Categories desta Seção

A Paixão segundo uma puta - Memória da Pele (Parte 1ª) Imprimir Enviar para um amigo
Avaliação desta obra: / 0
RuimÓtimo 
 
Escrito por Kim Ramos, em 10-09-2008 16:08
Avaliação média    (0 voto)
Visitas 772
Favoritos Nenhum

I

Não tenho memória. Não quero ter.
Evito lembrar de algo mais além do vermelho da luz,
a cama rota de uso, de mágoa e de prazer.
Vestes perdidas, sem donos, sem os corpos uma ves nus,
arrojadamente esquecidas à beira do gozo
(que rompe-me até a incredulidade terrena).
são matéria, madeira e papel e roupa para o fogo,
que consumiu tudo. Junto minha memória plena.
Os papéis poetas que recebi de uns infelizes
(poetas fracos da cabeça e do pincel e da rima)
e outras intimidades de mulheres e atrizes
são como um trilho tênue e pálido da fina
volúpia que segue a cavalo com meus olhos, como um apelo,
por toda essa grande imensidão da lembrança:
quero o que desejo. E se o tenho, mato. Até o fim dele, um outro desejo,
para que não haja tempo ou folêgo de contá-los e de amá-los...
de lembrá-los e desejá-los novamente.

Disso não preciso, por isso paro.
Incontáveis foram um disperdício duro,
bruto e intragável no próprio ato.
Consumiu-me, possuiu-me. Vício impuro
esse de se amar e nada poder ter.
Pois "és mulher do riso fácil, mulher de todos."
"Verdade", digo eu. "Gosto de assim cometer
meu pecados, mas choro para poucos.
Por aqueles que fizeram-me arrancar as vestes e véus
cerimoniosamente, num rito, numa dança animal,
onde dei-me por inteira, num casamento sob o Céu,
que julga-nos e chama-nos de gigantes imorais.
Eu peco, você diz...
Mas o que lhe digo é que nessa vezes tolas, você diz,
Deus peca. E com um grande gosto.
Porque espia minhas curvas e, não podendo tê-las,
(não O quero tão santo) abusa de sua evanescência e alto posto
para gritar sua inveja e injúrias incontidas".

Isso é pouco, não é para agora.
(o cheiro do último ainda encharca minha memória).

II

Nos dias em que tiro o dia para contemplar a janela,
minha porta, saída para o que não é meu e particular,
tento escrever (ou melhor, expiar) poemas.
Eles são belos, mas carregados demais de mim mesma,
da minha alma e descuido, da solidão claustrofóbica que optei por moradia.

E quando saio, comprar cigarros ou encontrar outra atração
além da janela,
visto minha melhor máscara mundana,
e sou outra, ou outro. Ou ninguém.
Não importa.
Estou comigo e isso já é grande demais.

III (Notas de rodapé)

Dispas-te,
Aproxima-te,
Venha,
Entra,
Volta,
Goza,
Afasta-te
Vista-te
E some.

IV

Minha alma é esse quarto vermelho e nele habitam todas as expiações do mundo.
Isso tem que ser sabido, entendido
num fôlego só, num rabisco só,
pois é o tempo que tenho para pensar e estar só, comigo e com essas expiações
do mundo que mais deseja-me do que nega.
Meu quarto vermelho é um gueto da vida, uma ode à negação humana,
uma fábrica do nada sentimental.
E por mais incrível que se tome como real,
de todo esse desamor que aprendi a não ter,
eles ainda vêm,
tomam-me como tola e imunda
e pecam seus pecados do mundo e levam-me junto.

V

Hoje tentei conversar com Deus,
esse mesmo que deu-me a Primeira Profissão,
Dignação,
e pôs-me fogo em piras de dor e terror
ao longo da história do Tempo.
Esse mesmo que responde por atos de guerra,
que brinca tolamente com formigas.
Mas a hora era propícia para ser teimosa, pois precisava ser:
"O Senhor está comigo agora?"
É claro que não.
Não há respostas.
Só que Deus, Ele, fez-me para ser o corpo do mundo,
não fala, nem respira,
mas sofrega e suspira em meus ouvidos quando trabalho,
quando sou o que Ele me fez para ser
(e sou por demais),
a primeira das profissões,
o mais antigo desejo,
que Dele vêm.

VI

Meu corpo foi feito para eu viver minha vida,
e nada mais.
Não sou obrigada a viver mais do que eu possa desejar,
pois minha obra é meu sorriso convidativo emoldurado
e meu pagamento é a alma livre e o corpo leve.

Meus poemas são escritos no mesmo lençol,
úmido e vermelho e arrastado de luxúria.
O que traduzo do meu desejo tem forma em meu atos.
Não em palavras.
Palavras essas são somente feitas para serem cantadas
e serão eternamente somente feitas por serem cantadas.


Publicado em : Eróticos, Poesias Eróticas
Quote this article in website Favoured Send to friend

Comentários (0)

Nenhum comentário

Adicionar comentário

< Anterior   Próximo >