, limitada e não-livre. Além de que seria, também, uma imortalidade obrigada, forçada, conduzida ao sabor e “vontade” da existência e não do indivíduo em si.

De todo não me satisfaz porque continua a não haver liberdade. O ser continuaria a não ser livre de escolher: de ser e de viver os seus próprios desígnios.

—“Liberdade”... outra das palavras omnipresentes no universo dos teus desejos!... sentes-te preso, é? Porque é que estás sempre com a ideia fixa da liberdade? Olha à tua volta, achas que a maioria das pessoas tem esse tipo de preocupações?

— Eu sei que não... mas, só quem nunca provou o mel não estranha o fel. E eu já provei o “mel”... ao mergulhar em estados de alta energia...

— Sim, já li algumas dessas experiências quando me mostraste o teu precioso diário. O diário das tuas abordagens à transmutação...

Mas o calor apertava, ali no convés do pequeno barco flutuante nas águas tranquilas, e Íris sugeriu uma bebida.

— Oh, mas isso é uma excelente ideia! — exclamou Atlan deliciado — Queres que te ajude a prepará-la?

— Obrigada, não é preciso — respondeu Íris enquanto se dirigia para a pequena cabina do barco.

Íris era magnífica, pensou Atlan. Os seus longos cabelos de um indefinível castanho-dourado-avermelhado eram não somente belos, como pareciam irradiar uma qualquer espécie de energia...

Entretanto, Íris preparava um delicioso sumo de frutos tropicais, que comprara numa ilhota próxima, ao mesmo tempo que se sentia assaltar por um quase-irresistível desejo de mergulhar no oceano.

Mas regressou afinal, e com dois enormes copos transbordantes, para junto de Atlan que torrava ao sol.

— Divino — exclamou Atlan após ter escorrido para dentro de si a maior parte do refrescante suco — Só mesmo tu tens esta habilidade tão feminina de fazer de qualquer coisa, algo tão delicioso!

— Ora, não é nada de mais. Apenas juntei alguns frutos exóticos com mel e...

— Sim, claro, claro... Ainda bem que para ti não é nada de especial. Aliás, é precisamente essa tua simplicidade aquilo que mais gosto em ti.

Íris pareceu ruborizar ao de leve. O que, secretamente, encantou Atlan.

— O que estás a pensar, Atlan?...

— Hã? ah, nada... bem, há pouco estava a pensar que foste tu quem originou todo este encadear de ideias e suposições...

— Eu?

— Sim, quando me perguntaste com o que é que a hipótese de uma multicodificação holística, por parte do ADN genético, era “perfeitamente congruente”. Lembras-te?

— Ah, sim, claro!... Pergunta à qual não me respondeste por não estares, nesse momento, a relacionar com a concepção da ‘nuvem de possibilidades’.

Bem... mas quando eu te sugeri essa correlação, nunca mais paraste!...

Viste a nuvem de possibilidades também como um sistema de multicodificação por probabilidades. E daí partiste para o ‘mundo quântico’ e deduziste que uma mesma nuvem codificaria diversas entidades ou partículas subatómicas, dependendo do estrato de probabilidades que fosse “observado”.

Mas, voltaste atrás, e fizeste uma previsão do que poderia causar uma codificação holística de todas as memórias das vivências de um indivíduo nos genes dos cromossomas.

E chegaste assim à ideia de que, a transmissão de todas as memórias e conhecimentos dos progenitores aos seus descendentes, faria avançar de tal modo a espécie humana que a transformaria rapidamente numa espécie divina e imortal.

...O que te levou a concluir que a perda de informação de um sistema é a causa da sua morte, a sua “entropia aniquiladora”!

E daí avançaste para a suposição de que o buraco negro é um “ser” que escapou a essa aniquilação, já que não perde nada. Já que nada escapa da enorme força de gravidade de um buraco negro, nem sequer a luz, logo não tem perda de informação. O que lhe confere imortalidade. Tornando-o assim num “coágulo” do tecido existencial. Tornando-o dissociado.

Em seguida, quando te perguntei se, devido a essa dissociação, a imortalidade conquistada pelo buraco negro não seria muito isolada e solitária, esboçaste-me a analogia do tecido espaço-temporal com a superfície das bolas de sabão...

(...que eu achei muito engraçada.)

Segundo a tua analogia — prosseguiu Íris sempre com a sua musicalidade ligeiramente infantil — o tecido existencial “reflecte” todos os ‘objectos’ do espaço-tempo ao seu alcance, como o faz uma bola de sabão. E, na medida em que a totalidade do “tecido” engloba todo o universo, todas as coisas, ele é curvo e “fechado” como uma bola de sabão. Logo “reflecte” todas as coisas existentes do universo no seu interior, como uma bola de sabão reflecte todas as coisas do seu exterior, do panorama que a envolve.

E, assim como da “membrana” de uma bola de sabão se pode soltar, dissociar, outra bolha mais pequena que continua a reflectir todo o panorama à sua volta, também da “membrana” ou “tecido” espaço-temporal se pode dissociar uma “bolha” mais pequena que continuará a reflectir todos os objectos e entidades da existência.

O que permite ao buraco negro não ser um solitário, mas sim conhecer e ‘conviver’ com todos os seres e coisas do universo.

Aí, quando eu objectei que as “reflexões” de entidades no tecido existencial e as próprias entidades não seriam propriamente a mesma coisa, tu começaste a reflectir sobre isso e chegaste à suposição de que seria precisamente o contrário! Aquilo que nós tomamos como sendo ‘objectos’ não passaria também de reflexões no tecido existencial. Os “verdadeiros” ‘objectos’ “serão” os componentes da própria ‘consciência’ do além espaço-tempo. Da qual, de resto, tudo serão “manifestações” emergentes...

Atlan escutava, assombrado com a memória e a clareza dela. Em poucas palavras sintetizava as horas de conversa por que se tinha estendido toda aquela manhã.

“Por vezes, ele e Íris, pareciam ser uma só mente distribuída em dois corpos” — pensou Atlan fascinado e, ao mesmo tempo, intrigado — “porque é que aquilo só ocorria com Íris? Seria ela, afinal, a sua alma gémea?”

— ...Mas depois acabei por te perguntar porque é que a morte te afligia assim tanto — continuava Íris — ao que me respondeste que não era a morte que mais te afligia, mas sim a tua ausência de liberdade em poder escolher os teus próprios destinos. Nesse ponto reflectimos um pouco sobre o teu sentido de liberdade ser tão estranho à maioria das pessoas. E acabamos por concluir que isso se devia a teres conhecido estados de muito maior liberdade existencial, nas temporadas em que entraste em fases de alta energia. Experiências que registaste no teu diário de abordagens à transmutação...

E depois eu sugeri uma bebida!...

— Que memória! Como é possível?... retiveste todas as etapas do nosso “raciocínio”...

— Ora, não fiques assim tão espantado Atlan. Isso é apenas o meu “stack memory” a trabalhar. A minha memória não é propriamente excepcional.

— O teu “stack memory”... sim, já me tinhas falado qualquer coisa sobre isso — a tua pilha de memória de endereços de subrotinas — bem ao estilo dos microprocessadores...

— Exacto, memorizo sempre o “número de ordem” (ou “endereço”) de uma ideia antes desta partir para outra. Para não “perder o fio à meada”, compreendes? Os microprocessadores fazem isso com as subrotinas de um programa: o que lhes permite voltar sempre ao ponto de partida.

— Sim, eu faço algo de semelhante... mas não com a tua precisão!

— É apenas uma questão de treino.

—Vou dedicar-me a isso — disse Atlan pensativo enquanto, como exercício, recapitulava do fim para o princípio toda a série de ideias que tinham sido desenvolvidas.

Até chegar à pergunta de Íris.

Que permitira associar a ideia da nuvem de possibilidades à multicodificação de níveis holísticos possível a qualquer sistema de vários componentes.

Isso permitira-lhe ‘ver’ a “nuvem” também como um sistema de multicodificação, mas realizando-a através de estratos de probabilidades.

“Uma entidade engloba em si mesma todas as outras entidades, dentro dessa nuvem que é ela própria...”, pensou recordando o axioma transmutalista.

E todo o conceito de nuvem estava de algum modo relacionado com a incerteza de Heisenberg.

E logo com os factores aleatórios intrínsecos à natureza.

“...E logo com o Caos!”, pensou Atlan apercebendo-se de uma nova correlação.

Movido pelo súbito entusiasmo, fixou Íris com um ar interrogativo:

— E agora, Íris, é a tua vez de imaginar com o que é que o holismo e a ‘nuvem de possibilidades’ são “perfeitamente congruentes”!

— Ah, claro, agora é a minha vez!...

Ela passeou os seus olhos verde esmeralda pelas águas tranquilas e sentiu de novo o desejo de mergulhar.

Mas, voltando-se para ele, disse com alguma impaciência:

— Bem, Atlan... diz lá... Onde é que queres chegar?

— À teoria dos atractores!... não vês? Cada entidade da nuvem poderia ser considerada um atractor. Um ponto, um centro de “gravidade”, à volta do qual se distribuem, de modo mais ou menos probabilístico e caótico, todas as entidades alternativas de cada indivíduo...

— De facto! Nunca tinha pensado nisso...

— Nem eu!

— Que pena Aleathor não estar aqui. Ele iria adorar esta ideia, já que se relaciona tanto com o seu campo de pesquisa: a teoria do caos: os fractais, os atractores... e a linguagem aleatória da existência.

— Sim, Íris, a linguagem existencial!... como já tiveste a oportunidade de te aperceber, por vezes eu penso, assim como alguns físicos ‘quânticos’ visionários, que nós e, de resto, todas as coisas, somos as “manifestações” da consciência do ‘além espaço-tempo’ que emerge, de forma quântica, na nossa ‘realidade concreta’.

E assim sendo, tudo se conjuga: a ‘linguagem aleatória existencial’, o ‘caos’, os ‘atractores’, as ‘nuvens de possibilidades’, a natureza da ‘realidade quântica’, a emergência de uma ‘consciência existencial além espaço-tempo’, e, de certa forma, também os níveis holísticos de codificação...

— Sim, tudo se encaixa — comentou Íris meditativa ao mesmo tempo que olhava através do céu azul e se apercebia, novamente, de algo estranho. Algo quase imperceptível que a deixava sempre na dúvida se seria ou não apenas imaginação sua... “Aqueles dois «globos» parecem mover...”

¾ Gostei da tua dissertação sobre o tipo de vida das bactérias ¾ disse Atlan interrompendo-lhe as cogitações.

Acercou-se do Pogonóforo intrigado em penetrar o mistério que o encobria.

E lembrou-se:

¾ Mas ias ainda falar-me sobre outro tipo de vida diferente: o das grandes árvores.

¾ Sim, pois ia... na continuação à questão inicial que me colocaste: “será a morte inevitável?”

¾ fala-me então, dessas tuas amigas árvores que tão bem conheces.

¾ Não as conheço assim tão bem como afirmas. Mas, de facto, além de gostar muito delas, admiro-as e respeito-as muito. E não há dúvida que por vezes consigo ter com as árvores uma grande empatia e aprendo muito com elas.

Bem, realmente, para além das bactérias, a vida das grandes árvores também decorre de maneira bem diferente da nossa. Elas vivem dezenas de séculos!... e parecem morrer apenas acidentalmente, como as sequóias americanas. Além do que, pelas minhas experiências com as árvores, elas parecem ter uma espécie de consciência quase colectiva!...

...Mas, nem mesmo os peixes dos nossos rios têm um prazo fatal para morrer, com data fixa e sempre mais ou menos a mesma. Com efeito, o seu crescimento não para, como acontece com os mamíferos, mas continua durante toda a vida, podendo esta prolongar-se por mais de um século. Deve ser por esta razão que encontramos por vezes carpas e lúcios gigantes.

Mesmo nos insectos cuja vida é, por vezes, extraordinariamente breve, conhecemos excepções, como no caso das rainhas dos insectos sociais, que vivem numerosos anos.

Mas o mais extremo de todos os casos extremos conhecidos ¾ prosseguiu Íris dando pequenos passos circulares no apertado convés até se acercar do insólito animal ¾ é, sem dúvida, o dos pogonóforos, estes estranhos animais que constituem uma classe especial.

Os pogonóforos, tal como este aqui, têm um corpo muito alongado, provido de intermináveis tentáculos com a ajuda dos quais se alimentam, de resto, de um modo bem particular, visto que não têm intestinos: são os tentáculos que os substituem.

Os pogonóforos encontram-se principalmente nos abismos marinhos, mas na realidade este não foi assim tão fácil de encontrar...

¾ De facto! Não foi nada fácil ¾ expirou Atlan ao lembrar-se das longas horas de mergulho que, ele e Íris, empreenderam até, finalmente, encontrar um pogonóforo...

¾ Bem, mas como ambos sabemos, crê-se que estes seres têm uma vida inacreditável!... Engemann estudou o problema da idade que podem atingir.

Íris pegou no seu bloco de apontamentos e, começando a esboçar um desenho, prosseguiu com as suas reflexões:

¾ O tubo que envolve o animal começa perto da superfície dos sedimentos e pode atingir comprimentos consideráveis. Como no caso deste que é um Zenkewitchiana longissima e tem um tubo de um metro e meio!

Parou um pouco para reflectir. E continuou recapitulando tudo o que tinham apurado acerca dos pogonóforos:

¾ A idade dos sedimentos da extremidade do tubo pode fornecer a idade do animal, visto que estes tubos, muito moles, não podem enterrar-se no lodo e que o comprimento do tubo excede em muito o do animal. O mesmo tubo parece ser apenas ocupado por um único e mesmo indivíduo. Se num tubo, uma das larvas substituísse os pais, descobrir-se-ia provavelmente qualquer lacuna nas zonas de crescimento, o que não acontece. Ora, os sedimentos da extremidade inferior do tubo mostrariam que ele se encontra aí há, pelo menos, 25.000 anos!!...

Pegou na sua calculadora de bolso e prosseguiu:

¾ Se tomarmos o caso extremo da Zenkewitchiana, admitindo uma taxa de sedimentação de 3 cm por 1000 anos e que só metade do tubo está enterrado na lama do fundo, obtemos:

75 x 1000 = 25.000 anos

3

Mas, repara Atlan, que se reduzirmos a velocidade de sedimentação de 1 mm por 250 anos, como, de resto, admitem diversos oceanógrafos, então, supondo que 1 m de tubo está enterrado, obtemos:

1000 mm x 250 = 250.000 anos!!!...

1 mm

¾ É incrível como algo assim tem passado quase despercebido à humanidade... ¾ comentou Atlan.

¾ Sim, é verdade. Porque repara que os anéis que encontramos no tubo devem corresponder a zonas de crescimento anuais e, mesmo neste caso, verificamos uma idade de, pelo menos 1000 anos, o que faz dos pogonóforos os campeões da longevidade. O que é realmente espantoso e, até aqui, sem exemplo no reino animal.

¾ Sim, sem dúvida que é. Mas ¾ ponderou Atlan cauteloso ¾ alguns cálculos poderão não estar correctos devido à omissão de qualquer factor que desconheçamos; Como sabes, os grandes abismos são ainda um domínio muito misterioso...

¾ Sim, e também há a considerar que, o frio dos abismos e a quase absoluta constância desses ambientes, poderiam perfeitamente constituir o meio ideal para animais de vida muito longa, já que, como atrás mencionaste, o “bombardeio aleatório” também aí seria muito menor. E como os pogonóforos se alimentam de partículas microscópicas, não podem deixar de ser raros no fundo dos abismos. O que iria no sentido de um

crescimento muito lento, geralmente associado a uma grande longevidade.

¾ Sim... e, no fundo ¾ concluiu Atlan ¾ apesar da notável proeza dos pogonóforos, a verdadeira eternidade só me parece possível através da transmutação. Ou, o que resulta no mesmo, através do desenvolvimento da ‘metaconsciência’ que poderia criar assim um pequeno “núcleo” definidor e gerador da entidade, aquilo que designo de ‘transconsciência’. Seria esta que conteria a codificação completa para restaurar o indivíduo...

...E possuiria ao seu redor uma “membrana” impermeável e invulnerável ao espaço-tempo.

Essa eternidade seria como um pequeno coágulo, um quanto, uma descontinuidade no ‘tecido existencial’...

Verdadeiramente livre.

Íris reviu rapidamente toda aquela manhã e exclamou enquanto se despia completamente:

— Sabes, Atlan, eu acho é que somos completamente loucos...

... “Mas completamente!...”

E rindo mergulhou finalmente no oceano.

Atlan riu-se também porque estava precisamente a pensar o mesmo... “loucos, completamente loucos!”, e começou a desembaraçar-se das suas roupas.

“Existirá alguma cura para as nossas doenças?...”, pensaram ambos enquanto se afundavam nas águas tranquilas.


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
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