Contos da Carochinha Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Roberto J. Fraga Moreira, em 20-09-2008 17:00
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Eu gostava muito de ouvir histórias infantis antes de dormir. Um costume que quase toda criança tem, ou tinha. No meu tempo eram contos de fadas, duendes, Saci-Pererê, Joãozinho e Maria, Lobo Mau, Gata Borralheira, Branca de Neve, A Cuca, o Bicho Papão e tantas outras mais.

Todos eram ridiculamente simples em sua essência, mas que se revestiam de uma magia que fascinava, mesmo que repetidos incontáveis vezes. Nunca cansava ouvi-los, era como se renovassem a cada noite, e às vezes acontecia isso mesmo, quando quem os contava mudava um trecho aqui, outro ali, fazendo com que nunca fosse exatamente a mesma coisa da noite anterior.
Era um mundo maravilhoso de fantasias que enchiam nossos ouvidos com os mistérios que envolviam os seus personagens, na maioria das vezes bizarros, como convinha para prender a atenção de quem os ouvia com redobrado interesse e, até mesmo, um pouco de medo.

Sim, medo, pois alguns deles envolviam bruxas perversas, irmãs malvadas, lobos ferozes, gigantes que moravam em um castelo nas nuvens, sem falar no bicho papão que pegava as criancinhas que desobedecessem aos seus pais, além do Saci-Pererê que dava nós nos cabelos das crianças desobedientes.

Que saudades daqueles tempos onde o perigo só existia em nossa fértil imaginação, que vagava livremente através da voz amiga que embalava os nossos sonhos inocentes, fazendo com que houvesse sempre uma estreita cumplicidade entre quem ouvia o conto e quem o narrava, numa intimidade que aproximava, que aconchegava, que permita uma maior interação, sempre redundando em mais amor e cumplicidade.

Hoje a maioria desses personagens não mais existe, pelo menos nas conversas ao pé do leito como antigamente. Foram substituídos pelo Power Ranger, Homem Aranha, Super-Homem, Batman, Pokémon, e outros mais da literatura infantil japonesa, principalmente.

Não mais necessitam do íntimo contato entre pais e filhos, mas sim dos novos caminhos da Internet, através dos jogos on-line, das revistas super coloridas, e dos CDs que se encontram disponíveis em cada esquina da vida.

A TV, o computador, o game, o celular, o DVD, o Walkman, a máquina e a filmadora digitais, entre outros, carregam todas as fantasias possíveis e imagináveis, bastando apenas o simples toque de um botão para que o milagre de sons e imagens apareçam no momento em que se desejar, e se reproduzam incansavelmente, perante nossos olhos e ouvidos, com toda a força da tecnologia que o mundo moderno colocou ao alcance de todos.

Nada mais será como antes, tudo mudou, como nós mudamos também. A inocência foi embora junto com nossos antigos heróis, cedendo espaço para uma nova realidade na figura dos super-heróis que possuem poderes inimagináveis, que se renovam e atualizam a cada apresentação, preenchendo a imaginação infantil com valores bem diferentes daqueles então cultuados, influindo decisivamente na nova visão dos nossos filhos em relação ao mundo que se transformou, definitivamente, em algo novo e fantasticamente acessível a esta e as futuras gerações.


Publicado em : Crônicas, Crônicas
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