| Epifania do Deus de Serena |
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No alto da montanha, o cipreste deixava o vento bolir uma melodia encantadora. Afável e leve, toda aquela sensorialidade acalmava os ouvidos de Serena. Aos poucos rendia-se àquele canto em seu moleque descortinar de idéias. Ouviu... Sim, ouviu do vento um chamado. O Amor brotava em seu íntimo com entonação lúdica e "viajeira". Sorriu por um quase entender... Chorou quando mais em si...
Era uma quarta-feira, nas cinzas dos dias comuns, mas desperta pelo bailar das folhas na capoeira, viu encantamento em deixar os pés pisarem na fofa relva que adornava o sítio dos Ferreiras. Era menina de simplórios sonhos. O maior deles era o mais simples. Na sua crença de menina, todos os dias ele se realizava: conversa com os bichos e as plantas e achava-os em diálogo consigo. Ria sozinha ao interpretar as falas das coisas. Banhava seus pés no riacho, e lhe tinha como um afago. "Não me faça cócegas, senhora água"! Colhia do canudo-de-pito o néctar e o orvalho das noites. Quando o vento assoprava-lhe mais forte os cabelos, incisiva e voltando o rosto para trás: "Não me mexa mais no meu cabelo, seu levado!" Não queria nada mais para si do que a companhia de Rabisco, o cachorro acinzentado de olhos azuis que lhe lambia a cara no abraço cândido das manhãs frias. Mas o vento; sim, o vento resolveria inquietá-la quando iniciava-se o desfolhar outonal no interior da Zona da Mata mineira. Serena não tinha lucidez religiosa, acreditava nos agouros do sertão, contudo nunca imaginava para si mergulhar num sentido menos folclórico das crenças. Entediava-se com a seriedade oca e pretenciosa dos sacerdotes. Era santa por querer o bem na sua forma mais ingênua e simples, sem os aparatos do ritualismo formal. E Serena ouviu um cântico de dor na alma livre dos pássaros, das folhas das árvores, do cipreste e percebeu até das nuvens um apelo formatado pela Divindade na esperança de que a escutasse.Não sabia quem orquestrava, magistralmente, aquela sinfonia audível somente ao seu interior pueril. Agachou-se trêmula pela força que as palavras impunham ao seu âmago. A sonora e acústica toráxica comprimia o coração que em suas batidas fê-la perder o fôlego. Ouvia a sua música interior. Era um coro íntimo, uma canção da existência; era um chamado. A canção, uma manifestação inconsciente, um querer quase demente, um alucinado desejo de fazer algo que ainda não compreendia. E como das minas e nascentes se formam os pequenos e grandes riachos do seu ser brotaram certezas. Não entendia a canção pelo afino, pelos acordes ou mesmo pela hamonia; entendia-a como a um pedido de reciprocidade anímica, declaração rítmica do amor universal. Aos poucos da emoção sutil e rejubilante veio ao pranto, descoberta da dor de um mundo em trabalho de parto. Mal sabia cantar, quanto mais seguir o chamado que lhe fazia o vento e a cantiga interior. Inclinou-se, resvalando os joelhos ao chão. Sua religião verdadeira não cabia em templos. A abóbada celeste pintada a la Michelangelo era o divinal átrio da liberdade e servia-lhe como acolhida espiritual. A escolha cabia nos arbítrios da fé, mas o desejo se lhe impôs em mais relevo e disse: –Sim. Orvalho e lágrimas uniam-se nas folhas do manjericão, exalando uma nova fragrância no ar. Céu de palavras, letras, sinfonias, anjos e danças, tudo revelando a epifania celestial e o efusivo emergir de carismas. Latindo pelos campos, Rabisco trazia um pequeno graveto à boca, caído do cipreste, num formato inconfundível. Era algo como um crucifixo talhado ao tempo e vento, áluzes e orvalhos, uma obra de beleza divinal. Abraçou-o ao peito e disse: –Amém!
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