Minha verdade me traiu Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Maria de Fátima Cangussu Alves de Paula, em 13-08-2008 22:06
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Está uma melancólica noite de inverno. Não consigo desvencilhar-me dos pensamentos que atormentam meus sonhos.

Algum tempo atrás, conheci um escritor e iniciamos um mágico namoro literário. Aliás, somente eu o namorava, ele não tinha consciência do nosso caso. Estava tão absorto em seus escritos, que não percebeu que dos seus artigos me enamorara. Foi amor à primeira leitura.

Mas, estou apercebendo que é um romance literariamente impossível, pois ele é um nobre escrevedor e eu apenas uma plebéia literária. Seus trabalhos demonstram sistematicamente o vasto conhecimento que possui. Estudioso de renomados autores, ele os disserta com competência e autoridade indiscutíveis. Ao mesmo tempo discorre sobre episódios do cotidiano com habilidade e destreza. Escreve lindos poemas que tramitam entre os singelos e os audaciosos, sem contar os textos complexos e reflexivos. Bem, poderia ficar horas enumerando apaixonadamente seus predicativos literários, pois para tanto ele se preparou, estudou anos e anos a fio.

Nesta noite, estou me certificando de que nosso relacionamento literário não tem um futuro promissor, pois sou insignificante diante de sua sapiência. Não pertenço ao mundo das letras, tampouco dediquei a estudar com afinco. É bem verdade que não tive grandes oportunidades, embora seja cômodo responsabilizar esse fato como tal. O pouco conhecimento que tenho não está fundamentado em nenhum teórico. Escrevo simplesmente pelo prazer de escrever, sem grandes pretensões, e para isto, conto apenas com minha sensibilidade. E para agravar o desgaste desta relação, estou com ciúmes literários dos seus escritos informativos, das análises literárias e dos poemas dedicados as paixões avassaladoras e amores perpetuados. Enfim, todos os seus artigos, até mesmo aqueles que nos remetem a refletir sobre nós mesmos. Estou me tornando possessiva ao analisar os seus trabalhos e por mais que tente me libertar, não consigo ser imparcial nos meus julgamentos. Também estou lhe sufocando com tantas cobranças e exigências literárias.

Receio, que nosso episódio literário, por minha culpa, aqui assumo, está em plena decadência e agoniza. Agoniza nas antíteses dos poemas desencontrados nos encantos e desencantos que criei. No brilho fosco da metáfora de uma poesia pobre. Tão pobre quanto às marcas deixadas no meu coração, das quais não tê-las, tanto, tanto lamentei. Nos complexos artigos, que jamais escreverei. Nos contos de relatos lacônicos, que fatidicamente apregoei. Na pureza pueril dos textos, que com certeza descreverei. Nas personificações retratadas das crônicas que relatei. Nas rimas que não consegui fazer acontecer, pois quem rima por prazer, é livre por querer...

Necessito, portanto, romper com nosso romance literariamente conflituoso, já que a minha tênue verdade me traiu.


Publicado em : Crônicas, Crônicas
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Comentários (15)
Postado em celylua, em 02-11-2008 13:07, , Membro Registado
Amor das letras...Maravilhoso...Sentime nto profundo e verdadeiro, não importando ser correspondida...É simplesmente uma verdadeira jóia rara...parabéns! Acredite, fiquei emocionada ao ler este texto. 
Bjss
 
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Postado em Bruxa dos Contos, em 31-08-2008 13:29, , Membro Registado
Lindo, moça ! Poesia pura. 
 
Há mulheres que sabem amar 'um homem' ... outras, no entanto, amam não 'o homem', mas a fantasia que elas próprias criam em torno dessa pessoa e do q essa pessoa pode fazer por elas e para elas.  
E esta fantasia torna-se tão intesa q chega a ser sentida como uma 'realidade'. E qdo percebem o engano...já é tarde, o coração ja se entregou e sofre ! 
 
Não estou falando de vc ou do q eu li no teu texto. Estou falando de mim. 
Só posso te dizer uma coisa: existe vida após essa 'morte'. Eu renasci! N estou pronta pra outra, mas estou inteira(rs) 
 
Parabéns! 
 
Beijo da Bruxa
 
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Postado em Beata, em 27-08-2008 22:42, , Membro Registado
Ai, Fátima, faz isso comigo não.... :sigh eu me vi nessa sua crônica, nossa menina quanto talento, quanta sensibilidade, não me lembro de ter conversado antes com vc pra ter escrito assim pra mim....haha.  
Parabéns mesmo, estou emocionada de verdade! 
Um grande beijo
 
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Postado em Carmelo da Costa, em 25-08-2008 15:53, , Membro Registado
Ei, psiu! 
Devo admitir, que mesmo sendo um crítico literário (auto-avaliado como bom), jamais li um texto assim: "vivo"! Quanto aos "casos" literários ou não,vale mais a capacidade de voltar a se apaixonar. 
10 (em maiúsculas) 
 
Abraço!
 
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Postado em Itamaury Teles, em 23-08-2008 03:05, , Membro Registado
Fátima: Você é brilhante.  
Orgulho-me em ser seu conterrâneo.  
Agora tenho certeza de que as águas do Rio Mosquito, mornas e ferruginosas, têm algo de especial, mas não sei explicar bem o quê. 
Continue escrevendo. Logo, logo, teremos material para um livro que fará sucesso. Disso tenho absoluta certeza. Parabéns.
 
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