Diário de um cardiopata Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Roberto J. Fraga Moreira, em 04-09-2008 19:15
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Eu sou um cardiopata, ou seja, sofro de problemas relacionados com o coração. No meu caso particular, não uso marca-passo, válvulas, e nem fiz transplante do órgão, já que o meu problema está circunscrito às coronárias, por onde circula o sangue que irriga o músculo cardíaco. Estas minhas artérias possuem a invulgar capacidade de permitir, com enervante regularidade, a criação de placas (ateromas) em suas paredes, fato que, volta e meia, me faz sair às pressas para o hospital mais próximo de casa, prioritariamente. Um hábito inquietante que já esta fazendo com que me habitue com o problema (se é que alguém pode se acostumar com uma coisa dessas).

Em 1979, portanto há mais de 26 anos, fui submetido à primeira cirurgia do coração quando tinha apenas 36 anos, pela equipe do Dr. Eurípides de Jesus Zerbini, o pioneiro dos transplantes cardíacos no Brasil, já falecido, e da qual ainda faz parte o renomado cardiologista Dr. Professor Radi Macruz. Tive sorte em cair nas mãos de um grupo tão seleto. E é por essa razão que sempre digo aos meus amigos : "eu amo Jesus, mas o meu coração é do Dr. Macruz."

A segunda intervenção ocorreu dez anos depois, em 1989, prazo em que, segundo os médicos, é previsível uma nova oclusão; não necessariamente nas mesmas artérias revascularizadas. Mas para que isso não aconteça com certa regularidade, será preciso que o cardiopata adote um tipo de vida bem ajuizada. (Leia-se espartana) Com os cuidados indispensáveis na alimentação, a prática regular de exercícios e uma vida sem estresse, as chances da ocorrência de uma patologia desse gênero são bem diminutas, o que proporciona ao seu detentor razoáveis condições de uma sobrevida quase que normal.

Mas quem consegue viver uma vida espartana hoje em dia, com tantas emoções e facilidades que a vida moderna oferece? Eu sei que isso não é pretexto para não seguir, à risca, as orientações clínicas, mas somente quem esta sujeito a isso é que sabe das dificuldades em se fazer uma dieta balanceada, renunciando aos prazeres da mesa e, principalmente, não se aborrecendo com os inúmeros problemas que enfrentamos quase sempre.

Claro que negligenciando a prescrição do médico o cardiopata fica sujeito a algumas surpresas; e que surpresas! Eu, especificamente, após a operação de 1989, já havia feito três angioplastias para a desobstrução dos vasos sanguíneos, sendo a última há menos de um ano - a ponto de já estar me tornando conhecido por alguns médicos do setor de hemodinâmica da Beneficência Portuguesa. E olha que por ali passam, diariamente, mais de 100 pacientes. Mas não estou me vangloriando disso, imagine! Fico é muito apoquentado em ter me tornado um paciente contumaz. Passa uma impressão de negligência e total desprezo pela própria saúde, embora faça de tudo para seguir as recomendações dos doutores, juro! Lógico que não ao pé da letra, reconheço. Mas, no geral, não sou de fazer excessos.

Uma ocasião quando fui a um consultório fazer exames de rotina, após as perguntas de praxe acerca do meu histórico de saúde, o médico declarou solenemente que estava diante de “Um milagre personificado da medicina”. Não sei se fico lisonjeado ou muito encucado com esta manifestação mais do que surpreendente. Até hoje ainda a carrego comigo e tento, de todas as maneiras, interpretar o que realmente ele quis dizer com aquela frase.

Recentemente, fiz um daqueles ditos exames de rotina, precisamente uma cintilografia - é um método de investigação clínica que consiste na injeção endovenosa ou ingestão de uma substância radioativa com afinidade eletiva para determinado órgão – e para minha enorme surpresa (?), descobri que estava ENTUPIDO NOVAMENTE! Sim, com direito a dor no peito e tudo mais durante o exame. Que tal? Estão com inveja? Não é para qualquer um isso eu garanto. O fato então veio confirmar que eu precisava...Adivinhem ?

Isso mesmo acertaram em cheio: precisava ir, novamente, confraternizar com os médicos da hemodinâmica. Na hora pensei: como seria recebido? Com aplausos, sorrisos irônicos, ceticismo, indiferença, ou levaria uma bronca daquelas pela negligência de estar me tornando uma espécie de paciente voluntário, de tempo integral, para o treinamento dos cirurgiões dessa área especifica? Era só o que me faltava!

Quando dei conta, estava naquela sala enorme, gelada devido ao ar condicionado estar sempre ligado ao máximo, nuzinho em pêlo (imaginem a cena) sendo espetado, balançado de um lado para o outro, picado por infindáveis agulhas de todos os tipo, injetado com um contraste que ardeu como as chamas do inferno em minhas entranhas, isso tudo depois de já haver sido introduzido um cateter pela minha virilha. E eu ali, peladão da Silva totalmente exposto aos olhares de várias pessoas, principalmente enfermeiras, já ficando com uma cor meio azulada devido ao frio intenso e sendo objeto dos mais variados procedimentos médicos. Acho que já perdi até a vergonha. Afinal, todos ali deviam estar cansados de ver pacientes nus todos os dias; talvez não tão bonitos como eu, mas...tudo bem.

Na hora em que o médico iniciou o procedimento da inserção do contraste, foi quando recebi a maior carga de radiação, oportunidade em que o médico disse que eu iria sentir um "calorzinho" quando a substância fosse introduzida, aquecendo o sangue que ia sendo bombeado para todo corpo, fazendo com que sentisse o calor terminar lá no ânus.

Então, naquele momento crucial eu disse com toda ênfase, com o resto de dignidade que ainda me restava: "pega leve doutor, assim o sr acaba queimando a rosca ".

Depois de uns quarenta minutos, que me pareceram horas sem fim, fui informado de que, finalmente, a intervenção médica havia terminado com pleno sucesso. Então, gentilmente, depois de ser enrolado em um lençol alvo como a luz divina, recebi o amável convite para desfrutar de merecidas férias na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), com direito ao uso de uma infinidade de remédios, litros de soro, mais espetadelas, e a companhia de formosas e sensuais enfermeiras, entre loiras e morenas. Se bem que do jeito que me encontrava, isso não iria fazer a menor diferença.

Passado o momento crítico, e havendo sinais de uma rápida recuperação, logo fui transferido para um apartamento particular com banheiro privativo (que delícia) tv a cores, (velha, mas funcionando), amplo espaço para movimentar à vontade. Só não podia correr atrás das enfermeiras, ter uma ereção (como se isso fosse possível depois de tudo que passei) comer gorduras, sal, ficar estressado ou dar pulinhos pelo quarto – só se fosse em uma perna, tendo de quebra a companhia da minha abnegada esposa em horário integral.

E sabem em que mês ocorreu esta nova angioplastia? Novamente no mês de maio.

No fim, acho que acabei acumulando “milhas hospitalares” suficientes para freqüentar todas as casas de saúde do país inteiramente de graça quando houver necessidade para tal.

Vantagem? Triste sina, isso sim!


Publicado em : Literatura, Poesias
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