| Lágrimas de Prata - Sic vis pacem para bellum |
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O oficial que gritara as ordens, ninguém menos que o próprio general Fritz Bayerlein. Olhou novamente para seu sargento de armas atrás dele no tanque e com o rádio colado ao ouvido. Joseph Mullheim escutou e olhou para o general, assentindo ao que lhe fora perguntado. Bayerlein soltou o megafone e estendeu o braço direito gritando para que os tanques e panzers da Lehr avançassem sobre os aliados.
De Bruce ouviu o rugir das máquinas e apertou o punho da arma olhando para seu colega americano ao lado. O homem deu um tapa na parte traseira do capacete e firmou os olhos adiante, no que era senão uma parede de alvenaria, que Bony e outro especialista em demolições haviam preparado. O prédio em que estavam os canhões era de esquina e dava acesso aos dois lados da rua central da cidade. Os aliados estavam no alto dos prédios e era claro que os alemães sabiam disso, logo, os tanques e panzers foram entrando e apontando suas armas para cima. Londres novamente. Cúpula e Comissão de Guerra estavam reunidos nos porões de uma antiga fábrica de armas, o chão da fábrica e teto sobre suas cabeças, havia sido reformado e reforçado para agüentar impactos. Era o novo centro de comando aliado na Europa, abaixo dos escombros de uma fábrica destruída no último bombardeio, disfarce eficiente. As tropas de Hitler ainda atacavam a linha Maginot, mas haviam sido retiradas pelas tropas americanas de Bruxelas, Luxemburgo, Grécia, Bulgária, Áustria, Varsóvia e os soviéticos estavam a caminho de Nuremberg e Berlim, era claro que o Eixo estava perdendo a guerra, portanto, os Aliados iriam se voltar para o outro inimigo. Estava começando o primeiro julgamento da Segunda Guerra Mundial. Os combatentes na fria cidade de Bastogne, Linha Maginot, aguardaram até o momento em que Grills e os demais homens acima da rua deram o sinal. Kinard jogou a granada na parede diante deles e baixou sob o escudo de aço do canhão de repetição ao que foi seguido pelos outros homens dento da sala da casa em ruínas. A parede abafou o estrondo e começou a ceder. O SAS e a Easy Company tinham ordens de reagir somente depois do baque da primeira bala daqueles canhões. Pois o primeiro tiro foi ouvido. As infantarias do SAS (menor) e da Easy (enorme) deram as mãos e gritaram juntos. Assim que a parede da casa bateu no chão e o primeiro tanque Pantera foi aniquilado pelo tiro do projétil do canhão de repetição, os homens puseram os corpos pelas frestas das janelas e abriram fogo. Um dia depois de terem passado o natal de 44 em silêncio e tremendo de frio, os soldados podiam mais uma vez reagir e lutar. Gascoin subiu em uma mesa velha e meteu o cano da MVK para fora abrindo fogo contra o primeiro grupo de alemães que viu na frente. Os metralhadores ingleses sobre os tanques americanos apareceram ao flanco direito dos alemães atirando e avançando sobre os soldados da infantaria. Dos mais de sessenta mil homens da intifada inicial alemã restavam pouco mais de trinta mil divididos por toda cidade, o que deixava os grupos separados e fracos. O general Bayerlein, com meio corpo para fora do último tanque Pantera, totalmente na retaguarda do ataque, gritou desesperado para seu oficial de rádio para que enviasse uma mensagem à Berlim, "Os aliados não estão recuando!". Antes de o rapaz pegar o fone, um zunido fora ouvido em dois lugares ao mesmo tempo. Cúpula e Comissão de guerra foram jogados no chão pelos soldados da segurança. Novamente o som das bombas-foguete V2 aterrorizava Londres. A artilharia antiaérea britânica havia conseguido identificar a trajetória das bombas, que apesar de grande poder de destruição, eram falhas exatamente por ser de fácil localização. Sob os braços de um oficial de patente, Liv fechou os olhos e aguardou que tudo acabasse. Viu quando a Cúpula foi retirada pra outra sala, provavelmente muito mais fortificada. As bombas caíram sobre Londres arrasando centenas de prédios. O prédio em que estavam não era alvo primário, mas também foi atingido. O teto tremeu e começou a desabar. O soldado que a protegia levou um bloco de concreto na cabeça o que o deixou desacordado, Liv puxou o rapaz para baixo da mesa e tentou se proteger. Mais explosões vinham das laterais da sala e Liv foi atingida por um pedaço de madeira que lhe acertou o queixo e o tronco. A bela desfaleceu sobre o corpo do soldado. Em Ardenes, o general Bayerlein olhou para cima, ajeitou o quepe e empertigou-se estendendo a mão ao longo do braço para frente. __ Heil Hitler!Mein Fuhrer! - era desse tipo de crença que Hitler estava precisando. O projétil de trinta quilos a oitocentos quilômetros por hora atingiu o tanque em que ele estava despedaçando general e mais qualquer coisa por perto. Mais seis tanques alemães foram destruídos pelos canhões de repetição que recebiam cobertura da infantaria e da elite de tiro. O primeiro dia foi controlado pela ofensiva alemã, contra-ataque aliado e uma retirada dos nazistas. Houve um dia de silêncio dos canhões e na noite de trinta de dezembro novo levante do Eixo. A munição dos canhões havia acabado, assim como o comando e os tanques Panteras dos alemães, mas Hitler tinha razão em acreditar na fúria de seus soldados. Londres se recuperava do último ataque e Liv havia sido ferida no peito e no rosto, então, estava sob cuidados médicos num hospital de campanha. A grande linha de infantaria nazista foi vista subindo as colinas da cidade. Bony levantou-se de sua posição e foi caminhando para fora da casa. Lions tentou detê-lo, mas além do homem ser bem maior que ele, o olhar disse tudo, "Chega". Bony abriu fogo contra os primeiros alemães escondidos atrás dos restos de um carro, rapidamente foi alvejado pelas metralhadoras do inimigo. Lions viu seu amigo tomar três tiros no tronco: o grande inglês negro sentou-se no chão, ejetou o pente da MVK, apôs outro e voltou a atirar. Lions, Gascoin e Demot saíram de suas posições e ficaram ao lado de Bony, atirando. A Easy Company vinha pelo flanco leste e mais alemães subiam a encosta. Os primeiros soldados de preto chegaram a eles e começou a luta corpo a corpo. Bony sangrava pela boca e pelo tronco, mas mantinha a arma em punho e lutava. Gascoin abriu fogo contra um grupo de vinha do leste e recebeu estilhaços de parede no rosto, o ferimento em seu olho estava cicatrizado e havia deixado uma marca grande, de cima para baixo. A perna ainda doía e estavam todos exaustos. De Bruce saiu da casa onde ficavam os comandantes e mantinha numas das mãos a MVK e na outra a Webley 45. Um soldado veio por trás de Erney com uma baioneta para matá-lo, Gascoin correu de sua posição para tentar ajudar e Demot quis ficar perto deles. O soldado alemão foi contido por uma bola de pó vermelho que precipitou em seu peito. Do alto da campana Grills também estava cansado. O coronel americano gritava alguma coisa quando uma granada explodiu perto do jipe em que ele estava e o matou. __Kinard! - gritou Bruce - Médico! Onde está o Jekill? - perguntou aos seus homens. __Estava comigo e Cheston numa casa no final da rua, vou buscá-lo! - e onde diabos deveria estar o médico da equipe? Gascoin chegou perto da casa quando notou que ela sacudiu a fachada e fez tremer a rua. O francês arregalou os olhos e perdeu o equilíbrio por um segundo. Olhou para dentro e viu alguns americanos, Cheston e Jekill, apoiados nas paredes quase caindo também. Foi até perto da porta e esticou o braço para os homens. __Saiam daí logo! Essa casa vai cair! - tirou dois americanos puxando-os e estava com o terceiro homem na mão. A casa começou a vir abaixo, os homens que havia tirado de lá o puxaram para a rua, ainda assim, quase são mortos na implosão. Gascoin voltou ensangüentado e sujo para onde seu comandante estava e contou que Jekill e Cheston estavam mortos. Perdiam seu oficial médico. Sem tempo para reclamar, mais uma explosão o fez voltar ao pique da briga. Grills terminava seus boldriés e descia para a rua portando uma metralhadora americana tirada de um soldado morto. __Havia um lança-rojão no telhado daquela casa!- disse Demot. Bruce o mandou correr até lá e abrir fogo. Os demais dariam cobertura. Lado a lado com os americanos e ingleses, o SAS manteve seu homem sob a proteção das armas atirando em alemães ainda resistentes e ativos. Demot teve alguma dificuldade de chegar ao local e pegar o equipamento. Assim que o preparou e começou a atirar, dezenas de homens com as suásticas nos braços foram jogados para o alto e mortos. O grupo estava no final da rua, perto dos escombros da casa destruída e Demot no telhado de uma casa lateral. Bruce olhou para cima e abriu a boca em desespero. __Ah, mas que maldição... - os demais notaram que seria inútil correr. Um caça ME 109 alemão manobrava em direção à rua. A bomba desprendeu da barriga da aeronave acompanhando a inércia do jato que iniciava uma curva à esquerda. O cilindro preto veio cair à direita do grupo, cinqüenta metros adiante. Um destacamento canadense foi dizimado e a explosão varreu parte da rua jogando os aliados uns contra os outros ou contra as paredes. Bruce caiu sobre os escombros da casa olhando ainda para cima. Gascoin gritava, mas parecia não ouvir sua própria voz, um filete de sangue descia pelos ouvidos. Grills estava desacordado num canto, não se sabia se vivo ou morto. Demot em pânico olhava seus colegas. Bony tinha o torço sangrando e gritava com as mãos tentando fechar o ferimento. Os americanos carregavam corpos por todos os lados e a rua toda parecia cinza, bege e vermelha. Gascoin rastejou até Grills, mas não conseguiu ver se estava vivo ou não. Lions e Erney escoravam-se tentando chegar ao lado da rua e sentar no meio fio. Gascoin arrastou o corpo inerte de Grills e chegou junto com Demot assim que ele desceu do telhado até seus amigos. Bony caiu diante deles. Gascoin gritava pra De Bruce sair dali, mas o coronel ainda olhava para cima, parado. Os franceses carregaram Grills e foram com Erney e Lions até onde estava o tenente-coronel Marrik de Bruce. Notaram que os alemães a sua volta corriam e o ataque havia cessado de repente. Bruce mantinha os olhos vidrados no céu. O caça alemão executou outra manobra apontando o nariz para rua vindo de frente ao grupo. Grills acordou e pôs-se de pé. Bruce olhou seus homens junto dele: feridos, sujos, ensangüentados, mortos, chorando, assustados, eram seus homens. O que havia sobrado de seu grupo do Special Air Service naquela porcaria de guerra. Lions passou a mão pelo braço do coronel e sentiu a ponta de ferro da construção caída que lhe feria o torço até quase o coração. Alertou os demais. Só que ninguém sabia o que fazer. O caça acelerou em direção à rua. Era um comandante e seus homens. Sabendo que não tinha o que fazer, Bruce balbuciou alguma coisa. __Sic vis pacem para bellum. "Se você quer paz, prepara-se para a guerra" Fechou a cara e estendeu a mão a Gascoin pedindo-lhe sua Webley. Pareceu-lhe justo que seu último tiro de guerra fosse contra um desses aviões alemães. Seus homens não iriam sair dali de qualquer modo. Deu dois tiros contra o avião que vinha a toda velocidade. O terceiro tiro da Webley calibre 45 transformou o caça numa bola de fogo que perdeu altitude e direção rapidamente. Os homens olharam pasmos e segundos depois o P-51 Mustang americano passou na perpendicular e o piloto comemorava por abater mais um alemão. Bruce deixou a arma cair e fechou os olhos. Era primeiro de janeiro de 1945, os alemães haviam sido rendidos, as tropas nas cercanias da cidade foram retiradas para qualquer canto, sem comando algum, o bolsão de resistência alemão havia caído, estavam praticamente derrotados. Gascoin pegou a arma do chão e os sobreviventes tiraram o corpo do tenente-coronel dos escombros da casa. Hoje em dia os homens têm apoio suficiente para levar seus mortos de volta, para que sejam enterrados em seus países. O Tenente-Coronel Marrik de Bruce, comandante do Grupamento do Serviço Aéreo Especial da Casa Ocre de Hereford, não seria brindado dessa sorte, mas ele teria outra. Depois de passado o ataque alemão, depois de vencidos, depois da chegada de centenas de pára-quedistas americanos, após a vinda de seis divisões blindadas aliadas, quando a luta havia sido encerrada, o comandante dos homens do SAS teria seu descanso, ali mesmo, na floresta de Ardenes. Os homens chorosos escolheram um local de vista nobre, para que eles mesmos vissem. Grills improvisou uma cruz que espetou na cabeceira da cova profunda que haviam cavado com ajuda americana. As divisas de tenente-coronel foram enterradas com ele. Erney fez uma prece para seu comandante. Gascoin baixou sobre a terra e agradeceu ao homem que o tirou do campo de concentração de Dachau, Demot agradeceu também, chorando; Lions lembrou-se de quando o comandante pediu que ensinasse o que sabia aos franceses; Grills ficou diante dos demais enquanto prestavam continência entre sinceras lágrimas e executou uma salva de nove tiros, um para cada homem do Serviço Aéreo Especial morto naquela guerra. O saldo era de quinze mil mortos americanos, dois mil civis e quase quarenta mil alemães. As divisões nazistas tiveram de recuar não pela perda de homens, mas pela falta de balas, coisa que os prejudicaria em breve.
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