Sabedoria: o homem além de sua época Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Carlos São Paulo, em 04-09-2008 23:26
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O que podemos pensar sobre o saber? É apenas umaquestão de raciocínio? A espéciehumana possui uma qualidade única no mundo animal, o instinto da reflexão. E aiestá a base de tudo. As manifestações da natureza seguem um caminho que sealtera com a experiência do homem em sociedade. Como pode a natureza, em seuestado bruto, ser também a fonte de sabedoria do homem? Um bebê acaba de nascer: Ali estão todos os segredosdo universo e, a cada minuto que passa, parece que esse saber vai se perdendo. Nascemos,portanto, com um grande tesouro. O tempo, como uma cortina negra e bemhermética, afasta-nos desta sabedoria original, porém, se nós nos permitirmostrilhar o caminho de volta, poderemos de algum modo inexplicável, fazer contatocom muitos desses segredos e enxergar além do limite. Trilhar o caminho de volta é alcançar a sabedoria depoder ouvir a natureza em sua linguagem silenciosa, semelhante a uma flor quandoexibe a sua beleza para corromper os insetos e atender a sua intenção deperpetuar a espécie e, assim, eternizar-se. Essa natureza se expressa, paranós, por meio de imagens tão enigmáticas quanto conhecidas. Essas imagens nos conectam a algo desconhecido e fazemcom que a vida tente a ser mais viva do que a vivência, para assim construirmosum saber que dispensa o intelecto e pede o encanto da imagem. A psique,semelhante à matemática, é invisível até que uma imagem, carregada detonalidades afetivas, faça-a existir; e é quando tudo acontece.Essas imagens carregadas de tonalidades afetivas sãochamadas de símbolos. Os símbolos, muitas vezes, têm a condição de nos deixarmais sábios, independentemente de qualquer reflexão. Aliás, os símbolos nãoprecisam do intelecto para se expressar, muito ao contrário, o intelecto podese constituir em uma barreira. O encanto da imagem, aquela carregada detonalidades afetivas, muitas vezes buscando desesperadamente uma existênciafísica, pode nos fazer perceber o sentido da vida e nos conduzirharmoniosamente a um caminho sem nos arrastar violentamente por esse mesmocaminho, ou para outro destino. A educação por meio das experiências, muitas vezescheias de sofrimentos, abre caminho para um conhecimento que transcende seu próprioobjetivo e cria a sabedoria de perceber o quanto as suas "realidades"mostram-se "irreais". É quando as pedras se unem para formar um muro que separaa sua condição de não saber que nada sabe para uma outra condição de respeitoaos mistérios. Respeitar os mistérios é a condição para alcançar a sabedoria e,paradoxalmente, poder romper com os nossos paradigmas. Nossos ancestrais convencidos da sua sabedoria, dentretantos absurdos, consideravam o negro uma espécie humana inferior. A mulher nãotinha os mesmos direitos do homem e, além do mais, a terra não girava. Copérnicorompeu com o paradigma de sua época, mas não se sustentou. Surgiu então GalileuGallilei: lutou contra a Igreja sem sair do lado dela, porém, até sua morte, noano em que nasceu Newton, não conseguiu provar sua razão. Newton chegoufinalmente a provar a teoria coperniciana. Situação semelhante presenciamoshoje em relação às pesquisas com as células tronco. Mais uma vez o desrespeitoaos mistérios vindo dos religiosos inverte para eles, de forma prepotente, acondição de saber dos desígnios do criador. Para isso se apóiam num misto deciências misturadas a dogmas e determinam quando a vida começa. A imagem de Einstein chegou até a nossa cultura comoum velho sábio dando a língua e, essa condição ridícula ou engraçada consegueunir a sabedoria ao outro aspecto dessa mesma realidade, a puerilidade. Einstein,por sua vez, ultrapassou a sua época e, então, mostra outra realidade ao rompercom o maior paradigma que já enfrentamos: a do tempo e espaço relativos. Otempo nunca foi senhor de razão nenhuma. Acredito que os homens do futuro perceberão o quanto ésimples muitas das nossas questões enigmáticas de hoje, ao mesmo tempo quereconhecerão o quanto foi importante termos levantado essas dúvidas e contribuídocom descobertas tão elementares para eles. Como estaríamos sem a curiosidadedos nossos ancestrais, sem as suas descobertas que hoje achamos simples e, sem aquelasdúvidas que agora não nos incomodam mais? Poderíamos lembrar de muitos homensque estiveram além de sua época e não foram entendidos. Hoje, teríamos esseshomens como sábios, como exemplo eu cito C. G. Jung. Na humanidade, quasesempre se fazem justiças com injustiças e, também injustiça com justiças, essaé a nossa experiência do viver; estar sempre criando o bem quando faz o mal e omal quando faz o bem.A firmeza é a resistência do sábio. Convidado por suanatureza primitiva, ele, o sábio, com seu ato firme em decidir por um caminhoque tangencia mais o espírito do que as bases instintivas de sua alma, sabe quenada sabe, como dizia o filósofo. E não se fala aqui de filosofia e sim de umapostura de vida coerente com a evolução, sem a tendência em reduzir osmistérios a conceitos. Tendenciosos existem, mas desmascarados.Estamos evoluindo para alcançar a sabedoria de contatarcom os mistérios que conhecíamos antes do nascimento da consciência? Nossaconsciência, como afirma a psicologia de C.G.Jung, dividiu as nossas vidas emopostos irreconciliáveis, proporcionando-nos uma identificação com uma dessas polaridadesem detrimento da outra. Ficamos cegos para muitas verdades que aguardavam nossaevolução para que pudéssemos enxergá-la. Essa evolução chega quandotranscendemos os opostos irreconciliáveis, para então unificá-los como se esperaser pela ordem divina. Os modelos científicos não se sustentam diante dainquietude dos sábios. Sábios são aqueles acostumados a lidar com oscontrários. Os paradoxos nos forçam a refletir. Deles vêm a nossa liberdade depensar e enxergar a microscópica existência humana, diante da imensidão cósmica.


Publicado em : Diversos, Artigos Diversos
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