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Make your own history - Capítulo 03 Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Nanda Oliviero, em 26-08-2008 12:24
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Meus próximos passos foram bem calculados. Depois da carta de Jack, direcionei ainda mais os meus sonhos, as minhas ambições. Não era mais uma menina e com minha "carta de alforria" pude traçar meus objetivos.
Fui sempre uma excelente bailarina, dedicada e aplicada. Nas produções do colégio sempre me destaquei e rapidamente conquistei os papéis principais. Com este currículo me empenhei para ser aprovada na seleção do Royal Academy of Dance de Londres e consegui. Muitos dos alunos que se formavam na Academia, nas primeiras colocações dos concursos internos e internacionais, promovidos anualmente, são convidados depois a se juntarem ao Royal Ballet de Londres. E este era o meu principal objetivo.

Com dezessete anos já estava morando em Londres e com uma maratona de estudos e práticas, meu talento foi logo reconhecido e, aos dezoito anos, conquistei a participação no grupo principal do Royal, com o papel da pequena Clara de O Quebra Nozes, obra prima de Tchaikowisky.

Dois anos antes de minha chegada a Londres, Luc já estava por lá estudando direito na University College London e não pensamos duas vezes na hora de decidirmos dividir o aluguel de um apartamento na Shaftesbury Avenue, próximo ao Piccadilly Circus, famosa praça de Londres, onde se cruzam as ruas Regent Street, a nossa, a Shaftesbury Avenue, a Haymarket e a Piccadilly, que liga Piccadilly Circus a Hyde Park. E era perfeito, pois estávamos próximos de todo o agito londrino, com os teatros do West End e seus pubs, além da facilidade de estarmos muito próximos de nossas universidades.

Denise também veio morar em Londres para estudar arte dramática. Supertalentosa foi escalada para um importante seriado inglês e esta oportunidade lhe abriu várias portas. No mesmo ano, já estava nos cinemas e depois Hollywood. Nossas rotinas eram intensas e acabamos nos vendo pouco, mas sem perder contato. Até hoje nos falamos semanalmente e os encontros são sempre de muitas fofocas e gargalhadas. Amizade forte e confidências, apesar da distância.

Foram anos realmente incríveis. Os amigos de Luc se tornaram especiais para mim também. Pessoas extremamente cultas, viajadas, inteligentes e logo montamos um pequeno reduto cultural em nossa casa, que sem dúvida se transformou num lar. A família de Luc vinha nos visitar com freqüência e acreditavam que éramos namorados e sempre com medo de enfrentar a família, Luc nunca desmentiu. E esta situação também não me incomodava, pois compreendia as fragilidades do meu amigo e, ao mesmo tempo, me dava uma certa tranqüilidade em rejeitar, de forma delicada, alguns convites para sair. "Desculpe-me já sou comprometida".

Isto até conhecer Hugh, jovem advogado e já professor na University College London. Foi um encontro bem casual no campus, quando fui pesquisar alguns detalhes da minha herança. Elegante, bem sucedido, filho de uma tradicional família inglesa, foi meu primeiro namorado sério, um compromisso. Ficamos seis meses juntos. Meu primeiro tudo. Mas, assim como outros, não despertou aquele calafrio, aquele parar o coração, o corpo tremendo. Sensações que nunca senti. Parece que ninguém estava perto do meu desejo, do meu ideal, aquilo que chamamos príncipe encantado. Mas depois que terminamos, Hugh se tornou um amigo especial e me auxiliou muito nas questões legais da herança. Foi ele quem viajou até Nova York para acertar tudo com Jack. Por isso que no dia em que completei vinte e um anos, Jack recebeu a visita de Hugh em seu escritório. Ele levava uma carta minha e o necessário para que eu pudesse, de uma vez por todas, me livrar deste fardo.

"Prezado Jack, obrigada pelo apoio e incentivo de sempre. A escola, a ajuda financeira, tudo me auxiliou a alcançar os meus objetivos e hoje tenho tudo que preciso. Como já te falei, há alguns anos atrás, nada dos negócios e da herança me interessam e meu advogado tem o necessário para garantir que minha parte fique única e exclusivamente com você que sempre acreditou em mim. Se esta herança também não te faz feliz, faça o que teu coração mandar, doe, venda, aplique em novos negócios, busque o que desejas. Torço por você. Com carinho, Juliet".

Deste dia em diante, minha carreira decolou. Interpretei os papéis principais em vários repertórios da dança clássica, como Coppélia, O Quebra-Nozes, Giselle, Romeu e Julieta, Don Quixote, O Lago dos Cisnes, Branca de Neve, A Bela Adormecida, A Megera Domada. Como convidada também atuei em importantes companhias, tais como: Opera Ballet de Paris, Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Ballet Nacional de Cuba, Ballet del Opera di Roma, entre outras. E entre meus partners internacionais estavam os mais expressivos nomes da dança mundial como Julio Bocca, David Wall, Desmond Kelly, Alexander Godunov, Yuri Klevtsov. Mas minha grande realização foi dançar em Londres, em meu ano de estréia como primeira bailarina do Royal Ballet, com Mikhail Baryshnikov, no clássico O Lago dos Cisnes.

Desde o início, abandonei o nome Juliet Parker Hamilton e consegui, com auxílio de Hugh, adotar o nome Julianne Chartier, sobrenome de solteira de minha mãe. Desta forma, dos vinte e um aos vinte e sei anos, fui reconhecida como a primeira bailarina do Royal Ballet of London, viajando o mundo com as montagens da companhia. Em todos os lugares, Julianne Chartier era considerada, tanto pelo público como pela crítica, uma das mais importantes bailarinas da atualidade por sua técnica, versatilidade, carisma e arte.

No auge da minha carreira, com apenas vinte e seis anos recebi um convite encantador: participar, como bailarina convidada de uma montagem para o American Ballet Theater, primeira e principal companhia de dança dos Estados Unidos. Esta oportunidade foi inesperada e me conquistou por vários aspectos: primeiro por ser o Quebra-Nozes. Este espetáculo foi o primeiro que vi, com apenas cinco anos, na companhia do meu querido pai e numa performance desta mesma companhia. Segundo porque desta vez iria dançar como a Fada de Açúcar, belíssima personagem, com pad de deux e solos incríveis. E, principalmente, por voltar para Nova York depois de tanto tempo.

Mas o que encontrei lá foi completamente inusitado. Em uma cidade, do tamanho de Nova Iorque, o simples fato de estar frente a frente com o meu passado não pode ser considerado simples coincidência.

Em outubro desembarquei em Nova Iorque e iniciei uma agenda intensa de ensaios e compromissos com a companhia de ballet. Teríamos apenas dois meses de ensaios para apenas uma apresentação, no dia 23 de dezembro, como um grande auto de Natal. Aproveitei para visitar lugares e desfrutar as delícias da Big Apple.

No American encontrei um grupo de bailarinos integrados, muito diferente do clima frio do Royal, onde não tínhamos amigos, mas colegas de trabalho e, muitas vezes, concorrentes. Com o sucesso no palco então, numa das profissões mais competitivas e exigentes do mundo, é difícil encontrar cooperação. Mas em Nova York não. Havia bailarinas e bailarinos de várias partes do mundo. Espanhóis, italianos, brasileiros. Todo este sangue latino transformava-se numa competição saudável, pois definido os papéis, todos se tornavam companheiros. Fui muito bem recepcionada, desde o início.

Dediquei-me integralmente ao projeto, ensaiando oito horas por dia. Luc e o novo namorado viriam para o espetáculo e passariam as festas de final de ano comigo. Depois ficaríamos um pouco mais nos Estados Unidos para conhecer Los Angeles e visitar Denise. Além disso, pretendíamos ir todos juntos para Las Vegas.

Estava tudo perfeito até que nas vésperas da apresentação algo inesperado aconteceu. Toda a manhã acordava, tomava um delicioso café da manhã no hotel e saia para caminhar no Central Park. Em especial, naquele dia, acordei sem pressa, pois não teríamos mais ensaios. Amanhã o grande sonho. Estarei nos palcos do Metropolitan, exatamente como falei para o meu pai há mais de vinte anos. Vou aproveitar o meu dia apenas para relaxar, respirar.

Caminhava tranqüilamente nas alamedas do parque quando uma cena me chamou a atenção: um homem segurando pela mão uma menina, que andava nas pontas dos pés sobre uma barra de ferro. Era como se aquela cena fizesse parte do meu passado. Fui caminhando em direção a eles e esqueci completamente o movimento do parque. E o mais improvável aconteceu. Fui atropelada por uma bicicleta. Que dor! Uma pancada na minha perna esquerda. Perdi o equilíbrio, virei o pé direito, cai e bati a cabeça num banco próximo. Meu Deus! Minha apresentação é amanhã. Passou um filme na minha cabeça e neste turbilhão de pensamentos nem percebi o homem que me ajudava a levantar e perguntava se eu estava bem. Não ouvia nada.

- Meu Deus, garota! De onde você saiu? De repente você surgiu na minha frente.
- Desculpe. A culpa é minha. A sua bicicleta estragou? Eu conserto. Quanto será que custa?
- Calma. Olha para você. Você está sangrando. Vou te levar para o pronto socorro.

Enquanto falava, com voz rouca e tranqüila, me ajudou a sentar no banco, tirou o cabelo do meu rosto com delicadeza e foi aí que olhei para ele pela primeira vez. Não acredito! Era Jack. O mesmo olhar, mas não havia mais tristeza. Era confiante e sereno. Olhou diretamente nos meus olhos e mostrou-se intrigado. Eu ainda confusa percebi que balançou a cabeça negativamente. Parece que não me reconheceu, pois imediatamente pegou o celular e ligou para alguém, num misto de pressa e preocupação.

- Marc? É Jack, tudo bem? Você está no hospital? Acabei de atropelar, ou ser atropelado não sei, no parque - silêncio - uma garota. Não, não, ela está bem, mas pode ter quebrado o pé, não sei. Ok! Vou pegar um táxi e chegamos logo.
- Espera. Não precisa. Estou bem. Eu estava distraída e você não tem culpa de nada.
- Não interessa de quem é a culpa. Não vou deixar você assim. Meu amigo é ortopedista e está de plantão aqui perto. Ele é ótimo e vai cuidar de você. Vamos.

Passou a mão pela minha cintura e pude sentir toda a sua força. Meu corpo todo tremeu. Jack! Depois de tanto tempo. E mais lindo do que nunca. Estava mais velho, amadurecido, alguns cabelos grisalhos. Perfeito. Olhar sedutor e protetor. Quanto sentimento junto, misturado. Que confusão! Fiquei tonta, enjoada, e ele percebeu. Segurou-me mais forte. Não tive coragem de me revelar.

- Eu sou Jack. Posso saber teu nome?
- Julianne.
- Você mora aqui perto? Preciso avisar alguém?
- Eu estou aqui a trabalho. Sozinha. Não tem ninguém para avisar.

Chegamos rapidamente ao pronto-socorro e o Dr. Marc Shephard já nos aguardava.
Fiz radiografia, tomografia e fizeram um pequeno curativo na minha testa. Jack esperou e entrou no quarto depois de tudo concluído.
- Agora é só aguardar. O Marc disse que não demora.
- Obrigada. Você está sendo muito gentil. Mas, por favor, você deve estar se atrasando para os seus compromissos. Eu pego um táxi para o hotel e está tudo bem. E sua bicicleta?
- Está ótima, até já recebeu alta.
- Engraçadinho você. Sério não se atrase por mim.
- Meu compromisso agora é você. Relaxa. Pedi para o taxista deixar a bike no meu apartamento. E você? Está hospedada onde?
- No Plaza.
- Hum. Na 5th Avenida. Nada mal. Srta. Chartier. Você é francesa? - perguntou com minha ficha médica nas mãos.
- Não, meus pais são franceses - menti - nasci aqui, mas moro em Londres há muito tempo.
Marc entra no quarto.
- Está tudo bem. Nada na tomografia. O tornozelo também não teve quebra, nem torção, só uma lesão. Você deve ter virado o pé, um mau jeito. Vamos só imobilizar e manter repouso.
- De jeito nenhum.

Falei e já fui levantando. Eles me olharam surpresos. Jack me conteve.
- Calma garota. Qual é o problema?
- Todos - e comecei a falar sem parar - Foi só um mau jeito mesmo. Não foi nada. Já conheço bem o meu corpo, as lesões. Tudo isso é normal na minha profissão - percebendo o olhar intrigado dos dois, continuei - Estou aqui apenas para uma apresentação no Metropolitan amanhã e não há nada, nem ninguém que vá me impedir - percebi a cara de surpresa de Jack quando falei do Metropolitan - Tudo que batalhei até agora se resume ao que vai acontecer amanhã. Desta forma, cavalheiros, obrigada por tudo até aqui. Devo alguma coisa para alguém? Preciso voltar para o hotel, banho de imersão, relaxar e o meu tornozelo ficará ótimo.

- Marc, tem certeza que a tomografia está ok? Ela está tão agitada.
Sorriu malicioso.
- Estou ótima e lúcida. Sei exatamente o que quero e preciso.
- Você é bailarina então? Metropolitan amanhã é o Quebra Nozes e se você está nele, vindo de Londres, é a bailarina convidada.
- Parabéns. Você é bem informado e também sabe ligar os fatos - falei irônica.
- Bailarina e irônica. Bela combinação.
- Escute, Srta. - falou o médico - não posso liberá-la assim. Se forçar, a lesão pode piorar e agora a responsabilidade é minha.
- Dr. Shephard, o senhor tem namorada? - ia usar minhas armas de desespero.
- Sim, sou noivo.
- E ela gosta de ballet?
- Adora!
- Então amanhã terás camarote especial e qualquer coisa que aconteça comigo, o senhor estará lá. Eu assino qualquer coisa eximindo-o da responsabilidade.

Jack observava surpreso. Os dois se olharam cúmplices.
- Marc - disse ele - acho que você está sendo chantageado, mas se eu fosse você arriscava.
- Você também está convidado - falei esperançosa que ele realmente fosse. Iria dançar como nunca.
- Bom Marc, eu já aceitei e você?
- Se eu contar para Lana que recebi este convite e recusei, vou me encrencar. Aceito, claro.
- Ótimo, cavalheiros, estamos entendidos. Só preciso dos nomes completos e serão meus convidados.
Fui me direcionando para a porta enquanto os dois trocavam novos olhares.
- Calma bailarina. Faço questão de levá-la até o hotel.
Despedimo-nos do Dr. Shephard e fomos nos dirigindo para a saída.
- Você espera aqui, sentadinha, que vou pedir um táxi para nós.

Enquanto se dirigia para a recepção do hospital, aproveitei para observá-lo. Estava com os cabelos mais curtos e ligeiramente grisalhos, uma boca bem desenhada, dentes perfeitos, barba por fazer. Sem dúvida era muito sensual, principalmente quando falava, com voz rouca e olhando-me profundamente nos olhos, como fazia no passado. Será que me reconheceu? Não! Ele não deixaria de falar. Ficou intrigado com o meu nome, achou que eu fosse francesa. Definitivamente, não me reconheceu.

- Pronto! Sua carruagem chegou, princesa. Ou será que terás outro papel na peça. Não, sem dúvida, por seres convida deves fazer a principal, a Fada.
- Nossa! Estou surpresa. Você realmente conhece o Quebra-Nozes.
- Minha mãe foi bailarina. Aprendi muito com ela. Surpresa é uma bailarina cair nos meus braços assim.
Bailarina? Essa parte da história eu não conhecia. Lembrei-me o quanto deve ter sido difícil para ele perder a mãe no passado e agora descubro mais este fato. Bailarina. Que interessante!
- Mesmo? Sua mãe bailarina? Será que a conheço?
- Provavelmente não, pois morreu há algum tempo. - percebi o incomodo em falar nisso e rapidamente trocou de assunto - Mas gostaria de almoçar comigo? Assim conheço um pouco mais de você e te conto sobre a minha mãe. Prometo que não farei você forçar o tornozelo.

Adorei a idéia de ficar um tempo maior com ele. Topei na hora, mas sem demonstrar muito entusiasmo. Não queria que ele pensasse que tinha outras intenções, afinal não tinha idéia de como ele era e também estava em Nova York por pouco tempo. Não poderia me envolver. Talvez se não fosse o Jack, uma aventura seria interessante, mas com ele, com o nosso passado, seria doloroso.

- Estou faminta. Almoçar seria ótimo, mas preciso mesmo descansar.
- Com certeza. Não quero te prejudicar, mas você precisa se alimentar certo? Conheço um lugar ótimo perto do hotel, assim logo te levo para descansar.
- Tudo bem. Vamos então.

Pegamos um táxi e, em dez minutos estávamos no Plaza. Auxiliou-me a atravessar a rua. O restaurante ficava muito próximo ao hotel. Fomos bem recepcionados pelo gerente que parecia conhecê-lo de longa data.
- Bom dia Sr. Hamilton. Sua mesa preferida está disponível.
- Obrigado Luigi, mas hoje vou ter que dispensá-la. Minha convidada não pode subir as escadas. Preferimos um lugarzinho por aqui.
Acomodamo-nos numa mesa discreta no canto, muito confortável, com vista para a rua. Puxou uma cadeira para que eu acomodasse minha perna, de forma a deixar o tornozelo alto.
- Pronto. Está doendo?
- Não. Acredito que o analgésico ainda está fazendo efeito. - já com o cardápio na mão, oferecido pelo garçom, perguntei - o que você sugere?
- Aqui temos um problema. Tudo é delicioso. Você tem alguma restrição?
- Nenhuma. - e era a mais pura verdade, pois sempre tive o privilégio de poder comer de tudo, pois meu biotipo permitia. Lógico que procurava uma alimentação saudável e leve, mas com aquele homem lindo me fitando e esperando uma reação, meu apetite estava voraz. - Por favor, aceito sua sugestão.
- Então vamos pedir o macarrão com frutos do mar daqui que é delicioso. Bebidas?
- Uma tônica, por favor.
- Duas então. Obrigado - agradeceu ao garçom - Então bailarina, como você chegou até aqui. Você deve ter o quê? Vinte anos e já é bailarina convidada?
- Tenho vinte e seis e você bem deve saber que na minha profissão começamos muito cedo, então já sou praticamente uma veterana nos palcos, mas em Nova York sim é uma grande estréia.
- Minha mãe também dançou no American. Ela era apaixonada pela companhia, mas largou tudo para casar com o meu pai.
- Deve ter sido muito difícil para ela. Não me imagino deixando o ballet por absolutamente nada. É a minha vida.
- Em Londres você dança em qual companhia?
- No Royal Ballet.
- No coro? Solista? - confesso que fique encabulada para responder.
- Sou a primeira bailarina.
- Nossa! Que honra a minha ser convidado pela primeira bailarina do Royal Ballet de Londres. Definitivamente ganhei o meu dia.
- Porque acho que você faz piada de tudo?
- Desculpe-me. Não tive intenção. Mas é uma delícia provocar você. Fica logo ruborizada. - sorriu malicioso.
- Talvez porque toda essa situação é muito inusitada. Estou aqui falando, falando e falando com um completo estranho. Não sei nada de você. - Menti mais uma vez, na esperança de saber mais dele, de tudo que perdi, mas sem ser indiscreta.
- Estava mesmo imaginando se não me perguntaria nada. - mal sabia ele o quanto queria perguntar.
- Ok! O que você faz?
- Atualmente trabalho no ramo do entretenimento. Organizo produções, eventos.
Meu Deus! Ele está mentindo descaradamente. Eu sei que ele é advogado e administra uma grande empresa do ramo imobiliário. Vou provocar.
- Engraçado, não sei porquê, mas pensei que você fosse advogado. - automaticamente deu uma gargalhada gostosa.
- Srta. Chartier, você é realmente perspicaz, apesar de considerar uma certa ofensa você achar que sou um advogado, considerando a fama que temos. Mas acertou. Apenas direcionei meus conhecimentos e meus negócios para o entretenimento há uns quatro anos.
Jack conseguiu sair das empresas. Como? Por quê? Isso não teria como saber ainda, mas fiquei curiosa.
- Algum problema, Julianne? De repente ficou calada, intrigada.
- Desculpe, mas fiquei apenas imaginando o que te fez mudar.
Jack, que até então estava sentado confortavelmente, apoiou os cotovelos sob a mesa, inclinou-se em minha direção e olhou bem nos meus olhos, falando com sinceridade na voz.
- Eu poderia te contar toda a história da minha vida agora, assim, praticamente com uma estranha e você entenderia os meus porquês - era tudo o que eu queria, pensei. - mas o principal Julianne é que antes eu vivia uma loucura, uma obrigação e não sentia prazer em absolutamente nada que eu fazia. Agora estou vivendo, fazendo o que realmente gosto.
Inclinei-me também, fitando-o e falando com o mesmo tom de sinceridade:
- Pois saiba, que se há uma coisa especial na minha vida, sem dúvida é justamente fazer sempre o que realmente gosto. Houve um período em que fui obrigada a viver numa redoma até que pude respirar. E depois que aprendemos a respirar, parar é a morte.
- Exatamente! - falou sorrindo - Bailarina, acho que temos muito em comum.
Retribui o sorriso com ternura. Com certeza tínhamos muito em comum.

Que tarde especial! Ficamos ali trocando amenidades: contei um pouco das minhas viagens com o ballet e ele conhecia também outros tantos lugares pelo mundo. Trocamos impressões sobre os locais, os pontos turísticos. Em cada detalhe tentei discretamente saber um pouco mais da vida e das atividades profissionais dele, mas foi sempre evasivo. Não estava interessado em revelar-se, mas saber de mim. E lógico, fiquei lisonjeada. Não vimos o tempo passar. Foi o almoço, depois a sobremesa, um, dois, três cafés e, quando nos demos conta, já passavam das quatro da tarde. Esqueci completamente porque estava em Nova Iorque. Meu Deus! Meu tornozelo... preciso me cuidar.
- Jack é muito agradável ficar aqui com você, mas preciso ir. Começo a sentir dor e preciso de um novo analgésico, descansar.
- Claro! Nossa, perdemos a hora mesmo. Vou pedir a conta e te acompanho até o hotel, ok?
Fomos direto para a recepção e me acompanhou até o elevador.
- Obrigada por tudo. Espero te ver novamente.
- Lógico! Amanhã estarei no Lincoln Center e, por favor, trate de cuidar deste tornozelo.
- Amanhã estarei ótima.

Aproximou seus lábios do meu rosto, depositou um beijo suave e deu um passo calmamente para trás. Esperou a porta do elevador fechar e acenou com ternura. Nossa! Depois de tanto tempo. Estava com uma infinidade de sensações, de sentimentos me invandindo. Pela primeira vez senti um certo arrependimento por ter ido embora e deixado de crescer, de viver com ele. Ao mesmo tempo, parece que nossas trajetórias foram muito parecidas e justamente aquilo que nos separou, hoje nos aproxima.


Publicado em : Livros, Romance
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