O professor Leopoldo Camões de Machado, mui digno doutor em Letras, desceu à sepultura, dentro de um esquife dos mais simples, exatamente às 17 horas e 45 minutos, na última terça-feira, em jazigo perpétuo de sua família. Aqueles que, cheios de esperança, virem tomar ciência de seu testamento num futuro breve, certamente se decepcionarão. Mas, os que de fato o conheciam irão rir em face da ironia do inusitado. Antecipo-me às expectativas para dizer que a herança do finado professor se resume a alguns romances, em primeira edição, duas enciclopédias ilustradas e meia dúzia de trabalhos literários de sua autoria, todos inéditos. Além de uma dívida em torno de cento e cinqüenta reais, pagáveis em suaves prestações, em conceituada livraria local.
Aos 80 anos faliram-lhe os órgãos múltiplos, embora os mais chegados ao ilustre professor suspeitarem que seu espírito, ao contrário do que ele próprio cria, continuará vivo na eternidade.
Afinal, o professor Leopoldo passou a vida acalentando um sonho: ver tornar-se letrado o povo da longínqua terra que abraçara como sua.
Feito o personagem de A. J. Cronin no célebre romance A Cidadela, o professor Leopoldo formou-se e foi trabalhar em distante e paupérrimo vilarejo. Ali, encontrou a desconfiança dos desesperançados e a resistência dos espertalhões não menos usurpadores que se beneficiavam com a ignorância alheia. Mas, enfrentando tudo e todos, convenceu o prefeito a conceder descontos de tributos àqueles que doassem um livro por mês à combalida biblioteca municipal. Iluminou também a vida dos mais simples ao realizar concursos literários, cujos trabalhos, eram lidos em eventos públicos, ocasião em que as pessoas - porque afinal as pessoas vêm antes dos autores, embora muita gente desconfie que não - puderam expressar os seus sentimentos rompendo os diques que os isolavam em ilhas de dor e inconformismo.
Aposentou-se o professor com lágrimas nos olhos e orgulhoso por saber que todas as crianças do vilarejo sabiam ler e escrever. E todos os adultos sabiam entender as notícias do jornal. Partiu numa manhã nevoenta do mês de julho, de retorno para sua terra de origem, mas esperando voltar um dia. E o fez 30 anos depois. E, novamente, com lágrimas nos olhos viu que as crianças de outrora haviam se tornado adultos, e agora, escreviam e-mail's e falavam ao telefone celular. Talvez por isso, acabaram por falir os órgãos vitais do professor Leopoldo.
É o que em geral ocorre quando um homem se vê aquém dos seus sonhos.
O professor Leopoldo, entretanto, era daqueles que acreditava que "o homem não foi feito para a derrota. Ele pode ser destruído. Mas não vencido". E sabe-se que o professor não era chegado em literatura americana tida por ele como previsível e superficial. Preferia a brasileira, feita de sonhos que jamais se realizam. Afinal, perguntava-se, do que vive o homem?
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