| TANGIDOS |
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Ainda sinto a dor da tangência.
Mandaram-me embora de minha casa, da terra de meus pais, meu regaço, que por séculos chamei de lar.
Como bichos levados até a porteira, apontaram-me a estrada e por herança me foi dado, o medo.
Ouvi tiros de assombro, de sinal, de aviso. Até o vento sopra mais brando, em respeito a minha tristeza. Minha alma maculada, ferida, estrangulada.
Construíram muitas cercas, arames farpados amarrados em meu espírito que outrora era livre e hoje contido, oprimido.
Meus antepassados observam calados, desolados, amordaçados pela lei do silêncio imposto através do preconceito e da violência.
Qual deveria ser a cor? O branco da indiferença ou o vermelho do sangue que jorra, colorindo nosso chão de carmim e dor. O azul da cor dos nobres, ou preto do terror constante?
Sou pessoa, não tenho cor, não tenho raça... Mas minha trajetória virou tese de sabido, assunto de intelectual. Minha identidade, explorada como arte, para enfeitar bacana. Afinal, sou tido como bicho exótico, diferente, quase extinto. As tradições que tanto prezo, viraram coisa para gringo ver.
Não tenho mata, não tenho rio, não tenho terra, não tenho lar. Deixaram-me por piedade, ou liberdade de consciência, um espaço demarcado, que a cada dia fica menor, apertado.
Na cidade carrego o estigma de preguiçoso, bêbado... Mendigo enjeitado. Então, meus olhos se nublam, de coração violentado,nem a sombra de minha memória é respeitada, pois ainda convivo com a "tolerância" dos bondosos.
Sou agora, apenas uma lembrança, texto escrito, redigido em livros de história.
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