Vestido apenas de avental branco, longo de mangas curtas e alvo como foram seus dentes nicotizados, sobre o corpo ainda úmido do banho de descarregar a embriaguês em que se sentia. Ensaiou os passos de sair e se pensou nu, amarrou, por sobre o avental, uma toalha na cintura de um branco encardido e se viu na rua, vagando em uma noite que se transformava em dia. Visitou sua madrasta e não quis demorar além do abraço com sentimentos nunca expressos, não estava devidamente vestido. Nada, está muito bem, o importante foi ter vindo. Viu retratos antigos de quem o pusera no mundo, cumprimentou sem resposta pessoas desconhecidas e, não resistindo à insistente vontade de se vestir, saiu. Tomaria um ônibus. Envergonhado de estar nu naquela noite clara decidiu por ir a pé. Tomou caminhos contrários. Estava longe de casa e mais dela se afastava. Aquela praça era demais conhecida para estar assim tão transformada. Atravessou-a e caiu em uma rua que se tornava íngreme a cada passo que dava. Ir para a frente, a rua era larga; retornar se estreitava em beira de precipício. Mas teria de descer, tinha decidido voltar dali naquela aventura em que estava nu dos panos para baixo. Havia árvores firmes em cada precipício a que se aventurava e delas pendiam cipós. Quis experimentar a força de uma daquelas cordas vegetais e ao tocá-la desistiu, tinha que voltar, mas não podia ser com risco. A custo achou caminhos estreitos que o puseram de novo na praça. Tomou orientação com o ônibus que ali esperava passageiros, não, não passo pela avenida, tem guardas, tenho de ir pelas ruas vazias. Era um ônibus de clandestinos e lhe serviria, mas freqüentar ruas vazias não lhe interessava. Queria retornar, mas queria encontrar pessoas, que respondessem a seus cumprimentos. A praça se elevara e dela saiam ruas largas, mal abertas, asfaltadas, mas erodidas como terra crua. Um carro da polícia, teria ajuda. As pessoas nele mexiam e, parece, o reconstruíam. Ao elevarem a escada traseira percebeu ser um carro de socorro. Pediria ajuda, que não fora de valia. Nada posso fazer, mas a avenida que procura está logo ali abaixo. Viu o movimento, ônibus e carros, longe, descendo chegaria. Nela não havia pistas, mas os veículos se movimentavam entre árvores e cipós, fendas e elevações. Gente, havia gente na rua. Parava, pedia informações e ninguém se incomodava que sua alma estivesse nua. A custo, quem tem boca chegou a Roma. Subiu pelas escadas escuras. A porta de seu apartamento estava aberta. Entrou e desapareceu do mundo dos viventes.
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