| NESSUN DORMA |
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Naquele tempo, os trens ainda cruzavam as ruas do centro da cidade. Era julho, final de tarde. Estávamos sentados num dos bancos da praça da Vila Alemã, marginal à linha férrea. Conversávamos sobre amenidades, até que encontrássemos a melhor maneira e o melhor momento para conversarmos sobre nós. Longe, uma voz poderosa e sublime, cantava uma ária italiana, cujo nome e autor, eu desconhecia.
Meus eram os sonhos acalentados naquele final de tarde. Mas a voz, incomparável, única, era de Luciano Pavarotti. Num dado momento, ela me olhou nos olhos, e disse: "Por que você não surgiu antes na minha vida?". De repente se fez silêncio, como se o tempo eternizasse aquele momento, como se tudo parasse; mesmo os nossos corações e os nossos pensamentos; e até mesmo o vento e o pássaro cantante escondido numa árvore ali perto. Apenas uma voz, não a minha, não a dela, mas a de Pavarotti, cantando, ao longe. Contudo, mesmo a voz do tenor italiano desapareceu, quando, atrás de mim e dela, passou o trem, célere, apitando, vindo da Estação. Naquela tarde, eu tive a minha resposta. Fui acometido de perplexidade e inconformismo nos dias seguintes. E logo descobri, que assim como Heidegger, não tenho sabedoria suficiente para transformar a angústia em algo positivo. Nasci como escritor naquele momento. O momento da dor suprema; quando nos vemos muito além dos nossos sonhos. Abreviar o meu segundo nome, tornando-o primeiro do pseudônimo com o qual assino meus trabalhos literários e jornalísticos, foi o modo que encontrei para perpetuá-la na minha vida, além da lembrança que trago do seu olhar. Escrever nunca foi difícil para mim. Sempre me exigiu rigor e disciplina, mas nunca me representou dificuldade. Esta, eu fui conhecê-la, agora, quando comecei esta crônica para homenagear Pavarotti e acabei falando sobre um momento único e decisivo de minha vida, do qual, ele faz parte. Já levantei da cadeira duas ou três vezes, já contive o pranto; enxuguei as lágrimas represadas durante tanto tempo, e espero não ultrapassar os 3000 caracteres que, dizem os entendidos, é o que deve se utilizar numa crônica. Difícil mesmo, foi ter chegado até aqui, 20 anos depois. Foi ter sido vizinho dela durante ano e meio; foi tê-la visto com sua filha caminhando na calçada, enquanto eu caminhava com a minha, na outra; foi ter olhado de repente, em meu redor, e tê-la encontrado olhando na minha direção, mesmo sabendo que não olhava para mim. Difícil é ir algumas vezes a casa de amigos, a casa onde ela morou, pra conversar assuntos nem sempre interessantes, e tentar, com desespero, identificar o cheiro, o olhar dela perdido n'algum canto. Mais difícil que tudo, foi ter desprezado a idéia de um filho que ela, por um instante, considerou. Ela foi a minha Agnes Von Kurowsky, a inspiração para a Sara de "Sob o manto da noite", livro que escrevi dois anos depois de tê-la conhecido, e tento até hoje publicá-lo, mesmo sabendo que foi apenas o primeiro, que depois daquele, escrevi outros, e bem melhores, mas aquele é especial. Ela não me deu o amor, mas me fez conhecê-lo. Fez-me escritor. O modo insano e incompleto e destruidor que encontrei para suportar a estupidez da vida humana, que não consigo compreender e muito menos aceitar. Final de tarde; minha mãe me ensinou que tudo termina num final de tarde. Pavarotti está em silêncio; eu também. E assim permanecerei o pouco tempo que me resta.
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