A dor de não perdoar Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Adriana Almeida, em 17-08-2008 13:07
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Já compararam a vida a um trem que para em várias estações e, nestas paradas, você nunca sabe quem vai subir, quem vai descer ou qual é a do seu ponto final.
Também disseram que nem sempre pode escolher quem vai sentar ou seu lado, mas pode passear entre os vagões e ir conhecendo outros passageiros.

Só esqueceram de comentar das vezes em que, durante a viajem, damos as costas pra alguns dos que estão do lado.
Isso dá-se nos momentos em que as idéias divergem e, por orgulho ou arrogância, nos sentimos os donos da verdade e ficamos a esperar que o outro manifeste seus pedidos de desculpas.

Aconteceu comigo.
Meu avô, descendente de espanhóis, um homem que cresceu no campo, lidando com a terra e com bichos (era fazendeiro), tinha fama de homem rude, machista e que nunca tinha tido um ato de carinho para com os filhos e menos ainda com as filhas.
Cresci ouvindo os parentes comentarem a rispidez de comportamento do meu avô, viúvo desde os meus dois anos de idade.

No entanto, quando eu ia à ele pedir-lhe a benção, ele fitava meu olhar profundamente, com seus belos olhos azuis e sorria ao beijar minha mão ... impossível não sorrir de volta, ao contemplar aquela expressão de tanta paz.
E eu, pequena mas observadora, ficava confusa lembrando dos comentário que ouvia e sem conseguir acreditar que aquele homem de olhar tão carinhoso fosse o outro de quem tão mal falavam.

Apesar dele nunca ter me pego no colo, nunca ter tido comigo conversas de avô pra neta, eu sempre me senti especial e querida, só com aquele olhar e sorriso que dele recebia ao lhe pedir a benção.
Às vezes achava que ele era um incompreendido. Era essa a única explicação que eu encontrava.

Anos depois, grávida do meu primeiro filho, observei de longe uma cena que revoltou-me.
Meu irmão caçula, com pouco mais de três anos, brincando no jardim, pegou o prato de água do nosso cão e molhou os pés do meu avô.
Este, sem pensar duas vezes, ergueu-se lentamente nas suas pernas já cansadas pela vida, encheu novamente a bacia de água do cão, despejou-a sobre a cabeça do meu irmãozinho e ainda deu-lhe uma pancada(leve) com a mesma na cabeça.
Meu irmão pôs-se a chorar, e eu vi meu avô voltar a sentar-se na cadeira com um riso de canto de boca ...

Não sei se pela gravidez, que mexe muito com as emoções de uma mulher, ou se porque aquele não era um bom dia pra mim, mas ver tal cena tornou ‘real' todas as historias que ouvi acerca dele. Achei-o estúpido e grosseiro. Pensei logo ‘com meu filho ele não vai fazer isso, se um dia fizer ... ‘

Depois desse dia, os olhos azuis não tiveram mais encanto sobre mim ...
Continuei pedindo-lhe a benção sempre ao chegar e ao me despedir, e ensinei meu filho a fazer igual ... mas não tinha mais, por ele, o carinho de antes.
Depois daquele simples gesto de ‘violência' com meu irmão, que, na inocência da sua primeira infância fez aquela infeliz brincadeira com o avô, eu passei a vê-lo com os mesmos olhos com que todos o viam.

Meu filho tinha pouco mais de um ano quando meu avô adoeceu.
Foram dias infelizes pra minha mãe, que cuidava dele. A doença não tinha melhora e agravava com o tempo e com a teimosia dele. Diabético ele saia de casa às segundas feiras pela manhã rumo ao centro da cidade, comprar alguma coisa e visitar uns conhecidos, como fez sempre durante todo o tempo que morou com minha mãe. E na volta trazia escondido consigo um quilo de açúcar ou alguma outra coisa doce e o guardava em seu quarto, pra saciar a vontade que a privação lhe dava.

Ele foi um homem forte até chegar essa doença. Caminhava 4 km por dia, todas as segundas feiras, nunca foi de ficar quieto num canto, era sempre ativo, esbanjando saúde.
Depois ficou ‘murcho' ... triste. Já não conversava tanto. Movimentava-se com mais dificuldade.

Uma vez quando visitava minha mãe o encontrei caído no jardim, sentado de muito mau jeito sobre uma das pernas. Ele tentou subir um pequeno degrau de pouco mais que 10 centímetros, mas a fraqueza do corpo não o permitiu.
Eu, fraca, não conseguia erguê-lo. Não havia outros por perto. Eu precisava de ajuda, mas não queria deixá-lo sozinho.
Nessa época ele já não falava mais, mas eu tinha consciência de que era capaz de me entender. Não queria assustá-lo com meu desespero, mas queria urgentemente tirá-lo daquela posição. Sei lá a quanto tempo ele já estava assim ...

Eu gritava por minha tia e pelo rapaz que cuidava da roça de minha mãe, e em seguida olhava pro meu avô e falava ‘vô, esta tudo bem, não fica com medo, a gente vai tirar o senhor daí' .. os olhos azuis me fitavam com uma expressão perdida, distante ... eu sentia que meu avô de antes não estava mais dentro daquele corpo .. não como ele era .. não como eu sempre lembrei dele.

Meus gritos não foram suficientes, ninguém veio ao nosso socorro. Falei pra ele esperar, que eu voltava logo. E corri pra dentro de casa, chamei minha tia, ela foi atrás do Beto e enquanto isso voltei pro meu avô pra não deixá-lo sozinho, pra ele não se sentir desamparado ... mesmo sabendo que, pela esclerose que já sofria, aquilo podia não significar muito pra ele.

Enfim, vieram e o levaram pro quarto. Beto é um homem forte, fez isso sem maiores dificuldades.
Ver a fragilidade do meu avô, que sempre foi tão independente e saudável, mexeu comigo.
Mas penso que herdei o ‘orgulho' da família, e não dei o braço a torcer. Ainda não o perdoei e não voltei a olhá-lo com carinho.
Orgulho fere quem sofre ... mas mata por dentro quem o aplica.

Um tempo depois ele foi internado ... estava muito mal.
Passou alguns dias no hospital. Vieram os filhos de São Paulo, Pernambuco .. todos que estavam espalhados, um tio que eu nem lembrava de conhecer .. todos vieram para vê-lo.
Minhas irmãs, meus pais, iam constantemente ao hospital e me davam noticia de como ele estava .. mas eu nunca fui.

Pensava nele, mas não queria ir. Aí já não sei se era só pelo orgulho. Acho que era também porque eu não queria vê-lo acamado. Já mexeu demais comigo vê-lo caído no chão. A idéia de vê-lo mais debilitado ainda sobre o leito de um hospital não me agradava.

Uma noite sonhei com ele.
Sonhei que estava na casa dos meus pais e ele encontrava-se sentado ao sofá assistindo TV. Detalhe: ele nunca foi de sentar ao sofá pra ver TV com a família .. sempre assistia sozinho no quarto dele.
Eu, no sonho, despedia-me dos meus pais, estava de saída, e com meu filho no colo dizia pra ele dar o beijo dos avós e eu também lhes pedia a benção.
Era quando meu avô se levantava e vinha a mim dizendo ‘e o meu beijo, eu não ganho?' ....
O choque daquela cena foi tamanho que eu despertei no meio da noite, e aquela frase não me saia da cabeça ‘e o meu beijo, eu não ganho ?' ... um homem que a vida toda foi seco de afeto vir a mim em sonho pedir um beijo ... surreal !

Quatro dias depois meu avô faleceu no hospital ... e eu não lhe levei o beijo que em sonho ele havia me pedido.
Acho que no velório ninguém chorava mais que eu. Chorava de remorso e arrependimento. Vergonha do meu orgulho tolo. A ninguém falei da minha mágoa por ele ou do sonho que tive. Eu o vi, nos seus últimos anos de vida, como um homem rude, mas não conseguia tirar da lembrança o carinho daquele profundo olhar azul.

O que fazer quando o arrependimento bate, mas já é tarde demais pra corrigir ?
Nem tocá-lo, já dentro do caixão, eu consegui, mas aí já não era por orgulho.
É que eu sabia que o corpo estaria frio, sabia que meu avô não estava mais lá dentro e recusava-me a ter essa como sendo a lembrança do nosso último toque.

Com meu filho nos braços eu explicava, entre minhas lágrimas, que o bisa dele estava indo pra uma longa viajem e dizia ‘joga um beijo pro vô' .. e ele pequenino e inocente mandava mil beijos estalando os lábios em sua mãozinha e jogando em direção ao vô ‘dormindo' ...
Chorei tanto que passei mal. Fui pra casa. Não fiquei pro enterro ... não vi o caixão ser fechado, não vi ele ser enterrado .. não sabia nem ao menos onde, em que ponto do cemitério, estava o túmulo dele.

Fiquei em casa com a minha dor por não tê-lo perdoado, a dor de ter me voltado contra ele nos seus últimos anos de vida.
Pensava coisas do tipo ‘eu era a única que o compreendia, e o deixei sozinho', ‘ele me pediu um beijo e eu neguei', ‘eu esperei que ele se desculpasse, mas nem ao menos conversei com ele pra pedir explicações sobre seu ato, nem ao menos expus a minha reprovação para dar a ele a chance de defesa. Acho que ele nunca soube sequer que eu tinha me aborrecido por causa daquilo .. talvez tenha custado até pra perceber que eu estava aborrecida'.

Acreditem, não há consolo que acalme essa mágoa. Não há frase que cure essa dor. Depois da morte, não há ação que possa ser feita pra nos sentirmos redimidos pelas faltas que cometemos contra quem já se foi.
Não há !

Anos depois fui ao cemitério procurar seu túmulo. Chorei muito, sozinha, sobre ele. Pedi perdão pela minha estupidez. Acredito que ele já me tinha perdoado, mas nem isso fez-me sentir melhor ... faltava ter de novo aqueles olhos azuis dentro dos meus.

Alguns anos depois minha mãe estava na cozinha terminando o almoço e lembrou do meu avô falecido. Lembrou que, quando vivo, sempre àquela hora ele já vinha à cozinha e sentava-se à mesa para aguardar o almoço. Ele era tão auto-suficiente enquanto teve saúde que não permitia nem que tivessem o trabalho de o chamarem para as refeições. Ele mesmo se encaminhava e ficava sentado à espera.

E, enquanto esperava, ficava dedilhando os dedos sobre a mesa.
Ela mexia as panelas e lembrava disso, quando ouviu esse ‘dedilhar' ...
O medo paralisou-a. Teve o pensamento de que, por ter pensado nele, ela o atraíra. Lentamente ela voltou o olhar para mesa atrás dela, curiosa, mas temerosa pelo que poderia ver.

E lá estava aquela figura sentada à mesa e batucando os dedos num suave dedilhar sobre ela.
Não o meu avô, mas o meu filho .. meu segundo filho nascido no ano seguinte à morte do meu avô, que nesta época já estava com 2 aninhos.
Eu lembro que quando minhas tias vieram fazer a primeira visita a ele encontraram-me amamentando-o e ficaram paralisadas diante da cena. Diziam que o perfil, a nuca dele, era idêntica ao do pai delas e tiraram o pequeno dos meus braços para admirá-lo melhor. Minha mãe também já tinha dito, logo que ele nasceu, que a semelhança era muito grande.

A minha mãe deu de cara com o pequeno loirinho sentado à mesa esperando o almoço e sorrindo pra ela. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ela foi correndo cobri-lo de beijos.

Será, meu Pai, que foi essa a forma que Deus me deu pra eu compensar a minha falta ? Pôs de novo essa vida em meu caminho, agora em posição de filho, para que eu o educasse e desse a ele o amor e carinho que na vida anterior ele certamente não teve e por isso cresceu um homem tão seco de afeto ?

Eu faço a minha parte. Meu filho é um menino de luz própria. Inteligente, falante e extremamente afetivo. Brinco dizendo que é meu ‘Édipo', porque não sabe estar perto se não for segurando minha mão ou me dando beijos. E agora que cresceu volta e meia inventa de me colocar no colo. Também costuma colher flores no jardim pra me oferecer e quando me vê trabalhando chega perto, da um beijo e diz ‘mãe, eu te amo'. Depois se afasta e volta pras brincadeiras dele.
É uma benção, sem dúvida. E se for quem as tias e meus pais acreditam que seja, então é uma benção maior ainda.

Mas mesmo com toda essa generosidade com que Deus me presenteou, eu não me sinto redimida da minha falta para com meu avô.

A pior de todas as mágoas é a que a não perdoamos quando tivemos chance, e agora não teremos mais oportunidade de o fazer.
Meu avô se foi há mais de 13 anos, e ainda choro quando penso nele. Essa mágoa eu sei que vou levar comigo pro resto da minha vida.
É dor que nenhum remédio cura.
É agonia que palavra alguma consola.
É derrota que conquista alguma compensa.

Se alguém já lhe foi importante alguma vez na sua vida e fez contra você uma grave falta, mas pede seu perdão ... perdoe ... antes que ele desembarque do trem.
Eu tive quatro dias pra perdoar, não o fiz.
Agora terei a vida toda pra me arrepender.


Publicado em : Crônicas, Crônicas
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Comentários (6)
Postado em Lela, em 22-10-2008 23:24, , Membro Registado
Não há consolo... 
(me comoveu demais ele ter vindo em sonho pedir um beijo, um unico beijo... eh lindo a atitude dele)] 
realmente não há consolo, eu sinto por não poder faze-lo por vocÊ... mas alegre-se com a benção que recebeu... pois eh linda... 
Drica, bom, apesar de pouco tempo, você eh uma mulher maravilhosa, super mãe, amiga, companheira, e tudo o mais, não é possivel que os olhos azuis de seu avô não tenha lhe perdoado... acho que sim, acreedito que sim... 
Que você posso se consolar e que ele volte em sonho para lhe aliviar e lhe dar o teu perdão, assim como você hoje o perdoa! Lela
 
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Postado em Fraga, em 18-09-2008 00:07, , Membro Registado
Fica evidente que você daria uma ótima romancista. Seu texto é pungente e mexe com a alma da gente. Não pude deixar de associar determinados trechos com situações semelhantes ocorridas comigo, não necessariamente dentro do tema apresentado. E acredito que essa identificação também deve ter ocorrido com outras pessoas. Nossas vidas possuem um certo denominador comum, fazendo com que vivenciemos situações análogas, com pequenas discrepâncias aqui e ali, não é vero ?
 
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Postado em NiGero, em 13-09-2008 16:28, , Membro Registado
Nem vou comentar, é lindo e triste, tem vezes que não sabemos perdoar, os homens nem a cristo perdoaram, o mataram...beijus Ni
 
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Postado em E.Oliver, em 25-08-2008 12:56, , Membro Registado
Amiga Adriana... 
Foi bom ler este teu conto, entendo que sem vc perceber o teu avô ja lhe tinha perdoado, atéporque acho que faltou vc conversar com o teu sobrinho, ver o ensinamento provocado por tal atitude de seu avô. Pode ter a plena convicção que foi um ensinamento para toda a vida, apesar de vc não compreender à época a magnitude da aplicação da "pena" que se avô impôs ao menino que fez coisa errada.  
Portanto, este sentimento só existe na tua mente, seu avô nem se apercebeu disso. Então ele não tinha o que perdoar, nem vc motivo para pedir perdão. Foi apenas um contraste de cultura.
 
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Postado em Lucelio Garcia, em 22-08-2008 19:51, , Membro Registado
Uma história real triste vivida por você. Note que o "vô" não pediu para o menino pegar a água do cão e jogar nos pés dele e instintivamente ele tomou a mesma atitude do menino. Deve-se levar em conta que o velho era ranzinza com os outros, mas não com você. 
A questão do arrependimento é interior e cada um de nós analisa os fatos de forma peculiar. Tecnicamente falando, devemos perdoar a quem nos tenha feito mal, até porque se não o fizermos, a carga negativa estará somente dentro de nós. O perdão é difícil, mas Deus ofereceu a você a chance de lembrar por toda a vida que o perdão é possível.
 
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