NESSUN DORMA Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por GERALDO JOSÉ COSTA JUNIOR, em 18-08-2008 11:51
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Naquele tempo, os trens ainda cruzavam as ruas do centro da cidade. Era julho, final de tarde. Estávamos sentados num dos bancos da praça da Vila Alemã, marginal à linha férrea. Conversávamos sobre amenidades, até que encontrássemos a melhor maneira e o melhor momento para conversarmos sobre nós. Longe, uma voz poderosa e sublime, cantava uma ária italiana, cujo nome e autor, eu desconhecia.
Meus eram os sonhos acalentados naquele final de tarde. Mas a voz, incomparável, única, era de Luciano Pavarotti.
Num dado momento, ela me olhou nos olhos, e disse: "Por que você não surgiu antes na minha vida?". De repente se fez silêncio, como se o tempo eternizasse aquele momento, como se tudo parasse; mesmo os nossos corações e os nossos pensamentos; e até mesmo o vento e o pássaro cantante escondido numa árvore ali perto. Apenas uma voz, não a minha, não a dela, mas a de Pavarotti, cantando, ao longe. Contudo, mesmo a voz do tenor italiano desapareceu, quando, atrás de mim e dela, passou o trem, célere, apitando, vindo da Estação.
Naquela tarde, eu tive a minha resposta. Fui acometido de perplexidade e inconformismo nos dias seguintes. E logo descobri, que assim como Heidegger, não tenho sabedoria suficiente para transformar a angústia em algo positivo.
Nasci como escritor naquele momento. O momento da dor suprema; quando nos vemos muito além dos nossos sonhos. Abreviar o meu segundo nome, tornando-o primeiro do pseudônimo com o qual assino meus trabalhos literários e jornalísticos, foi o modo que encontrei para perpetuá-la na minha vida, além da lembrança que trago do seu olhar.
Escrever nunca foi difícil para mim. Sempre me exigiu rigor e disciplina, mas nunca me representou dificuldade. Esta, eu fui conhecê-la, agora, quando comecei esta crônica para homenagear Pavarotti e acabei falando sobre um momento único e decisivo de minha vida, do qual, ele faz parte. Já levantei da cadeira duas ou três vezes, já contive o pranto; enxuguei as lágrimas represadas durante tanto tempo, e espero não ultrapassar os 3000 caracteres que, dizem os entendidos, é o que deve se utilizar numa crônica.
Difícil mesmo, foi ter chegado até aqui, 20 anos depois. Foi ter sido vizinho dela durante ano e meio; foi tê-la visto com sua filha caminhando na calçada, enquanto eu caminhava com a minha, na outra; foi ter olhado de repente, em meu redor, e tê-la encontrado olhando na minha direção, mesmo sabendo que não olhava para mim. Difícil é ir algumas vezes a casa de amigos, a casa onde ela morou, pra conversar assuntos nem sempre interessantes, e tentar, com desespero, identificar o cheiro, o olhar dela perdido n'algum canto. Mais difícil que tudo, foi ter desprezado a idéia de um filho que ela, por um instante, considerou.
Ela foi a minha Agnes Von Kurowsky, a inspiração para a Sara de "Sob o manto da noite", livro que escrevi dois anos depois de tê-la conhecido, e tento até hoje publicá-lo, mesmo sabendo que foi apenas o primeiro, que depois daquele, escrevi outros, e bem melhores, mas aquele é especial.
Ela não me deu o amor, mas me fez conhecê-lo. Fez-me escritor. O modo insano e incompleto e destruidor que encontrei para suportar a estupidez da vida humana, que não consigo compreender e muito menos aceitar.
Final de tarde; minha mãe me ensinou que tudo termina num final de tarde. Pavarotti está em silêncio; eu também. E assim permanecerei o pouco tempo que me resta.


Publicado em : Crônicas, Crônicas
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Comentários (3)
Postado em SANTOSH, em 25-12-2008 22:32, , Membro Registado
Amigo, ao final da leitura, sobrou uma dor no peito, inexplicável. Parece que as palavras encontraram uma forma de mexer com coisas, que estão vivas, mas, adormecidas.
 
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Postado em Lucelio Garcia, em 24-08-2008 18:19, , Membro Registado
O trem, a música de Pavarotti, os amigos, a mulher e a filha e o escritor que nasceu naquele momento. 
Assim eu entendi a crônica com todos esses elementos carnais de recordação. Quanto a transformar a agonia/dor em fator positivo é possível desde que hajam ações para este fim. De um modo geral a humanidade vive sofrendo, entretanto, todos os dias vemos pessoas sorrindo, se casando e tendo filhos. Tem um ditado que diz: "Não há mal que não termine e nem bem que não se acabe". Sem querer ser dualista, como já disseram, uns preferem sofrer, chorar e se lamentar, enquanto outros, preferem viver.
 
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Postado em Bruxa dos Contos, em 20-08-2008 22:39, , Membro Registado
Alguns se arrependem do que fizeram. Outros do que nunca tiveram coragem de fazer ... 
 
Independente de terem feito ou não, penso q o pior arrependimento é o daquilo que não tem mais volta ! 
Esse mata ! 
 
Agora isso aqui: 
'não tenho sabedoria suficiente para transformar a angústia em algo positivo.' 
foi falsa modéstia. 
Um sábio amigo q mt admiro disse-me recentemente: 'não devedemos nos envergonhar das virtudes que possuímos. Os medíocres, que nos invejam, esperam isso de nós.' 
 
Você é grande ! Orgulhe-se disso. 
 
Beijo da Bruxa
 
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