| Os Gestores da Inoperância |
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Apesar do seu jeito pacato de lugarejo do interior Brejolândia dos Canfudós foi o berço de movimentos de vanguarda que viriam, depois criar tendências,escolas.
Este paradoxo muito me intrigava desde criança e mais tarde, mais experiente, me vi transformado de mero observador desatento dos fatos em relator e narrador daqueles eventos que ocorriam ali entre as montanhas e marcariam definitivamente meu modo de enxergar o mundo. Livre das ondas frenéticas do modernismo e da corrida neurótica do capitalismo selvagem, a aldeia fora precursora de movimentos que viriam revolucionar o pensamento das futuras gerações. Fui convidado pelos lideres da aldeia na condição de escritor e autor para deixar registrado de forma fiel e precisa tudo que ali fosse proposto. O professor João Jorge Jaboatão novamente estava à frente daquela iniciativa que segundo dizia, mudaria a face da Terra e lançaria o planeta definitivamente na era de Aquários. Ao chegar,vi ali figuras conhecidas de sempre: o Desembargador Gumercindo, tio Maurílio, primo Tadeu, a figura ilustre do Doutor Astromar Falcone entre outras. O professor João Jorge iniciou o seu discurso: - Senhores, todas as iniciativas e movimentos que temos proposto aqui, neste núcleo de estudos e pesquisas, têm sido bem sucedidos. Ai dos brasileiros se nós, deste seleto grupo, não estivéssemos aqui, a fazer o caberia ao governo de Brasília. A inoperância e ineficiência deste governo devem ser compensadas por nós homens de boa vontade para o bem da humanidade. Enquanto o governo em Brasília cria o Núcleo Gestor da Crise Energética, nós estamos criando aqui o Núcleo Gestor da Escuridão, com o propósito de estudar e propor medidas que venham a erradicar definitivamente os riscos históricos de uma crise energética. Nós temos a difícil missão de redirecionar a cadeia de fatos e eventos para impedir o caos que se prenuncia. O nosso núcleo se apóia em algumas idéias simples, sendo que uma delas é transformar a crise em criação, tirar a abundancia da carência, encontrar soluções criativas em situações criticas. Aí eu pergunto a vocês, numa crise o que falta e o que sobra? O primo Tadeu arriscou: - Sobra raiva e falta animo. - Errado, jovem Tadeu, na crise não falta nada e sobra tudo. Por exemplo, durante o dia sobra a luz do sol, à noite sobra a escuridão. A escuridão é abundante e a principal matéria-prima do nosso trabalho. A proposta do nosso núcleo é se trabalhar com a abundancia de cada ciclo. Senão vejamos, de dia aproveitando a luz do sol, vamos propor que as pessoas façam o que sempre fizeram, não mudem nada certo? - Certo, e na escuridão? (pergunta o tio Arlindo) - A escuridão as pessoas devem aproveitar para dormir. - Mas isto é o obvio, qual é a novidade da proposta? - Há um ditado na China que diz: "Quando chover deixe que chora". A novidade da proposta está na filosofia empregada pelas pessoas durante a crise. Vamos propor ao mundo que, quando fizer sol, que deixem o sol brilhar e quando chegar a escuridão, que deixem a escuridão escurecer, entenderam a proposta? Ninguém tinha entendido nada, mas como a tia Nicinha estava chegando com sucos e quitutes, achamos por bem concordar com o professor pra ver se ele encerrava logo aquele papo furado. O professor completou: - Para finalizar tenho uma surpresa para vocês, vamos esperar mais alguns minutos. De repente todas as luzes do sitio se apagaram e o professor se explicou: - Combinei com a companhia de eletricidade para cortar a luz num apagão simbólico, ficaremos no escuro por duas horas. O tio Arlindo protestou: - Mas professor assim os salgadinhos vão esfriar. E o professor respondeu com voz solene: - Se os salgadinhos esfriarem, deixem que esfriem. Só ouvi barulhos de objetos se chocando no ponto em que o professor estava e ele saindo pela porta lateral rogando impropérios. A turma havia descarregado seus sapatos no cretino do professor.
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