La Brutezza Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Tamara Prior, em 25-08-2008 00:50
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A escuridão do quarto lhe proporcionava cegueira temporária. Permitia-lhe breve sossego. Sem campo visual, sem dor. As circunstâncias obrigaram-no a aprender artifícios como este. Precisava sobreviver à dor. Dor que há muito não era física, apenas visual.

Difícil imaginar o quanto os olhos podem ferir. Ferir a si próprio ou ser ferido pelos olhos dos outros. Inimaginável poder, até que se vivencie. Antes das queimaduras terem-lhe tomado corpo e rosto, não conhecia os poderes do olhar. Pois continuava o mesmo. Mas para o mundo, havia se transformado até os ossos. Da mediocridade à aberração morfológica, pouco restou a não ser ódio. Não dos outros, mas de si mesmo, pois se repugnava acima de tudo. Nos demais apenas irritava os esforços de piedade.

Era incapaz de encontrar sentido; ter sobrevivido ao acidente não passara de uma sádica brincadeira do Universo, como há muito havia concluído. Não via saídas. Ao buscar auto piedade, logo vinha o desgosto.

Animou-se, por um segundo, ao pensar que agora possuía uma característica que o tornava um homem universal, atemporal: a feiúra. Fosse entre hominídeos, antigos, medievais ou modernos, o veredicto seria o mesmo: era feio e deformado. O fogo, de beleza indiscutível, havia derretido pele, carne e proporções. Ria, sadicamente, da ingenuidade de outrora: nunca se achara belo. Mas apenas porque não conhecia os horrores da deformidade.

Buscou, ainda, alívio em outra idéia. Sua vida estava reduzida à previsibilidade: suportar a dor. Nada mais poderia acontecer que o fizesse oscilar. Não haveria mais paixões, alegrias ou maiores tristezas, apenas a dor permanente. Não pensava em ultimar a vida, pois o pior já havia acontecido. Mesmo com a morte, sua figura permaneceria estampada nas lembranças daqueles que o tinham visto. Amedrontava-se, ainda, com a possibilidade de existências deformadas post mortem. “Mais seguro e previsível será permanecer onde estou”, concluiu. Confortar-se na constância da feiúra era mesmo possível?


Publicado em : Literatura - Contos, Ficção
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