TANGIDOS Imprimir Enviar para um amigo
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Escrito por Helena Karsof, em 16-11-2007 22:14
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Ainda sinto a dor da tangência.
Mandaram-me embora de minha casa, da terra de meus pais, meu regaço, que por séculos chamei de lar.
Como bichos levados até a porteira, apontaram-me a estrada e por herança me foi dado, o medo.
Ouvi tiros de assombro, de sinal, de aviso. Até o vento sopra mais brando, em respeito a minha tristeza. Minha alma maculada, ferida, estrangulada.
Construíram muitas cercas, arames farpados amarrados em meu espírito que outrora era livre e hoje contido, oprimido.
Meus antepassados observam calados, desolados, amordaçados pela lei do silêncio imposto através do preconceito e da violência.
Qual deveria ser a cor? O branco da indiferença ou o vermelho do sangue que jorra, colorindo nosso chão de carmim e dor. O azul da cor dos nobres, ou preto do terror constante?
Sou pessoa, não tenho cor, não tenho raça... Mas minha trajetória virou tese de sabido, assunto de intelectual. Minha identidade, explorada como arte, para enfeitar bacana. Afinal, sou tido como bicho exótico, diferente, quase extinto. As tradições que tanto prezo, viraram coisa para gringo ver.
Não tenho mata, não tenho rio, não tenho terra, não tenho lar. Deixaram-me por piedade, ou liberdade de consciência, um espaço demarcado, que a cada dia fica menor, apertado.
Na cidade carrego o estigma de preguiçoso, bêbado... Mendigo enjeitado. Então, meus olhos se nublam, de coração violentado,nem a sombra de minha memória é respeitada, pois ainda convivo com a "tolerância" dos bondosos.
Sou agora, apenas uma lembrança, texto escrito, redigido em livros de história.

Publicado em : Crônicas, Crônicas
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Comentários (2)
Postado em Helena Karsof, em 21-11-2007 22:32, , Membro Registado
Obrigada por seu comentário Adriano. Que todo aquele que atenda por identificação humana, seja solidário as causas que combatam todo tipo de discriminação e preconceito.
 
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Postado em adriano saraiva, em 20-11-2007 10:20, , Membro Registado
Um texto genial, tocante, nos faz refletir sobre toda essa violência preconceituosa, ganância, opressão. Quanto mais conheços as profundezas da maldade humana mais petrificado fico. Às vezes me enojo dessa merda toda e a esperança parece desmoronar, mas logo recupero o fôlego quando leio textos inteligentes como os teus.
 
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