BuscaPé, líder em comparação de preços na América Latina
Os Gestores da Inoperância Imprimir Enviar para um amigo
Avaliação desta obra: / 1
RuimÓtimo 
 
Escrito por João Batista Drummond, em 02-09-2008 18:45
Avaliação média    (0 voto)
Visitas 1213    
Favoritos Nenhum

Apesar do seu jeito pacato de lugarejo do interior Brejolândia dos Canfudós foi o berço de movimentos de vanguarda que viriam, depois criar tendências,escolas.
Este paradoxo muito me intrigava desde criança e mais tarde, mais experiente, me vi transformado de mero observador desatento dos fatos em relator e narrador daqueles eventos que ocorriam ali entre as montanhas e marcariam definitivamente meu modo de enxergar o mundo.
Livre das ondas frenéticas do modernismo e da corrida neurótica do capitalismo selvagem, a aldeia fora precursora de movimentos que viriam revolucionar o pensamento das futuras gerações.
Fui convidado pelos lideres da aldeia na condição de escritor e autor para deixar registrado de forma fiel e precisa tudo que ali fosse proposto.
O professor João Jorge Jaboatão novamente estava à frente daquela iniciativa que segundo dizia, mudaria a face da Terra e lançaria o planeta definitivamente na era de Aquários.
Ao chegar,vi ali figuras conhecidas de sempre: o Desembargador Gumercindo, tio Maurílio, primo Tadeu, a figura ilustre do Doutor Astromar Falcone entre outras.
O professor João Jorge iniciou o seu discurso:
- Senhores, todas as iniciativas e movimentos que temos proposto aqui, neste núcleo de estudos e pesquisas, têm sido bem sucedidos. Ai dos brasileiros se nós, deste seleto grupo, não estivéssemos aqui, a fazer o caberia ao governo de Brasília. A inoperância e ineficiência deste governo devem ser compensadas por nós homens de boa vontade para o bem da humanidade.
Enquanto o governo em Brasília cria o Núcleo Gestor da Crise Energética, nós estamos criando aqui o Núcleo Gestor da Escuridão, com o propósito de estudar e propor medidas que venham a erradicar definitivamente os riscos históricos de uma crise energética. Nós temos a difícil missão de redirecionar a cadeia de fatos e eventos para impedir o caos que se prenuncia. O nosso núcleo se apóia em algumas idéias simples, sendo que uma delas é transformar a crise em criação, tirar a abundancia da carência, encontrar soluções criativas em situações criticas. Aí eu pergunto a vocês, numa crise o que falta e o que sobra?
O primo Tadeu arriscou:
- Sobra raiva e falta animo.
- Errado, jovem Tadeu, na crise não falta nada e sobra tudo. Por exemplo, durante o dia sobra a luz do sol, à noite sobra a escuridão. A escuridão é abundante e a principal matéria-prima do nosso trabalho. A proposta do nosso núcleo é se trabalhar com a abundancia de cada ciclo. Senão vejamos, de dia aproveitando a luz do sol, vamos propor que as pessoas façam o que sempre fizeram, não mudem nada certo?
- Certo, e na escuridão? (pergunta o tio Arlindo)
- A escuridão as pessoas devem aproveitar para dormir.
- Mas isto é o obvio, qual é a novidade da proposta?
- Há um ditado na China que diz: "Quando chover deixe que chora". A novidade da proposta está na filosofia empregada pelas pessoas durante a crise. Vamos propor ao mundo que, quando fizer sol, que deixem o sol brilhar e quando chegar a escuridão, que deixem a escuridão escurecer, entenderam a proposta?
Ninguém tinha entendido nada, mas como a tia Nicinha estava chegando com sucos e quitutes, achamos por bem concordar com o professor pra ver se ele encerrava logo aquele papo furado.
O professor completou:
- Para finalizar tenho uma surpresa para vocês, vamos esperar mais alguns minutos.
De repente todas as luzes do sitio se apagaram e o professor se explicou:
- Combinei com a companhia de eletricidade para cortar a luz num apagão simbólico, ficaremos no escuro por duas horas.
O tio Arlindo protestou:
- Mas professor assim os salgadinhos vão esfriar.
E o professor respondeu com voz solene:
- Se os salgadinhos esfriarem, deixem que esfriem.
Só ouvi barulhos de objetos se chocando no ponto em que o professor estava e ele saindo pela porta lateral rogando impropérios.
A turma havia descarregado seus sapatos no cretino do professor.


Publicado em : Literatura - Contos, Diversos
Quote this article in website Favoured Send to friend

Comentários (0)

Nenhum comentário

Adicionar comentário

< Anterior   Próximo >