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Ana... Ana Célia, Ana Luíza, Ana Beatriz, Ana Carolina, Ana Maria. Tantas Anas Alguma Coisa! Toda Ana tinha dois nomes. Ela não tinha. Era uma Ana e pronto.
Aninha. Esse era o apelido de cada Ana, mas não da Ana dessa história que era só Ana e pronto. E talvez nem isso. Fazia tempo que ninguém dizia o seu nome... Ela não conseguia lembrar a última vez em que tinham lhe chamado assim, pelo nome, o primeiro, o que a mãe dela tinha posto no registro. Ana da Silva. Mas o nome não é aquele pelo qual a gente chama a pessoa, o que é o primeiro do nome completo e pelo qual todo mundo te conhece?Como é? O nome pelo qual todos te conhecem? Mas... Ninguém conhecia Ana. Ninguém havia notado que ela estava ali sentada no chão, enquanto o mundo todo passava e sequer olhava para ela. E se olhava não a via. Se era assim, a Ana não poderia ser a Ana. Ou poderia?O que faz uma pessoa ter um nome? A mãe dela? Quando lhe perguntavam “Quem é você”? Ana limitava-se a responder: “1131”.Como assim? Seu nome era um número? Ela era apenas um número? Não sei. Ela nunca se havia perguntado se era isso mesmo. Apenas respondia o que era esperado, o que a diretora do orfanato queria saber. Para diretora sim, ela era só um número. Mas... e para os outros? Quem ela era? 1131. Só isso, por quê? Porque ela não tinha dois nomes como toda Ana e era somente uma Ana. Mas se ela era 1131, ainda era Ana?Sim era! A mãe tinha lhe dado esse nome (estava no registro) e ninguém podia tirá-lo dela. Ela não conseguia lembrar-se da mãe direito. Só que chovia. Estava chovendo quando... Ah!Lembrava-se! Da mãe? Não muito, ela não podia recordar-se do rosto, mas podia ver uma mulher morena com um vestido comprido estampado com flores. Não eram flores grandes e horrendas como as da blusa da diretora. Eram, sim, miúdas e pequeninas como botões. Tantas que nem se podia contar. Mas Ana contava. Ela adorava quando sua mãe colocava aquele vestido. Flores brancas e azuis. “Azul é a cor do céu, a casa dos anjos”, ouvira a mãe dizer certo dia. Devia ser um lugar muito bonito. Um dois três... o que vinha depois? Ela não sabia. Não importava mesmo, tinha as florzinhas azuis e isso era o bastante.Mas porque estavam indo embora? Que vontade de gritar: “Mãe ! Mãe! Não leva suas flores embora! Mãe, volta mãe... Mãe? Estava chovendo mesmo naquele dia. Talvez por isso sua mãe ainda não havia voltado. Era só esperar a chuva passar... Era isso que esteve a repetir para si mesma. A chuva ainda não parou. Não dentro da Ana. Quando aquela mulher a puxou pelo braço lá para o orfanato e disse que sua mãe não mais iria voltar, doeu. Foi como se seu coração se enchesse com uma pesada e cinzenta nuvem. Logo, ela chorou. Não, ela não queria ser 1131, ela só queria ser a Ana, mesmo com um nome só! Não precisava ser para todo mundo, seria suficiente se fosse apenas para as florzinhas azuis. Aí, então, a nuvem dentro dela se dissiparia e o sol voltaria a brilhar. E talvez ela pudesse ir brincar no parque. Mas ela ainda estava ali no chão, abraçada aos joelhos, enquanto a onda de pessoas continuava. E ela ainda ali e só.
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