O SOL DE ROBERTA, ÀS SEIS Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por GERALDO JOSÉ COSTA JUNIOR, em 31-08-2008 14:39
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As ondas iam e vinham. Mas não eram sempre as mesmas ondas. Isso me causara certa angústia, porque percebi que até o próprio mar, que parece ser sempre a mesma coisa, também se renova.

Quando eu tinha 11 anos, percorri com os olhos toda a linha do horizonte, aqui, neste mesmo lugar, e compreendi melhor porque Dona Celeste, nossa professora de Geografia nos ensinara que a Terra era (e continua sendo) redonda. Longe se vão esses dias.

Nunca olhar para trás. Este é meu exercício mental de todas as manhãs. Pode ser mais dolorido do que olhar adiante. Mais terrível do que não conhecer o perfume das flores, é sabê-los existir e não poder apreciá-los. Agora compreendo. Onde havia flores no meu jardim, com o passar do tempo, eu fora plantando espinhos. Aos 20 anos, eu os desafiava, aos 30, começaram a me machucar. Hoje, satisfeitos e poderosos, senhores de si, os espinhos riem de mim.

Caminho, e meus pés não afundam na areia molhada, embora as ondas, no seu último sopro de vida, me alcançam a todo o momento.

Há pouco, eu estava sentado naquele quiosque. Levei hora e meia pra tomar uma cerveja, causando desespero ao atendente, ávido por generosa gorjeta.
Ao longe, navios cargueiros, enfileirados, rumam para o porto de Santos. Mais próximos da praia, pescadores a bombordo atiram suas redes. Finalmente, depois de três dias seguidos de intensa chuva, o sol desponta no horizonte. Uma brisa refrescante chega até a praia. E posso ver, mesmo que de longe, o sorriso do sorveteiro, empurrando o carrinho. Vende dois aqui, três acolá, e segue adiante, até que a distância que nos separa me faz perdê-lo de vista.

São 9 horas da manhã. O sol tira os banhistas de seus aposentos, e eles aos poucos vão chegando e ocupando as mesas do quiosque, ainda molhadas pela intensa chuva da noite. Resignado, compreendo que é o momento de me retirar. Pago a conta, e o troco, nada além de cinqüenta centavos, deixo como gorjeta para o prestimoso atendente.

Lembro-me disto, enquanto caminho pela praia nesse final de tarde. Se meu espírito vagueia pelo mundo, minha mente, quase sempre, se volta ao passado, por mais remoto ou mais próximo que esteja.

Eu bem sabia que as emoções me tomariam de assalto, ao voltar sozinho a esta cidade.
Deixei o chapéu na Mar Joly, e agora, enquanto caminho cada vez mais longe, o sol frita meus miolos. Vejo rapazes jogando futebol, mas creio sinceramente que meu amigo Tômaz, jamais perderia aquele gol. A moça que estende na areia, uma toalha colorida, sobre a qual, irá se deitar, não é tão bonita quanto Agnes, embora me revele, que, diferentemente daquela, seus lindos olhos verdes, não tem vocação para fugirem de mim. Olhamo-nos, eu e aquela moça, cerca de um minuto, e, com satisfação, percebo que ao menos em se tratando de aparência, não me conto entre os mortos.

Mais adiante, essas lembranças cedem lugar à admiração com a qual contemplo a imagem imponente, bela e sugestiva de Iemanjá. Aos seus pés, amontoam-se oferendas. Iemanjá está nas alturas, é a impressão que se tem, tamanha é a grandeza da imagem, esculpida por mãos hábeis. Iemanjá tem os braços abertos e olhar penetrante, com o qual, parece acolher em sua generosidade, a tudo e a todos.

Eu tinha 17 anos quando acompanhei Roberta até aquele mesmo lugar. Ela depositara sob os pés gigantes da imagem, bonito vaso de flores e gracioso frasco com água de cheiro, do qual, espargira um pouco em redor de nós, antes de oferecê-lo em definitivo à rainha do Atlântico.

Jurou-me que, em agradecimento à Iemanjá por uma graça alcançada, jamais cortaria os cabelos. Mas, anos se passaram e um acesso de loucura varreu de sua cabeça as lindas e fartas melenas, o que ela, muitas vezes, considerava, ter sido a desgraça de sua vida. Roberta foi a melhor amiga que tive na escola. Minha namorada do tempo em que chamávamos sexo, música e bebidas, de viver intensamente. Mas Roberta não foi a minha esposa como havíamos planejado e nos prometido milhões de vezes, uma das quais, sob os pés de Iemanjá. Onde estará Roberta? Onde estarão todos? Eles me diziam que eu era o poeta, o sol de suas vidas. Pior do que essa mentira, é que nela eu acreditava. Meus amigos levantaram acampamento do jardim de nossas vidas, partiram. Não são mais os mesmos. A vida lhes roubou todos os sonhos. E eu, como sol abandonado que se apaga aos poucos já não encontro mais razões para iluminar o deserto.

Penso que devo voltar para minha cidade, meu trabalho e minha rotina. Antes, observo uma gralha que pousa na areia da praia, diante de mim. Ao meu lado, urubus famintos encontram repasto numa carcaça de leão-marinho, morto há dias, a se julgar o cheiro desagradável que exala. Mais adiante, pombas e quero-queros disputam os restos de comida deixada por turistas no dia anterior.

Devo voltar. Afinal, tudo continua do mesmo jeito. Essas coisas aconteciam exatamente iguais há 10, 20, 30 anos.

Observo o sol, o instante eterno que me é possível. Percebo que apesar de toda a
minha dor, o sol, ao menos ele, ainda não desistiu de mim.


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
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Comentários (1)
Postado em SANTOSH, em 28-12-2008 00:56, , Membro Registado
Desconfio, nesses casos, que a recíproca seja sempre verdadeira: Quantas vezes desististe de Roberta, dos amigos, do Sol...?
 
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