Sobrea a morte e o morrer - comentários sobre o filme "Antes de Partir". Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Carlos São Paulo, em 31-08-2008 12:04
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Fui assistir a um filme cujo nome em Português é "Antes de Partir". Em inglês o seu nome também é muito simples: chamava-se The Bucket List ou a Lista de Botas. Trata-se de um filme com Morgan Freeman e Jack Nicholson, dirigido por Rob Reiner. A película conta a história de dois homens portadores de câncer terminal. Esses homens decidiram viajar juntos pelo mundo, realizando os últimos desejos de suas vidas, ou seja, parece que eles chutaram o "balde" quando souberam da proximidade de suas mortes. Soube que o roteirista Justin Zackham o compilou em duas semanas apenas, por isso a minha curiosidade. Como seria buscar um momento de relaxamento por meio de um filme sobre o tema morte?
A lembrança da morte nos leva a pensar no valor da vida. É como olhar o tempo a devorar, avidamente, nossos muitos momentos de grandes significados diluídos na imensidão dessa lista de acontecimentos na história da vida de cada um. Que lista é essa? No filme, Morgan Freeman é um homem pobre chamado Carter, e Jack Nicholson, um homem rico chamado Edward Cole. Carter tem um comportamento monogâmico e, portanto, é um verdadeiro homem de família. Enquanto Edward é o seu contrário, ou seja, jamais poderíamos incluí-lo nesta mesma categoria. Eles são opostos em tudo, inclusive na cor da pele. Carter acreditava que acreditava em Deus, sem questionamentos, e Edward acreditava que não acreditava em Deus, questionando-o. Mas foram unidos pela "lista" do que sentiram falta de fazer em suas vidas.
Aprendi com a psicologia de C. G. Jung que ao experimentarmos qualquer situação como opostos irreconciliáveis criamos a possibilidade de transcender para uma terceira condição completamente nova. Esta terceira condição é diferente de cada uma das duas outras originais, mas também contém, de algum modo, aquelas mesmas partes opostas entre si. Esse fenômeno aconteceu em tão pouco tempo de conhecimento entre dois homens díspares. Estavam juntos pela situação comum do corpo físico chegando a sua finitude. Por estarem morrendo, uniram-se pelo medo da morte como normalmente fazem os seres humanos. Por que foi necessário existir a experiência da finitude para surgir essa ligação tão estreita entre dois indivíduos tão diferentes?
Há duas fases em nossas vidas: buscar informações, aprender habilidades, tecnologias e outras buscas externas, na primeira fase; buscar o mundo misterioso, cheio de fantasias, para tentar encontrar o sentido da vida, do envelhecer e do morrer, na segunda fase. Esta última fase pode-nos fazer sentir saudades do não vivido, do vivido, do pretendido, ou seja, saudades daquilo que não chegamos a conhecer. Confirma-se aqui a idéia junguiana de algo preexistente em nós, como se já tivesse sido uma realidade existencial - daí a saudade. São essas saudades e vivências estranhas, como a saudade do não conhecido, os motivos desses dois homens criarem a "Lista de Botas" e, unirem-se, transformando as suas diferenças em algo especial e único.
Na sua "Lista de Botas" existiam dois itens responsáveis pela fratura da relação entre esses dois homens: para Carter, foi a imposição de praticar o sexo sem o sentido do compromisso e da convivência - o sexo ao modo de Edward. Para Edward foi o imenso desafio de fazê-lo perder o orgulho e mostrar o seu amor pela sua filha - o afeto ao modo de Carter. Como um homem tão comprometido com a família, como Carter, cheio de conhecimentos gerais do tipo "enciclopédia", poderia colocar por terra toda uma vida de orgulho por si mesmo, em sua conduta monogâmica? E como um homem rico, acostumado ao exercício do poder sobre os outros, poderia se dobrar e renunciar ao seu orgulho para experimentar o abraço da garota mais linda do universo, sem a influência de Carter?
Amar uma mulher de forma verdadeira poderá ser traduzido como fidelidade? Ou a fidelidade é o resultado de uma educação associada a uma boa saúde mental? Ou é apenas resultado de um processo sociocultural? Ou, como dizem alguns, resultado de uma evolução da personalidade rumo à espiritualidade? Ou ainda algo bem mais complexo para se explicar? Como poderíamos pensar sobre esse assunto sem correr o risco de divagar nas águas escuras das dúvidas? Fazemos o mesmo quando pensamos sobre o lado de lá, do pós morte. Por isso não paramos de procurar um mito para dar sustentação a essa nossa angústia. A ciência não consegue mostrar esse mito. Mas Carter escreveu, para o seu amigo Edward, uma frase dita por seu pastor: "Nossas vidas são córregos que correm para o mesmo rio, de encontro ao paraíso que existe na névoa além da cachoeira". Esse mito, ou essa poesia, traduz a linguagem de nossa natureza psíquica e, por isso, nos alcança a alma como um bálsamo para as nossas dúvidas.
Carter, em seu leito de morte e ainda antes de rir até chorar, escreve para Edward e, nessa carta, envia-lhe um conselho: "Encontre a alegria em sua vida, meu querido amigo. Feche os olhos e deixe que as águas te levem para casa". Rir até chorar é um dos itens que Carter pôde riscar da lista. O mito certamente é a verdade maior diante de qualquer mistério. Não podemos deixar de usar a linguagem poética em momentos tão enigmáticos. Nossa mente só se conecta ao coração por meio da poesia. Edward, no velório do seu amigo Carter, pôde dizer a frase: "O mais simples a dizer é que eu o amei e sinto sua falta".
O mito é uma metáfora e também uma fala, uma linguagem, um jeito de explicar o mistério do viver, do morrer e tudo o mais que possa intrigar o homem. Debrucei-me sobre o mito egípcio da pós-morte, como sempre faço ao procurar o sentido mais profundo de situações como o envelhecer e o morrer. E a idéia que esse mito me trouxe foi muito semelhante àquela de minha infância: o julgamento. Porque se o coração do morto for mais pesado do que a pluma da deusa Ma'at, ele acabará no estômago de um demônio faminto. Será o medo do julgamento final a causa de certas culturas, como a minha, terem dificuldades de encarar a morte como um fenômeno natural da vida? Talvez estejamos a misturar em nossas mentes algumas canções de ninar, tão ameaçadoras como o Boi da Cara Preta, à melodia dos sinos que dobram na igreja quando registram a partida de um membro da humanidade. Apavora-nos o julgamento pelo que não queríamos fazer, ou melhor, nem sequer sabermos, às vezes, se estamos agindo tão errado assim. A psicologia de Jung traz o conceito de "Complexo" para nos explicar como o nosso livre arbítrio poderá deixar de existir em determinadas situações e o homem terá de se responsabilizar pelos atos de uma personalidade ainda inconsciente.
A película começa nos afirmando o quanto é difícil entender a soma da vida de uma pessoa e que algumas delas lhe diriam que é medida pelo passado. Outros acreditam que é medida pela fé. Alguns dizem que é pelo amor e outros não lhe encontram sentido algum. Finalmente, o autor nos diz que acredita que a medida é feita por aqueles que se medem a partir de você. Termina nos dizendo: o que posso lhes dizer com certeza, é que em qualquer medida, Edward Cole viveu mais em seus últimos dias do que muitas pessoas gostariam de viver a vida inteira. Pôde também dizer em vivendo que os três últimos meses da vida de Carter foram os melhores de sua existência e, por fim, riscar de sua lista o item: "Ajudar um estranho para o bem". Veio a falecer de olhos bem fechados e entregue às águas que o guiaram 15 anos depois da morte de Carter.
Antonio Almeida e João de Barro, utilizando-se da música de Chaplin, nos questionou: "Para que chorar o que passou, lamentar perdidas ilusões, se o ideal que sempre nos acalentou, renascerá em outros corações"? Como essa película nos mostra, nós vivemos, nós morremos, e a vida continua para os outros. Então, não vamos nos esquecer da nossa mortalidade. Pensamos na morte do outro como algo concreto e esquecemos-nos de fazer o mesmo com a nossa própria morte. Os mitos nos ajudam, com a sua poesia, a encarar o sol, mesmo ofuscando a nossa visão no momento de tomar consciência de nossa finitude. Com os mitos, poderemos olhar atentamente para as coisas e aprender seu sentido mais profundo. Faça isso você também; faça do seu dia normal o mais intenso deles; encontre o seu mito. Abrace os rituais; eles ajudam a não transformar a história de sua vida em um livro de uma única página. Essa é a minha medida da vida para um homem, ou seja, saiba com quantas páginas se escreverá o livro da história de sua vida.


Publicado em : Crônicas, Crônicas
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