Vovô Funkeiro Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Allan Pitz, em 15-08-2008 02:52
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Sr. Altamirano Euclides acordou bem cedinho, como de costume, naquela ensolarada manhã de domingo. Pegou o copo com água contendo sua dentadura que ficava ao lado da cama num criado mudo, sentou-se, pôs seu velho chinelinho de couro que combinava perfeitamente com seu ultrapassado e enorme pijama xadrez. Lavou o rosto, pôs a dentadura e preparou-se para tomar seu café da manhã. Ao olhar o armário constatou que o pó de café só daria para uma xícara, o pão de forma que estava na cesta já começava a criar uma fina camada de mofo a sua volta, nem chá nem biscoitos e assim Altamirano lembrou-se que este era o último dia antes da data prevista para sacar a sua singela aposentadoria. Percebeu que havia ficado um pouco ansioso, exatamente por isso o domingo demoraria muito a passar. Mas ele teria que acordar bem cedo no dia seguinte para garantir um bom lugar na fila do banco.

As pernas já não eram as mesmas. Os joelhos, mais teimosos. Setenta e oito anos! Altamirano nunca esperava chegar tão longe e nem passar pelo trauma de ter que enterrar seu único filho, morto em um assalto. Era fácil tachar seu Altamirano de ranzinza ou esclerosado, difícil mesmo era entender que ele tinha motivos de sobra para ser tão amargurado: morava sozinho, era viúvo, seus parentes há muito haviam morrido e seu único filho o havia deixado há cinco anos.
Para o almoço, preparou um pacotinho de sopa instantânea que, segundo ele, era prática e ajudava na hora da preguiça. Tomou com gosto sua sopa e depois saboreou bem devagar o último cigarro de seu maço, afinal de contas, só poderia comprar outro quando recebesse sua aposentadoria.

Às cinco horas percebeu que não tinha o que lanchar, mas ainda tinha alguns trocados no bolso. Foi à padaria, que ficava bem na esquina de sua casa, tomou um cafezinho e saboreou lentamente, talvez devido a dentadura frouxa, uma coxinha de galinha. À noite o velhinho pôs seu pijaminha, deitou-se, pensou em todas as dívidas que teria que pagar no dia seguinte, a infinita lista de remédios que teria que comprar, pensou por alguns instantes que os médicos estavam sempre receitando novos remédios e isso significava menos comida na dispensa. Por volta das sete e meia já estava tentando dormir. Se acordasse às cinco horas, conseguiria estar às seis no banco, o que supostamente garantia um bom lugar na fila.

Sentiu os braços relaxarem, as pernas, uma agradável sensação de sono e pronto, era só esperar mais um pouquinho que certamente adormeceria. Mas não foi bem assim. A garotada vizinha ao seu Altamirano resolveu dar uma festa de arromba. O barulho era infernal. A aparelhagem de última geração tocava no máximo volume, músicas horrorosas com letras semi-analfabetas e sem conteúdo algum, era um ritmo enjoado e repetitivo. O velhinho não sabia bem que tipo de música era aquela. Pensou, pensou, pensou... E lembrou de que era um tal de funqui, coisa sem graça. Para ele aquilo era uma ofensa aos ouvidos. Sentia uma vontade doida de entrar na festa com sua velha garrucha de duas balas e ordenar para que aqueles moleques mal-educados diminuíssem o som. Mas não podia. Era muito cedo e só poderia dar queixa a polícia ou reclamar se a barulheira fosse depois das dez da noite. Virou-se para o lado, fez uma breve oração, pôs a dentadura no copo com água e tentou dormir... Impossível! A música tocava tão alto que as janelas de sua velha casa tremiam, a dentadura balançava dentro do copo, parecia que seu cérebro deslocava para todos os lados da cabeça, ao mesmo tempo que estava recebendo marteladas no estômago. - Malditos moleques!!? - gritou ele da janela.

As horas iam se passando e a música continuava tocando cada vez mais alta. Altamirano contava os minutos para que chegasse 22:00h. Ás 22:02h o telefone da polícia já tocava: era ele, reclamando com veemência do barulho que tanto o incomodava. O policial não deu muita atenção, até porque idosos reclamando de barulhos ou outras pequenas moléstias era uma coisa muito normal. Seu Altamirano não fez por menos, ligou mais de vinte vezes e nada. Em uma atitude desesperada pegou sua velha garrucha e disparou dois tiros para o alto. Os vizinhos não fizeram por menos, estouraram mais de vinte caixas de fogos de artifício. Não tinha jeito! Nada que fizesse seria suficiente para calar aquela turma animada.
Sentou-se na cadeira de sua cozinha, tomou um copo d´água e foi obrigado a ouvir aquela música estranha que quase estourava os seus tímpanos. Tentava entender aquelas letras toscas e confusas que, em setenta e oito anos de vida, nunca havia escutado. Era absurdo demais para um fã inverterado de Nelson Gonçalves ouvir aqueles cantores desafinados e sem talento cantando todas aquelas obscenidades.
Às três da madrugada o som foi desligado. Um silêncio sepulcral invadiu sua pequena casa.

Ele deitou-se, pôs sua cabeça no travesseiro e falou: Agora posso dormir!? Os minutos se passaram e o sono não vinha. Seu Altamirano pensou:- Quer dizer que eles beberam, ouviram música alta e agora querem descansar? Pois se eu não dormir ninguém dorme.?- Pôs sua velha vitrola no quintal, limpou a poeira de seus antigos discos de vinil e ficou a ouvir Nelson Gonçalves no útimo volume. Após cinco minutos a polícia batia na sua porta. Alguém deve ter feito queixa de um vizinho baderneiro que ouvia sua vitrola no volume máximo. Ele abriu a porta e ao ver o policial desferiu a frase: - É, seu policial! Eu fui incomodado a madrugada inteira por um tal de funqui e vocês não apareceram. Agora bastou eu ligar a vitrola pra ser taxado de baderneiro. Ta certo! Velho não tem vez nesse país. Pode me prender. Eu tenho cultura e experiência demais pra ficar solto?


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
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Comentários (6)
Postado em Isabel Furini, em 04-11-2008 16:10, , Membro Registado
Pobre Altamirano Euclides, mas é assim mesmo velhos não tem mordomias no mundo moderno. Muito bom seu texto.  
Isabel
 
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Postado em Júlio Cesar de Oliveira, em 17-09-2008 23:37, , Membro Registado
Muito bom Allan. Grande seu Altamirano... Achei apenas que o final poderia a "crítica dentro da própria comédia"; manter a seriedade sem ser tão sério... contava com um final irônico, porém mais divertido. Parabéns !! Continue sempre assim Allan, você tem talento!! 
Fique com Deus!! 
 
Júlio Cesar
 
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Postado em Beata, em 07-09-2008 15:16, , Membro Registado
Muito bom, Pitz, eu amei seu Altamirano, que senhor mais simpático e o final surpreedeu, muito bem elaborado, e divertido também,  
 
Ps. Adorei a parte da dentadura balançando ao som do funk. hahaha 
Parabéns!
 
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Postado em Alfhonso, em 29-08-2008 20:04, , Membro Registado
Bonito texto, parabéns.
 
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Postado em Lela, em 18-08-2008 18:58, , Membro Registado
:) Pois é neh! É a verdade nua e crua! 
Bjao
 
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