Lágrimas de Prata - Saint Marie du Mont (Omaha) Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Brunno, em 20-08-2008 14:39
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O ronco do B-29 era ensurdecedor. Depois de quase duas horas de vôo, os homens em silêncio ou conversando pouco, a noite foi ficando azulada na parte de trás da aeronave.

Gascoin olhou pela janela novamente e sentiu-se feliz por ver sua pátria desanuviada em verde e cinza abaixo deles.
Um soco na porta de acesso para a cabine acordou alguns e despertou outros. Era o piloto. "Cinco minutos! T menos cinco minutos!" gritou. De Bruce levantou e pôs os soldados em pé em direção à porta. Passou em cada um deles apertando-lhes as correias e fivelas e desengatando as travas dos pára-quedas no trilho acima deles. O SAS não saltava como os americanos, faziam o "salto em profundidade", ou seja, queda livre e abrir os velames antes dos setecentos e cinqüenta metros.

Uma luz vermelha deixou a aeronave rubra por dentro. A porta foi aberta. O vento era cortante e voraz. Demot bateu duas vezes nas costas do homem à frente. Jekill respondeu com um sorriso amarelado. Gascoin girou o pescoço para os lados fazendo os ossos estar ruidosamente. Phelps olhou novamente o pente da MVK. Bony tirou um crucifixo de dentro da camisa, beijou e guardou novamente.

Em menos de dois minutos as bolas de fumaças pretas espocavam dos lados da aeronave indicando que as baterias anti-aéreas já os haviam avistado. De Bruce parou diante de seus homens e manteve uma mão na porta.

__Não estendam misericórdia aos seus inimigos, pois lhes será negada. Não sabemos a real situação abaixo, portanto, toda atenção é indispensável. Quem ousa, vence, cavalheiros! Avante!
Um a um os homens foram gritando e se atirando pela porta da aeronave. Abaixo a imensa enseada da Normandia era poeira e fogo. Os homens viam os navios ao largo da costa, cujos canhões trovejavam em línguas amarelas em direção à praia.

Ainda em queda livre, Grills aproximou-se de Bony e Demot, por cima, gritando alguma coisa que, claro, ninguém entendeu. O avião em que estavam havia sido destruído segundos depois de saltarem. O monstruoso B-29 verde-oliva caía aos pedaços diante deles expelindo metal em brasa e combustível fervendo.

Dentro da trilha de destroços, De Bruce encolheu o corpo e girou no ar, mas foi atingido pelos restos da aeronave. O ar girou seu corpo novamente e o pôs de costas na queda. Coube a Stein a manobra de abordá-lo e virar de barriga para o chão.

O comandante do SAS estava consciente, mas seriamente ferido. Sinalizou que tinha condições de aterrissar sozinho e mandou Stein se afastar. Viu seus homens sumindo acima enquanto seus velames abriam rapidamente. Menos de oitocentos metros, puxou a corda e sentiu o tranco reter o curso para o solo.

Conforme o treinamento, que Gascoin e Demot não tiveram, os demais soldados alinharam-se atrás e acima de seu comandante e abriram fogo. A praia de Omaha era o alvo do SAS. Era uma faixa de areia de quarenta metros e uma muralha à frente. Neste acesso à costa os alemães haviam instalado bunkers de concreto e tinham mais munição do que toda Berlim.

Metralhadoras MG42 de 7.92m disparavam projéteis a 755 metros por segundo e numa cadência de mil e quinhentos tiros por minuto. As balas subiam e passavam zunindo pelos soldados pendurados nas cordas.

Gascoin mantinha fogo cerrado e viu quando a primeira lancha de desembarque com tropas americanas bateu o fundo do casco na areia fina. A porta de saída das lanchas era o início da destruição. Como um bando de soldados retidos num corredor, os homens tinham pouco espaço para sair e as metralhadoras tinham de mirar num único ponto.

O marechal alemão Erwin Rommel mandara instalar armadilhas na areia: asteriscos feitos de vigas de aço, pesando toneladas, impediam o avanço dos tanques e blindados aliados. Dezenas deles ficaram até atolados durante anos no mesmo lugar de desembarque.
Os alemães tinham uma grande rede de bunkers no alto da muralha. Esses lugares eram unidos por corredores escavados durante muito tempo e revestidos de madeira. Os homens do SAS pousaram na ponta direita da praia, por trás dos alemães.
Os primeiros norte-americanos a descer e abrir fogo foram a sétima companhia da Easy, toda com pessoal da infantaria e dos recém-criados fuzileiros da marinha, os Mariners. A areia subia a cada bala alemã que descia da muralha o que fechava a visão de cima.
Um grupamento americano chegou à praia trazendo os bangalores que deviam abrir as trincheiras para avanço das tropas, mas foram atingidos por um estilhaço de morteiro 30mm dos alemães. A explosão abriu uma cratera na areia fina a matou quinze homens de uma única vez.
No chão o SAS manteve-se deitado e atirando. Os defensores de retaguarda nem sequer usavam as MG42, foram logo atirando os morteiros, tamanha era a quantidade de munição alemã em Omaha.
Uma das bombas alemãs atingiu uma árvore ao lado de onde os ingleses estavam, o grande carvalho rangeu e despencou sobre parte da proteção de pedra em que estavam o brigando os homens a correr para outro lado.
De Bruce gritava para que fossem logo para um local abrigado dos tiros, Gascoin puxou Demot e correu, Grills levantou atirando e os acompanhou. Phelps e Simpson tinham um lança rojão cada um e ficaram para trás porque alguém tinha de deter aquela chuva de bombas.
__Saiam daí vocês dois! - gritou Bruce, mas foi calado pela explosão que atingiu algum lugar perto demais dos dois homens, os rojões detonaram nas costas deles desintegrando os corpos de mais dois homens do SAS.

Aquele era o primeiro ponto a ser tomado. Os homens acharam uma parede arruinada, porém espessa o suficiente para deter os primeiros ataques. O comandante Marrik olhou rapidamente por cima e baixou de novo.
__Grills, campanário - e apontou para uma árvore uns vinte metros atrás deles - Gasco, Demot, Lions e Stein, o leque de fogo. Winston, Cheston e Erney fazer a recarga, eu vou colar naquela parede e todos vocês protejam o doutor! - aos gritos devido às bombas.
__Ei, Gasco, você costumava vir a essa praia? - perguntou Lions.
__Sabia que essa praia não chama Omaha? O nome dela é Saint Marie du Mont. - preparou para o leque, que consistia em quatro homens atirando em ângulos de trinta graus cobrindo cento e vinte graus de fogo cerrado, enquanto os demais homens ficam abaixados recarregando armas- É para outra Marie que pretendo conquistar essa praia... - e levantou gritando a atirando.
Enquanto os alemães baixavam para se proteger, o comandante do SAS correu até a parede e ficou imediatamente abaixo das aberturas por onde lançavam os morteiros.

Grills havia chegado até a árvore com dez boldriés de cinco tiros cada e uma mira telescópica.
Enquanto o SAS tentava enfraquecer a retaguarda, a vanguarda alemã mantinha os americanos de cabeça metida na areia e respirando terra. Um piloto de um Tanque M-4 Sherman conseguiu passar pelas barricadas e sob uma saraivada inútil de tiros, ativou o canhão de 120mm e destruiu a fachada de um dos bankers. Isso deu tempo para avanços das tropas unidas entre americanos e canadenses.
As praias laterais que compunham a enseada da Normandia foram nominadas de Juno, Sword, Gold e Utah. Estas estavam numa condição de tomada mais favorável, mas a verdadeira entrada para o litoral francês era Omaha. Meses antes do início do ataque, Washington, Londres e a França Livre, haviam interceptado transmissões alemãs que haviam interceptado transmissões americanas, ou seja, espiões espionando os outros espiões.
O que Liv fazia em Londres era receber todas as informações, selecionar e enviar a um conselho que as julgaria e tomaria as decisões devidas, por isso mantinha contato com Moscou. Os americanos e britânicos, ajudados pelos franceses ficaram sabendo que os alemães tinham ciência de que um ataque iria acontecer, por isso mudaram os nomes das praia e enviaram falsas mensagens dizendo que o Canal da Mancha estava aberto a ataques, ou que o desembarque de pára-quedistas seria sobre as tropas de infantaria no interior da Europa.
Mesmo os alemães tendo grande superioridade de armamentos em Omaha, havia enviado homens pouco treinados para o local. Grills foi mandado para o "campanário" para limpar a passagem do comandante, coxo, mas em combate, e manter as janelas livres.
Os alemães pouco treinados sabiam como destravar armas e puxar gatilhos, mas tinham pouca experiência em logística de guerra. "Se você quer paz, prepare-se para a guerra" dizia o homem que treinou o Tenente-Coronel Marrik de Bruce.
Ele mesmo havia imaginado que uma granada de fragmentação dentro daquela janela iria causar estrago, mas não sabia que os alemães haviam deixado as caixas de rojões MPH todas juntas. A explosão dizimou muita coisa. A parede toda ruiu. O tenente ficou abaixo de alguns escombros, machucado, ferido pelos estilhaços do avião, mas ainda ativo.

Grills tinha uma visão privilegiada de dois pavimentos expostos e soldados alemães desnorteados. O leque cravejou as paredes em segundos, agora eram a água do mar, a areia da praia e as paredes daquele bunker, tudo vermelho.
Parte do exército alemão tinha nas costas um ferimento aberto com sangramento ativo e era quase uma hemorragia. De Bruce saiu da pilha de madeira e tijolos com a testa ferida. Acenou para Grills e para os homens protegidos na parede. "Avancem", todos entenderam.
Era hora de invadir. MVK em frente e abrindo fogo. Gascoin sabia que ainda tinha seis pentes na mochila, não sabia como estavam seus companheiros, tinha algumas granadas e uma faca de campanha.
Antes de invadir o prédio semi-destruído, eles olharam Grills. Mão em forma de faca apontada para esquerda; um dedo para cima; mão espalmada para baixo. Subiu mais alguns galhos na árvore e novamente: mão em forma de faca para esquerda; dois dedos para cima e mão espalmada para baixo.
__Entrada à esquerda, um homem no primeiro pavimento, ativo, dois homens no segundo pavimento, ativos. Grills não pode atingi-los dali, temos que fazer isso nós mesmos. - dizia Stein.
__Não é melhor algum dar cobertura e ir com o doutor ver como está o coronel? - disse Demot.
__Gasco, você vem comigo. Alguém tem morfina? - perguntou o doutor. Os soldados de olharam assustados, sabiam que quando um homem precisa de morfina é porque seus ferimentos são grandes demais para sarar. Jekill continuou - alguém tem a porcaria da morfina? - gritando.
__Eu tenho - Cheston passou a seringa montada para o médico, que não tinha a dele porque era viciado, e havia gasto toda ela, antes do salto.
Um dos alemães pôs a cabeça para fora do prédio para tentar divisar a posição dos inimigos e viu De Bruce apoiado nos restos da cerca de arame que circundava o bunker.

Tentou atirar, mas não tinha ângulo, estava alto demais.
__Tem de ser logo, não consigo pegar aquele maldito! - disse Grills no rádio.
Gascoin puxou o médico e começou a correr agachado em direção ao tenente. O olho esquerdo sangrava e doía muito quando ele fazia esforço físico, e tinha de mantê-lo fechado. Pra melhorar o campo de visão virava um pouco a cabeça para esquerda.
Com Jekill a tira colo eles chegaram até a posição de De Bruce. Gascoin puxou o pino de sua gravada e esperou segurando o gatilho sob o polegar. O coronel o deteve a apontou para alguma coisa no chão. Era uma mina terrestre em que Gascoin pisara. Se tirasse o pé ela detonaria.
__Não temos muito que fazer, não é, coronel? - disse Gascoin com o sorriso enviesado.

Jekill aplicou a morfina na perna do comandante escorado na cerca e com sangramento profuso no supercílio direito.
De Bruce riu também. Gascoin puxou o médico contra a parede e ergueu o braço, ficando estendido por alguns segundos. Cheston com os demais homens viu e passou a mensagem para Grills.
O atirador de elite do grupo puxou o ferrolho de sua arma, lambou o dedo e passo na ponta do cano do Fuzil Garand M1, presente dos primos do oeste. Gascoin soltou a trava da granada e atirou para cima.
A mais de trinta metros Grills acompanhou a trajetória da bolota preta e quando chegou ao ponto mais alto da parábola ele atirou. Nova explosão sobre a cabeça dos homens do SAS. Os soldados alemães restantes foram mortalmente feridos e os demais desistiram jogando as Lugers no pátio diante do regimento britânico.
Quando os demais homens levantaram Gascoin acenou para que ficassem onde estavam.

Ainda tinha um problema sob sua bota.

Publicado em : Literatura - Contos, Policial
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