| Paris, ao anoitecer (Capítulo de abertura) |
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Percebi que aquela não seria das melhores noites, porque há meia hora que o copo estava sobre a mesa, e cheio.
Desde alguns dias a fumaça intensa do cigarro irritava meus olhos, o que não era habitual. Minhas pernas tremiam, as mãos também, não por causa da fome, afinal, o que era isso? Em intervalos de tempo, o mundo girava em meu redor. E esta desagradável sensação, acentuava-se sobremaneira nos instantes em que, submetida a um movimento brusco, minha cabeça parecia pesar cem quilos. Você percebe que, de fato, é um medíocre, quando o melhor que pode fazer é esperar que o tempo passe. E o que fizera eu naqueles últimos meses, senão isso? O bar estava cheio. Naquela noite, Lourenço orgulhava-se de, finalmente, inaugurar a nova iluminação do seu estabelecimento de prazeres etílicos, pois o interior do recinto ganhara cores diferentes e o luminoso, na fachada lá fora, escrevia em letras néon vermelho: Paris Bar, onde começa a sua noite. No balcão, sentado na banqueta central, João Albertino, jovem cineasta, observava as pessoas, talvez, em busca de elementos para compor os personagens do seu novo curta-metragem, em cujo roteiro, trabalhava arduamente, todas as manhãs, havia dois meses. Aquele era um bar diferente, porque tinha a proeza de reunir a escória do mundo e alguns intelectuais. E, é claro, mulher bonita. Por isso, demorei em observar com atenção a moça loira que ocupava sozinha uma mesa de canto. Enquanto eu fumara um cigarro, ela bebera dois conhaques. E o garçon já lhe servia o terceiro, quando apaguei o toco do cigarro no chão, com o pé, e levantei-me para esvaziar a bexiga. Ao retornar, passei bem ao lado da mesa da bonita moça, com a esperança de que ela me dirigisse o olhar, ainda que por um instante. A luz incidia sobre o seu rosto. E pude observar melhor, a delicadeza dos seus traços. Ela vestia uma roupa comum; talvez viera para o bar direto do trabalho. Tinha os cabelos presos, e o olhar cansado, embora, bonito e atraente. Seu nome? "Mariana" - ela disse, sorrindo, antes que eu perguntasse. "De Maria, a virgem concebida?... O teu olhar, de fato, combina com teu nome". - observei, achando-me intruso. "E quem está me dizendo isto?". "O Senhor da Vitória". "Heitor?". "Como sabe?". "Sou manicure. Mas, leio de tudo. Inclusive, dicionário de nomes". "Gostaria de lhe pagar uma bebida, se não se importa". "Eu prefiro um jantar". "Mas acontece que hoje, eu deveria me chamar Hélder". "O duro?". "Realmente você lê muito". "Pra ser sincera, nos últimos dias, não". "Não tem tido vontade?". "Disso, e de muitas outras coisas". "Por isso está bebendo?". "Não exagere. É apenas conhaque". "Mas foram três doses, enquanto fumei um cigarro". "Quem morre primeiro na estória, eu ou você?". "Eu lhe responderia, se eu fosse um escritor". "E não é?". "Gostaria de sê-lo". "Mentiroso. Eu leio suas crônicas no jornal". "Merda! Eu disse ao editor pra que não publicasse a minha foto!". "Você é mais bonito pessoalmente". "São os seus olhos, querida". "Eles enxergam mesmo, qualquer coisa, depois de três doses de uísque". "Não era conhaque?". "Gordon. E acho que não tenho dinheiro pra pagar". "Temos um problema". "Que você, certamente, não poderá resolver". "Embora, gostaria muito". "Mesmo?". "Sim". "Por que um estranho pagaria a conta do bar de uma manicure desempregada, abandonada e falida?". "Porque um escritor sabe ler nas entrelinhas". "Pensei que antes soubessem ler os olhos". "E sabem". "Então me demonstre". "Não sou escritor". "Novamente está mentindo". "Então significa que sou um bom escritor". "Mentindo outra vez". "Não gosta do que escrevo?". "Como posso afirmá-lo se não sei o que você escreve". "Mas disse que lê as minhas crônicas no jornal". "Eu disse?". "Não faz um minuto". "Bem... depois de três doses de Gordon sou capaz de dizer qualquer coisa". Então, pedindo-me licença, ela se levantou para ir ao banheiro. Percebi que o fez com alguma dificuldade. E a pequena distância que a separava do banheiro feminino lhe pareceu infinita. Até chegar lá, derrubou uma cadeira, esbarrou no garçom, e no casal que namorava encostado à parede. Deixara sua bolsa na mesa, e também o raibã, e os dois livros que estava ou pretendia ler. Certas ocasiões, os escritores são impetuosos e obstinados por uma idéia, como cães indolentes e teimosos, que precisam mesmo descobrir que tomada não é focinho de porco. Abri a bolsa de Mariana, sem a preocupação de disfarçar o meu reprovável procedimento e encontrei ali dentro, a foto de um menino loiro, bonito, cabeludo e sorridente; com certeza, o seu filho. "Ele se chama João" - disse Mariana, puxando uma cadeira para sentar-se, algum tempo depois, quando voltava do banheiro. "Como?". "Você, mexendo na minha bolsa". "Procurava cigarros". "Não fumo". Olhei para o cinzeiro abarrotado de tocos. "Seu nariz vai crescer, querida". "Não me chamo Pinóquio, querido". "Não, se chama Mariana". Ela sorriu. "Demoro a esquecer o nome - disse-lhe - das pessoas que admiro". "E o que tenho eu para que me admire?". "És bonita". "Isso não conta. Há vagabundas e assassinos que seriam capa da Playboy, tivessem oportunidade". "Ou um bom agente". "Pelo jeito, você é que está precisando de um". "E o que sabe a meu respeito para chegar a essa conclusão?". "Ganhasse você dinheiro com o que escreve e não fumaria Derby". "O que eu fumaria?". "Cachimbo. Com fumo importado de Cuba. Feito Simenon". Sorri. E não a deixei sem resposta. "Pois saiba que tenho um cachimbo. Presente de meu pai. Ele o usou, periodicamente, até descobrir que já não podia fazê-lo". "Ele vive?". "Sim, depois de amanhã, faz 76 anos". "Que bom! Provavelmente chegará aos 90". "Provavelmente, não. Ele tem diabetes. É hipertenso. E já extraiu a próstata por causa de um câncer". Nesse momento, eu abaixei a cabeça, antevendo, com um nó na garganta, a trajetória que me esperava. A mesma de meu pai. "Mesmo assim - continuei - ele ainda sorri; mantém o seu olhar meigo, e sua inteligência, graças a Deus, continua intacta, o que lhe permite preservar a dignidade". "Você o ama. Isto é bonito". "Sim. Só há dois homens que amo nesta vida". "Dois?". "Meu pai. E meu irmão". "Pois você tem dois tesouros que eu não tenho". "Não tem. Ou não pôde ter?". "Não tenho. Eles não me compreendem. Na verdade, desistiram de tentar". "E você lhes deu motivos para tanto?". "Todos os motivos". "Isso é uma virtude. Reconhecer a culpa. Mas não há caminho sem retorno". "Sim. Minha vida é capaz de provar o contrário". "Sua vida é o que você pensa ser, o que você acredita ser, e o que você faz ser". "Hoje, ela se resume a três doses de uísque". "Poderia representar mais do que isso". "Vai representar. Quando eu me deitar na cama, esta noite, e me lembrar de tudo aquilo que estamos conversando". A mão dela buscou a minha, sobre a mesa. Mas os nossos olhares, antes delas, se encontraram. Preciso ir - disse Mariana, levantando-se, e apanhando sua bolsa. "Posso acompanhá-la?". "Não. Desculpe. Mas eu prefiro assim". Ela já havia distanciado um pouco quando eu disse: "Compre o jornal amanhã. Talvez publiquem a minha crônica". "Vou roubar um". "Roubar?". "Tem idéia melhor?". Mas ela se fora, antes que eu conseguisse responder. Apressada, atravessou a rua, entre os carros, ganhando a outra calçada, seguindo adiante, e a acompanhei com os olhos, até perdê-la de vista. Certo de que seria para sempre.
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