Categories desta Seção

An-Pu - O Papiro de Wadjet (até o terceiro capítulo) Imprimir Enviar para um amigo
Avaliação desta obra: / 1
RuimÓtimo 
 
Escrito por Nicole Sigaud, em 22-08-2008 16:10
Avaliação média    (0 voto)
Visitas 2134    
Favoritos Nenhum

Prólogo

"Estou velho, meus dedos estão rígidos desde há muito. Dolorosamente fechados em concha, como que querendo tapar algo. Deveriam ter-se fechado assim anos atrás, sobre minha boca". O velho sacerdote pensava, sentado diante da janela oriental de seu quarto.

O Sol estava para nascer; era acusado pelos matizes rosados do horizonte, pela bruma levíssima sobre a areia interminável. Nada o fazia dormir bem e repousar desde que a abominação fora morta: algo lhe gritava por dentro, algo que dizia sempre que tudo estava errado, tudo fora feito às pressas, sem pesar as conseqüências. Seria mesmo uma cria a ser eliminada, aquele ser tão passivo e aterrorizante?
Já se vão décadas. Nada fora da janela pareceu envelhecer, e ainda assim todos à sua volta, seus contemporâneos, se foram um a um, corroídos pelo remorso, outros pela sensação de fracasso, e outros - ainda pior - morreram pelo medo da heresia que haviam cometido contra o faraó. Longos tempos errantes aqueles.

O velho olhava novamente para o papiro ricamente escrito contando a história daquele que hoje era já o avô do novo governante. Repassava cada imagem com um carinho minucioso de pai a beleza da narrativa, os traços delicados, mas principalmente inspecionar mais uma vez onde estava a ponta de veracidade daquilo tudo que seria repassado às gerações posteriores. Desistiu de tentar encaixar melhor os fatos dentro da cabeça calva; estava muito, muito cansado. Fechou os olhos para repousar por um só instante, pensou.

No dia seguinte sua múmia começou a ser preparada cuidadosamente, seguindo os rituais de costume. Após os dias dentro do lago de natrão sua aparência não havia mudado muito, uma vez que já era seco, sem músculos ou gordura sob a pele. Por triste ironia dos costumes mais modernos, um de seus vasos canópicos tinha a cabeça do monstro, o qual recebeu parte de seus órgãos velhos. O corpo foi colocado dentro da tumba pertencente à sua família, junto com os poucos bens que lhe sobraram e seu nome foi gravado numa parede de pedra junto com curtas histórias a respeito de suas funções sacerdotais. Em cerimônia curta e desmerecendo totalmente os anos de dedicação à família real e aos deuses, o velho sacerdote foi deixado junto aos seus e a porta da tumba foi lacrada sem despedidas nem saudade.

O manuscrito de sua mesa foi levado rapidamente ao templo principal da capital do reino e lacrado numa caixa, acessível somente aos poucos sacerdotes pertencentes ao círculo iniciático que teve sua origem em Wadjet. Esse grupo restrito foi fundado por um sacerdote cuja morte jamais foi constatada, e o tomam por imortal ou semideus até os dias de hoje.

O que foi deixado a público com o passar dos anos, contado e recontado nas litanias do Livro dos Mortos, foi uma corruptela dos fatos, metamorfoseado de maneira tão radical que da história toda só sobrou a aberração como um deus menor. Ninguém ou nada daqueles episódios tristes foi lembrado; talvez Djehuty[1] preferisse assim, escrever certas histórias sobre a água.

A história contada fora contada antes por um ser que a viveu com a própria criatura, tanto quanto um Oculto [2] pode narrar algo corretamente.

________________________________________
[1] Nome egípcio do deus da escrita, Toth (em grego)
[2] Em árabe, o verbo djanna significa ocultar, velar. Deriva daí o termo djinn, em português ‘gênio'.

- I -
Era de manhã quando ela acordou. Era jovem, de tez escura como a terra e de cabelo grosso e lanoso como todos de sua aldeia, longínqua e primitiva como a maior parte dos pequenos agrupamentos naquela região.
Adentrou a floresta densa seguindo as trilhas que aprendeu desde criança, evitando embrenhar-se demais no cipoal e colher o suficiente que pudesse carregar em seu cesto de palha. Achou mangas boas de colher em galhos baixos; os passarinhos estavam escondidos nos ocos dos troncos desde que o horizonte tornou-se cinza e assim as frutas estavam inteiras. O cheiro de terebintina das cascas das mangas cobria a moça como um véu invisível, não permitindo que ela sentisse o hálito acre do vento que começava a dançar pela floresta e a cantar entre as folhagens, como fazia todos os anos.

Perto da mangueira havia betel, cujas folhas ajudam a enfeitar as mulheres com seu sumo vermelho. Pegou algumas e começou a mastigá-las para embelezar os lábios e dentes. Sentia-se particularmente bonita esse dia; seus seios intumescidos com certeza atrairiam a atenção de um homem essa noite.

Mesmo entre as copas imensamente altas das árvores mais antigas a visão do céu era possível. A moça pôde perceber a Monção se aninhando no céu, com as manadas de nuvens-elefantes se aproximando. O vento dançarino continuava seu caminho, se alimentando da seiva das pequenas ramagens quebradas por seus pés até que, fortalecido, passou a quebrar os bambus para tocar uma música que o acompanhasse. O silvo que acompanhava a vinda das nuvens estava se tornando ensurdecedor.

O céu estava quase todo escuro como noite, e as nuvens já criavam relâmpagos entre si, como se disputassem qual delas iria parir o primeiro raio que anunciaria a época das chuvas.

A moça percebeu que a chuva viria mais violenta esse ano. Não havia um inseto voando, nenhum animal de pelo, penas ou escamas atrevia-se a deixar seu abrigo. Pensou em voltar logo para sua choupana, mas antes abaixou-se para pegar o cesto de mangas que estava pousado no chão. Quando olhou para baixo viu subirem pela sua saia escorpiões acordados pelos movimentos de seus pés sobre o ninho. Tentou gritar, sacudir-se e correr, mas o veneno dos sete escorpiões furiosos deixou-a prostrada no solo.

Antes de perder a consciência sentiu o ardor de sua perna cravejada de feridas e poucas gotas grossas de chuva lhe serviram de lágrimas.

Enfim, o primeiro raio estalou ao longe e as nuvens se deixaram desabar sobre a floresta. Na aldeia deram por falta da moça, mas a chuva já caía pesadamente. Lamentaram sua sorte, pois a travessia por entre a água espessa que caía era penosa, com o chão escorregadio e lamacento.

O vento que dançava parou por uns momentos e apreciou o espetáculo de suas irmãs no céu. Tomado de súbita inspiração, ordenada pelas Senhoras das Tempestades, o vento silenciou tudo à sua volta e suspendeu a queda das gotas. Isso formou uma capa irisada de água acima do solo, como um lago flutuante, com a mão do vento suspendendo as águas em um turbilhão lento, enfeitado pelo brilho das gotas que ainda caíam sobre ele.

Na aldeia perceberam a parada repentina das chuvas. Olhando para o céu viram, com horror, um quase mar se formando sobre eles e começaram a chorar de desespero pelo céu em fúria. Todos se encolheram e se abraçavam esperando pelo pior.

O vento dançarino, ainda sob as ordens das Senhoras das Tempestades, alcançou a moça com um de seus longuíssimos braços. Desnudou-a e a colocou deitada de costas, mostrando assim toda sua beleza. Olhou com ternura seu corpo brilhante de suor e chuva, e começou a prepará-la para seu matrimônio incomum.

Cobriu-a com uma fina camada de terra úmida nos braços até o pescoço, depositando em seu ventre folhas mortas e flores circundando e cobrindo seus seios, rosto, entre os cabelos, e raízes com musgos delicados sobre suas pernas e quadril. Entre e abaixo de suas pernas entreabertas, colocou cascas finas de árvores como um leito nupcial, não deixando uma única mecha de seus cabelos sem um enfeite digno de uma noiva das matas, jovem e fértil.

Alheia ao prodígio, uma alcatéia rondava o local próximo ao da moça semimorta iniciando seus jogos de acasalamento, inspirados por um súbito desejo coletivo e fora de época. Brincavam ao som dos trovões cada vez mais próximos, sem se incomodar com os lampejos que reproduziam o clarão do sol oculto pela massa cinza que parecia cobrir o mundo inteiro e pelas águas flutuantes em giro lento.

Um casal entrou em acordo e se afastou do grupo para a cruza. O local escolhido foi ao lado da moça, que recendia a musgo fresco e flores, aos pés de uma árvore Tulasi, sagrada na região. O macho cobriu a fêmea e se preparou para fecundá-la perto do emaranhado de raízes.

Com precisão divina, o vento dançarino tirou o suporte do lago celeste e fez a árvore Tulasi ser arrancada pela metade com a força das águas, tombando. O lobo, em cima da fêmea, teve como última sensação seu gozo e sua espinha se partindo debaixo do tronco centenário. As águas, enfim libertas, despencaram com violência carregando o sêmen do lobo à moça com força, junto com a energia vital do macho agonizante, fazendo-a ser fecundada. O vento, então, tendo cumprido sua tarefa, dançou enlouquecidamente, arrancando do lugar tudo o que via, desafiando com impertinência os raios a cumprirem com sua parte nesta tempestade singular.

Enfim, num espasmo, duas mãos com dedos de relâmpagos agarraram aquela porção de terra e arredores, revirando-a como faria um enorme arado, pulverizando a pequena aldeia. A moça, assim, foi misturada às raízes das árvores e protegida por maciços de troncos ocos. Seu corpo prenhe foi desta forma alimentado como se houvesse voltado ao ventre de sua mãe, com raízes finíssimas e delicadas como teias lhe entrando pela pele e lhe nutrindo com a vida dos de sua aldeia e do lobo, como havia sido ordenado pelo vento, que continuaria perto dela durante toda a gravidez.

As chuvas continuaram a cair pesadamente enchendo o Ganges, que tornou-se uma torrente de detritos, animais mortos e toda sorte de imundícies.

Durante nove meses o corpo da mulher foi mantido como coisa intocável por todos os seres daquelas matas, pois carregava dentro de si a Criança das Monções. Ao fim deste tempo foi dada a ela a bênção do descanso: seu ventre rompeu-se já semiputrefato e desta corrupção foi expelida dentro da terra a criança, que tinha os traços dos pais. Enfim o vento igualmente descansou e retirou-se para a montanha gelada Koh-I-Noor, seu lar e refúgio, para lá permanecer em merecido descanso.

O choro do bebê recém-parido foi abafado pelo sofrimento do sufocamento. Debateu-se lutando pela sua sobrevivência, chamando a atenção da alcatéia agora defasada de um macho que havia morrido nove meses atrás. As fêmeas mais velhas farejaram a carne podre da moça, que tinha também um odor de filhote misturado. Aproximaram-se da cova e perceberam um estranho movimento na terra. Cavaram rapidamente, por curiosidade. Descobriram, com enorme espanto, uma cria estranha, mas definitivamente da raça delas. Lamberam o filhote meio desmaiado de fome e falta de ar e cortaram seu cordão umbilical, que já estava perigosamente corroído pelos besouros subterrâneos.

Por motivos que somente as fêmeas podem explicar, uma delas dispôs-se a amamentar esse filhote estranho com se dela fosse. Assim este ser híbrido começou sua vida sobre a terra.

- II -
O lobinho aleijado e feio cresceu fisicamente rápido, mas mentalmente, aos quatro anos de idade, agia ainda como um filhote, fraco e desengonçado. Não arcava com suas responsabilidades e deveres, tampouco suas unhas cresciam o suficiente para cavar sua toca, nem corria de quatro bem o suficiente para caçar por ter pernas traseiras grandes demais. A ele coube o chamado de três ganidos curtos, e assim seu nome, entre os lobos, era Wep-wa-wet.
Para todos, em especial sua mãe, era um estorvo e um membro inútil no bando. Como macho, nenhuma fêmea o considerava como possível parceiro e aos olhos dos outros machos era igualmente um rival em potencial, apesar de fraco.

Havia o costume de os machos e fêmeas mais velhos reunirem os filhotes para assistirem a caçadas para no futuro acompanharem os adultos na empreitada. O líder da alcatéia posicionou-se junto com os outros, em formação de emboscada e cerco a um urial[1] na clareira do nordeste do território dos lobos. Na clareira seria fácil forçar o animal a embrenhar-se na mata e diminuir a sua velocidade de fuga por causa de seus enormes chifres, que com certeza iriam se chocar contra galhos e cipós, além das raízes escorregadias para cascos. Estando contrários ao vento, esgueiraram-se nas suas posições de cerco. Wepwawet observava tudo atentamente, à distância, junto com os outros filhotes igualmente hipnotizados pela excitação.

Analisando a formação ordenada pelo líder, o jovem lobo concluiu que havia uma brecha pela qual o urial poderia se desvencilhar e correr para campo aberto, onde era mais ágil e poderia assim se refugiar ao longe no sopé das montanhas. Ao sinal de início da caçada, o urial foi cercado, e afinal houve um erro na estratégia. Os lobos corriam como raios e o carneiro, em rota irregular, resvalava nas pedras e arrancava nacos de terra com os cascos em cada volteio e curva fechada. O jovem Wepwawet havia corrido para alguns metros adiante do caminho de escape e saltou sobre o carneiro assim que este estava correndo com a cabeça ligeiramente voltada para o grupo caçador, não vendo seu predador pelo canto do olho e sem possibilidade de mudar a trajetória da corrida. O infeliz teve tempo somente de sentir o cheiro do lobo por uma fração de segundo e seu coração explodindo de medo.

O lobinho, com seu corpo grande contra o carneiro de somente um metro de cernelha, cravou seus dentes certeiramente na jugular do animal, dominando-o sem qualquer problema enquanto esperava que o urial desse seus últimos estertores. Se dependesse dele somente a caçada seria um desastre, por não conseguir correr muito bem, mas sua intuição de distanciamento e noção espacial eram uma excelente compensação para sua inabilidade física. Ainda com o pescoço do urial em sua boca, viu que os adultos chegavam devagar para perto dele. Ele estava exultante, sentindo-se importante por ter salvo a caça do dia, não notando que todos os lobos à sua volta estavam furiosos. O líder em especial, espumando de cansaço e frustração, aproximou-se de Wepwawet, rosnando para aquele a quem enxergava como não mais que um ladrão de comida.

Largando o urial já morto, pensou ter feito algo maravilhoso por ter salvo a caçada, mas ao invés disso foi atacado com ferocidade pelo líder e outros machos mais velhos como se fosse um inimigo, e não um filhote do mesmo bando. Não conseguia defender-se das investidas raivosa que vinham de todas as direções. Mesmo que pudesse se defender, sua perplexidade era tamanha que sua submissão aprendida desde bebê tomou todo seu corpo e mente. Praticamente deixou-se surrar, somente chorando e ganindo à medida que seu corpo era violentamente mordido e arranhado.

Muito machucado, foi deixado na mata por todos, e sua volta à alcatéia foi penosa devido aos ferimentos nas pernas e braços. Seu focinho sangrava por causa do corte no lábio e suas orelhas quase foram rasgadas, mas o que mais doía era por dentro, a sensação de injustiça e perda do pouco respeito que tinha por parte dos adultos.

Demorou muito para conseguir chegar ao seu lar, perto de sua mãe, aninhando-se perto dela para receber alguma lambida ou afago de piedade. Esta, por medo do macho-alfa, não deixou seu filho adotivo permanecer no ninho perto dela. A fêmea, mesmo condoída e confusa, optou por não cuidar dele, virando-lhe as costas e deitando-se ao redor dos filhotes mais novos. O jovem lobo, assim rejeitado, sequer teve o direito de comer uma parte da caça e foi dormir ao relento, tremendo de frio e dor; os lanhos em sua pele eram profundos e extensos, fazendo com que não encontrasse posição para se deitar sem que alguma parte de seu corpo doesse muito.

Passou-se o tempo e o lobinho feio, agora com muitas cicatrizes e alguns vermes nas feridas maiores das costas, aos poucos voltou a poder dormir junto à sua mãe e irmãos mais novos. Mesmo assim, sua mãe não lhe limpava as feridas ainda abertas e era constantemente vigiado pelos adultos machos e suas idas às caçadas didáticas foram impedidas desde então. Assim sendo, o jovem lobo nunca pôde realmente aprender a caçar e conhecer as instruções de caça em bando. Com isso, sua parte de comida era sempre a última. Com esse tratamento declaradamente hostil Wepwawet enfraqueceu fisicamente, fazendo com que se recuperasse muito devagar dos maus tratos. O pior dos machucados, no entanto, não era visível por estar em sua alma e o fazia definhar aos poucos por não saber para onde ir ou o que fazer para receber atenção de sua mãe e dos outros adultos da alcatéia.

Quando as fêmeas entraram no cio ele cortejou sem sucesso uma das lobas mais jovens. Sendo um mau espécime de macho e avançando cedo demais na fêmea, ela o repudiou, mordendo-o forte para se livrar do incômodo e ululando de indignação. Isso atraiu a curiosidade dos outros e a raiva reprimida deles.

Os lobos machos mais velhos juntaram-se ao redor dele, rosnando, liberando seu repúdio ao ser deformado, que do pai só havia herdado a cabeça e a cauda. Mostraram todos os dentes do nojo e começaram a atacá-lo novamente. Nem mesmo sua mãe pôde acalmar os ânimos de seus companheiros e teve que se conformar com a visão de seu filhote adotado ser achacado e machucado daquela maneira até pelos membros mais jovens, excitados com a ira que tomou conta do grupo descontrolado. Afinal, ela era de classe inferior, parente colateral da líder; sua posição social era frágil demais para ir contra a vontade do grupo. Além disso, tinha seus outros filhotes para cuidar e Wepwawet já estava em idade de se manter por si mesmo. O instinto maternal voltado às crias mais novas foi mais forte do que o senso de proteção a um indivíduo tão mal-quisto por todos.

O filhote enfim foi perseguido pelos machos por uma grande distância, propositadamente com metros de recuo até que ele chegou aos limites do território do bando. Como ao menos conhecia os conceitos básicos de comportamento e hierarquia, sabia que jamais deveria novamente aproximar-se das marcas de unhas e urina do macho-alfa, sob pena de possivelmente levar outra surra ou ser morto pelos adultos caçadores. Tornou-se um proscrito como tantos outros.

Não era incomum um expulso solitário ser visto vagando pelas florestas. A tendência deles, no entanto, não era de procurarem abrigo junto a ouras alcatéias, mas sim de perder o senso de sociabilidade e descer ainda mais na hierarquia dos lobos. Freqüentemente, no entanto, morriam pouco depois da expulsão, de fome ou num embate contra outros lobos ou mesmo um tigre. Raros eram aqueles que, por ter índole mais amena, encontravam companheiros e formavam família novamente.

Vagou por um tempo circundando os limites do território, querendo ouvir novamente a voz de sua mãe. As noites vinham rápidas, aterradoras para quem tinha o corpo tão grande e a mente de uma criança. Encolhia-se como uma bola ao lado de uma moita de capim, para proteger-se do frio úmido. Sentia falta do ressonar de seus irmãos mais novos, principalmente do calor de seus corpos. Nas primeiras noites dormia por exaustão e fome depois de lamber os arranhões e mordidas que levou.

Um dia, ao nascer do sol, instintivamente procurou um córrego, e por ele seguiu até ter certeza de que estava longe de qualquer marcação do território agora proibido para ele.

Sentiu cheiros estranhos e novos, atiçando-lhe a curiosidade de jovem. Em um monturo e fezes e urina sentiu um odor vagamente familiar, algo que lembrava a ele mesmo, talvez. Uma coisa qualquer no fundo de sua memória havia despertado o sentimento agridoce e novo que experimentava agora. Os animais que produziram aqueles dejetos deixaram igualmente rastros. O jovem lobo seguiu uma quantidade considerável desses rastros novos até chegar próximo a um grupo desses animais estranhos.

Ficou olhando de longe, vigiando e sentindo no ar cheiro de comida, que superava seu medo de se aproximar mais. Viu então um desses animais, finalmente. De pé, andando sobre as patas de trás, não como os macacos da floresta, com o auxílio das mãos, mas ereto, e sem perder o equilíbrio apesar da ausência de cauda!

Wepwawet olhou suas próprias mãos, uma depois a outra, e as comparou com as daquele ser. Olhou-se longamente nos pés, pernas, quadril, barriga, parte do peito um tanto mais peludo do que o do outro animal, e por mais que se virasse não conseguia enxergar o resto a não ser sua cauda de pelo fulvo com toques de cinza, que traía sua origem meio humana. Tirando esse detalhe não pôde ver diferença entre seu corpo e o dele.

Ficou maravilhado com os outros animais daquele bando. Adultos e filhotes, todos barulhentos, correndo ou andando sobre as patas traseiras. Por um instante sentiu-se afim a essas criaturas, mas seu medo instintivo gritava para afastar-se de lá, o que fez, mas não para muito longe. Queria ver mais, investigar mais, tocar um deles, talvez.

Durante dias comeu pouco por não saber caçar direito, abordando desajeitadamente qualquer coisa que parecesse comestível. Conseguiu, a muito custo, um grilo amargo e cheio de espinhos nas patas, que machucaram sua gengiva. A rã foi mais fácil de capturar na beira do rio, de carne não muito ruim. Água não lhe faltava, no entanto; ao menos de sede não padecia perto daquela água corrente.

Por todo esse tempo rondava a aldeia, atrevendo-se um pouco mais à noite, quando chegava mais perto do que julgava serem tocas de palha e barro. Via restos de comida perto das fogueiras e pegava guloso as sobras de carne queimada e ossos. Durante o dia se afastava novamente, e sua atenção fixou-se no macho-alfa daquele bando. Algo dentro do lobinho dizia que era preciso aprender a se comportar como aquele macho, ou ao menos tentar; fazendo isso talvez o adotassem. Nos dias que se seguiram observou o homem a uma certa distância, por medo de rejeição, desconfiança natural e um respeito incipiente.

Aos poucos foi se acostumando com as vozes e os sons variados daquele grupo de hábitos estranhos, começando a perceber a relação entre alguns sons e atos seguintes. Aprendeu de cor alguns sons e seus significados, fazendo sua admiração pelo bando aumentar junto com sua vontade de pertencer a algum lugar. Afinal, achava-se parecido com eles e também tinha pele escura com cor de terra molhada. Estava cansado e triste por ser um proscrito; sentia falta de família e companhia para brincar.

Passou a se afastar com freqüência para uma clareira longe da aldeia e ficar de pé, cambaleando para tentar andar sem ajuda das mãos. Com os braços meio afastados do corpo ficava mais fácil equilibrar-se, e batia palmas de alegria quando dava passos que julgava satisfatórios. Sentado no chão, brincava com suas mãos e pés, ainda se maravilhando com qualquer descoberta nova sobre si mesmo. Adorava ver as borboletas e aves voando, mas gostava especialmente de apertar a lama do rio para fazer filetes de água escorrerem por entre os dedos. Mesmo tendo mãos humanas seus movimentos eram rudimentares. Não havia conseguido ainda usar seus dedos separadamente e seu polegar para segurar objetos pequenos como aquele ser da aldeia. Ainda usava os dentes para segurar algumas coisas, o que o deixava muito frustrado.

Abrir as mãos e treinar seus dedos de pele engrossada ao longo dos anos andando de quatro foi uma tarefa no início difícil, mas depois de dias de obstinação conseguiu colher uma lâmina de capim usando seu indicador e polegar. Dia após dia treinava um pouco mais, apesar do desconforto que sentia nas mãos por causa dos novos exercícios com elas. Suas pernas e quadris igualmente estavam doloridos por andar ereto. Passou a ensaiar pequenas corridas desajeitadas e caía muito de joelhos, até conseguir um dia espantar um lagarto correndo atrás dele. Estava contente e orgulhoso de si mesmo como jamais estivera antes.

Durante a noite, por baixo da crepitação do fogo, os homens e mulheres cochichavam apavorados sobre a presença do espírito mau que rondava a aldeia; estavam com medo demais para saírem à noite para qualquer coisa que fosse. Os mais velhos diziam que ele tinha vindo para colher as almas dos animais comidos; as mulheres diziam que a criança natimorta de meses atrás era a portadora desse mau agouro. Talvez um sacrifício devesse ser oferecido. Talvez esse espírito quisesse comer carne de alguém, ou um de seus mortos, quem sabe?

Resolveram deixar para ele uma tigela com leite, coisa preciosa para a aldeia. O escolhido para executar tal façanha seria o líder, homem forte e enorme que todas as mulheres queriam para apadrear seus filhos. Era tão alto que chegava quase aos ombros de um gauro, já tinha vinte e seis anos e todos os dentes, nenhum osso partido ou torto. Invejável. E tinha sonhos de um dia levar sua pequena aldeia para as portas da cidade grande de Harappa.

Sua barba ainda curta tinha a mesma cor de sua tanga de fibra de cânhamo cru, cor de capim seco, amarrada com uma trança de fibra. Seu colar com pendente de unha de tigre, relíquia de família, era o único enfeite que portava além do pente de dois dentes que usava para prender em coque a longa e negra cabeleira.

As mulheres, por sua vez, tinham por hábito embelezarem-se de cinzas com gordura em delicadas aplicações na testa, ao redor da linha dos cabelos abaixo dos olhos e ao redor do umbigo, pintavam a ponta de seus dedos e artelhos com o sumo vermelho do betel, fazendo o mesmo nos lábios e dentes. Freqüentemente molhavam as pontas de seus cabelos com a urina da vaca da aldeia, para que as tornassem quase tão resplandecentes e claras quanto o sol. Já as anciãs, já beirando a marca de quarenta e poucos anos, cobriam os seios murchos com as cinzas em marcas verticais. Todas elas, jovens e velhas, portavam o saiote típico das pequenas aldeias daquela região, da cintura até o meio das pernas sobreposto na frente, igualmente de fibra de cânhamo tecido em tear rústico suspenso em galhos baixos de árvores com a urdidura esticada pelo peso de pedras furadas e amarradas nas pontas dos fios. Essa roupa era dada de presente às meninas quando entravam na puberdade, em geral pela avó, ou na falta desta, pela tia ou pela própria mãe, que demorava meses para colher e fiar as fibras e tecê-las. Até esta idade meninos e meninas andavam nus, somente com pinturas feitas com betel e cinza sobre os cabelos como proteção contra o sol forte.

Moravam em estruturas de bambu e palha seca reforçadas com barro misturado com estrume de vaca, em pedaços redondos cozidos em fogo de chão, o que fazia com que as choupanas adquirissem resistência contra ventos e chuvas. Pedras e madeira de corte eram materiais escassos por lá, e usados somente nas aldeias mais abastadas como Harappa, um conglomerado de aldeias que elevou-se ao nível de cidade, tendo atrativos o suficiente para receber imigrantes de aldeias longínquas que, em troca, desenvolveram ciências e artes jamais antes imaginadas.

As colheitas eram já escassas, e não tinham as praticidades da vida moderna, como casas de adobe e escoamento de água. Eram terrivelmente pobres, mas de tempos em tempos tinham acesso às notícias do norte. A última relatava a vinda de imensas aldeias de Arans, mas não sabia se estavam chegando como visitantes ou invasores.

Esses novos tempos eram inquietantes, sem dúvida. Coisas na floresta rondando as casas e gente nova chegando não se sabia de onde. Havia algo que interligava esses fatos: o assombro e o medo. E com esse medo, disfarçado em dentes arreganhados e peito inflado o homem foi à beira da floresta deixar o presente para o espírito mau.
Sem que outros vissem, voltou correndo como pôde para a aldeia. Todos ficaram calados esperando que o ser maligno pegasse a tigela de leite e fosse embora ou ficasse grato a ponto de dar-lhes algo em troca. O lobo, por sua vez, cheirou aquela coisa amarelo-pálida, leite gordo novinho, e lambeu tudo até se fartar. Sua felicidade era imensa, não somente pelo gosto bom do leite, mas especialmente de se sentir mimado assim. Deixou-se deitar um pouco embaixo de uma árvore, olhando para a aldeia até dormir.

Acordou no dia seguinte, refeito, e foi procurar seu agora amigo. Encontrou-o perto de uma pequena fogueira, afiando um galho reto como lança, sentado numa pedra. Wepwawet prestou bastante atenção no que ele fazia; mesmo sem entender o porque daquele empenho do homem, percebeu que era algo muito importante. Quando terminou de fazer a ponta no galho, testou o instrumento avaliando seu peso e a dureza da ponta que havia feito com pedra e endurecendo a madeira ao fogo. Olhou para as copas das árvores procurando caça. Achou um cuco pousado e atirou a lança com precisão, matando o animal. Tranqüilamente, andou até sua caça abatida e pegou a ave; seu jantar estava garantido.

Boquiaberto, o lobinho viu como esses seres caçavam. Usavam instrumentos, ao contrário de todos os outros animais da floresta. Nunca havia presenciado esse tipo de cena, que deixou Wepwawet muito impressionado. Os macacos mais espertos conseguiam jogar contra inimigos ou rivais pedaços de galhos ou pedras, mas nunca havia imaginado ser possível o preparo de algo a ser arremessado, dessa maneira.
Devido à sua pouca habilidade para caçar como sua mãe e irmãos, Wepwawet resolveu que também queria um pau daquele para conseguir sua comida. No entanto, percebeu que lhe faltava o domínio daquela coisa alaranjada que queima. Já tinha visto antes fogueiras na aldeia e fogo na mata por causa de raios, mas aqueles seres pelados criavam essa coisa assustadora e a controlavam como a um animal doméstico, o que era ao mesmo tempo maravilhoso e de uma proporção inatingível para o lobo cada vez mais curioso.

Para um só dia aquilo foi muito proveitoso e dava o que pensar por horas. Wepwawet afastou-se novamente para seu refúgio, ansioso para ter uma coisa de caça daquelas; precisava agora de um galho e de uma pedra. O fogo ele o roubaria depois de uma das fogueiras. Como carregaria nas mãos ou na boca aquela preciosidade era coisa para pensar depois e concentrou-se primeiramente no galho. Achou um, de bom tamanho. Pegou uma pedra e passou a bater no galho tentando imitar o homem. Saíram algumas lascas, que deixou o lobo muito contente; estava no caminho certo. Bateu tanto que o galho se quebrou. Irado, Wepwawet procurou por outro, um tanto torto, mas esse detalhe passou despercebido, e bateu com a pedra novamente, arrancando lascas da madeira até que julgou ter feito algo parecido com a lança que tanto queria. No entanto, ainda lhe faltava o fogo.

Durante a noite as pessoas da pequena aldeia, todos encolhidos em suas choupanas, ouviram o lobo ganir de dor e derrubar alguns utensílios ao tentar roubar uns tições da fogueira do dia. Ficaram assustados e em conjunto no dia seguinte impuseram ao líder que levasse novamente uma oferenda ao espírito mau, porque o leite da última vez o tinha afastado por alguns dias. Contrariado, mas sem demonstrar seu medo, o homem esvaziou o úbere da única vaca Gir que a aldeia tinha - um de seus tesouros -, para fazer a oferenda de noite, novamente.

Com essa segunda tigela de leite Wepwawet concluiu que estava realmente sendo querido pelo homem, mesmo que este saísse em desabalada carreira depois de colocar a tigela aos pés de uma árvore. Muito feliz com isso apesar das queimaduras superficiais de suas mãos, resolveu que era hora de pedir ajuda àquele ser generoso para ajudá-lo a fazer sua própria lança de matar passarinhos. Se lhe dava leite provavelmente poderia pedir para o homem ensinar-lhe a fazer fogo para endurecer a ponta do galho torto e lascado do jovem lobo.

Na manhã seguinte Wepwawet encheu-se de coragem para encontrar-se cara a cara com seu amigo e ídolo. Pegou sua lança crua, motivo de grande orgulho, e procurou pelo homem, que estava novamente caçando. Vendo-o ao longe, o lobo respirou fundo para controlar sua pulsação acelerada e o vago tremor de suas mãos e pernas. Estava cheio de expectativas e inseguranças, mas havia recebido leite dele, o que de mau poderia acontecer? Foi até o homem de pé, se forçando a andar mais ereto do que havia treinado, julgando-se digno de apresentação.

Quando o homem deu-se conta do que estava avançando para si, deu um grito de pavor e ficou estático, lança em riste. O lobo continuou andando em sua direção, já não sabendo bem o que estava acontecendo. Levantou o galho acima de sua cabeça mostrando o seu feito com as mãos humanas que tinha, pois era possível que o homem não as tivesse percebido bem. O homem, por sua vez, em pânico, vendo aquele monstro atacá-lo, cravou sua lança na coxa do lobo assim que Wepwawet se aproximou.
A dor foi imensa, não somente em sua perna, mas em seu coração. Por um brevíssimo momento só conseguiu perguntar-se "por quê?". Todo seu instinto de animal machucado saltou para seus músculos e sua mente infantil nublou-se por completo.

Recobrou seu discernimento ao sentir gotejar de sua boca o sangue do homem e sentou-se ao lado do corpo daquele a quem amara como a um pai. Nunca em toda sua vida havia sentido a ardência de seus olhos dessa maneira tão dolorosa. Ao lado do corpo já começando a esfriar, ganindo baixinho, o lobo pela primeira vez chorou de tristeza.

________________________________________
[1] Ovis vignei punjabiensis, também chamado 'shapo' ou 'arkhar'. Carneiro de chifres enormes e curvos para trás.



Publicado em : Livros, Ficção
Quote this article in website Favoured Send to friend

Comentários (0)

Nenhum comentário

Adicionar comentário

< Anterior   Próximo >